Diesel pode faltar no Brasil? Veja quando e por que o agro entrou em alerta em plena safra

Alta do petróleo causada por tensões no Oriente Médio e retração das importações acendem sinal vermelho no mercado; diesel é um combustível é essencial para máquinas agrícolas, transporte e logística da produção.

A possibilidade de falta de diesel no Brasil nas próximas semanas começou a preocupar o mercado de energia, o agronegócio e o setor de transportes. Especialistas e entidades do setor alertam que a combinação de tensões geopolíticas no Oriente Médio, aumento do preço do petróleo e redução nas importações de combustível pode gerar problemas de abastecimento já em abril.

A preocupação ganhou força após análises da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), que apontam que até dez dias sem fechamento de novos contratos de importação podem resultar em desabastecimento pontual em algumas regiões do país.

O alerta ocorre em um momento sensível para a economia brasileira: o país está em plena safra agrícola, período em que o consumo de diesel aumenta significativamente para movimentar máquinas, caminhões e toda a logística que sustenta o escoamento da produção.

Guerra no Oriente Médio pressiona mercado global de energia

O cenário atual está diretamente ligado à escalada de tensões no Oriente Médio, especialmente envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, que impactou rotas estratégicas de transporte de petróleo.

O Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo comercializado no mundo, sofreu interrupções operacionais, gerando forte volatilidade nos preços internacionais da energia.

Com o aumento da incerteza sobre o abastecimento global, o preço do petróleo disparou e chegou novamente próximo dos US$ 100 por barril, registrando altas expressivas em poucos dias.

Para tentar conter a escalada, a Agência Internacional de Energia (AIE) anunciou a liberação de cerca de 400 milhões de barris de reservas estratégicas de mais de 30 países. Ainda assim, especialistas afirmam que a medida pode não ser suficiente para compensar as perdas de oferta provocadas pelo conflito.

Segundo analistas do setor, o problema é estrutural: não se trata apenas de estoque, mas da capacidade de produção e transporte do petróleo, que foi afetada pelas tensões na região.

Defasagem de preços trava importações

Outro fator que preocupa o mercado brasileiro é a diferença entre os preços praticados internamente e o valor do combustível no mercado internacional.

Enquanto refinarias privadas e importadores já repassaram parte da alta do petróleo aos preços domésticos, a Petrobras vinha mantendo valores congelados por um período, ampliando a defasagem em relação à chamada paridade de importação.

Esse cenário cria um efeito imediato:
importadores deixam de fechar contratos quando o preço de compra no exterior fica maior do que o valor possível de venda no Brasil.

O resultado é a redução da entrada de combustível no país.

Especialistas alertam que o Brasil precisa importar cerca de 30% do diesel consumido internamente, o que torna o abastecimento sensível a oscilações no mercado internacional.

Se o ritmo de importação cair por alguns dias consecutivos, o produto que deixou de ser contratado pode fazer falta semanas depois, justamente quando o combustível deveria chegar aos terminais e distribuidores.

Petrobras reajusta preço do diesel

Diante da pressão internacional, a Petrobras anunciou recentemente um reajuste de R$ 0,38 por litro no diesel A vendido às distribuidoras, elevando o preço nas refinarias para cerca de R$ 3,65 por litro.

Considerando a mistura obrigatória do combustível — composta por 85% de diesel A e 15% de biodiesel — o aumento representa cerca de R$ 0,32 por litro no diesel B vendido nos postos.

A decisão ocorre em meio à pressão internacional sobre o petróleo e à preocupação crescente com o abastecimento.

Mesmo com o reajuste, especialistas alertam que o mercado segue atento à evolução do conflito internacional e ao comportamento das importações.

Diesel é combustível estratégico para o agronegócio

No campo, o impacto pode ser ainda maior. O diesel é considerado um insumo essencial para praticamente todas as etapas da produção agropecuária.

Ele abastece:

  • tratores
  • colheitadeiras
  • pulverizadores
  • caminhões de transporte
  • sistemas logísticos de insumos e alimentos

Segundo dados do setor energético, cerca de 11% de todo o diesel consumido diretamente no Brasil é utilizado pela agropecuária.

Quando se inclui o combustível usado no transporte da produção — desde fertilizantes até grãos e carnes — o impacto do diesel no agronegócio se torna ainda maior.

Estimativas do setor indicam que frete e combustível podem representar entre 25% e 30% do custo total da produção agrícola.

Além disso, aproximadamente 73% da energia utilizada na agropecuária brasileira vem de combustíveis fósseis, principalmente diesel, o que reforça a dependência do setor.

Efeito pode chegar ao preço dos alimentos

Se houver dificuldade de abastecimento ou aumento significativo do combustível, os impactos podem se espalhar por toda a cadeia produtiva.

Entre os possíveis efeitos estão:

  • aumento do custo de produção agrícola
  • encarecimento do frete rodoviário
  • pressão sobre o preço dos alimentos
  • atrasos no plantio ou colheita em algumas regiões

No Brasil, o transporte rodoviário responde por mais de 60% da movimentação de cargas, incluindo grãos, fertilizantes e ração animal.

Qualquer instabilidade no abastecimento de diesel tende a impactar diretamente essa logística.

Há risco real de faltar diesel?

Apesar do alerta das entidades do setor, especialistas destacam que não há indicação de um colapso generalizado de abastecimento no país neste momento. O que preocupa o mercado é a possibilidade de desabastecimento pontual em determinadas regiões, caso a importação de diesel continue reduzida e a demanda permaneça elevada.

Além disso, existe o chamado “efeito psicológico”, quando consumidores antecipam compras com medo de aumentos ou escassez, o que pode elevar artificialmente a demanda e pressionar ainda mais o sistema de distribuição.

Por isso, autoridades e agentes do setor seguem monitorando o cenário internacional e o comportamento do mercado interno nas próximas semanas.

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