Alta de até 40% no diesel, restrições de abastecimento e impacto logístico colocam produtores em alerta durante colheita da soja e plantio do milho segunda safra não apenas em Mato Grosso, mas em todo o agro
O avanço da colheita da soja no Centro-Oeste, especialmente em estados como Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, está sendo marcado por um novo fator de pressão sobre o produtor rural: a disparada no preço do diesel e as restrições no abastecimento, que chegam em um momento crítico do calendário agrícola. Em algumas regiões, o litro do combustível já alcança R$ 9,50, enquanto relatos de dificuldade de acesso ao produto se multiplicam, afetando diretamente o ritmo das operações no campo e o planejamento da próxima safra.
De acordo com levantamento, o diesel chegou a subir até 40% em determinadas localidades, elevando significativamente os custos operacionais das propriedades . O cenário levou a Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato) a formalizar uma denúncia junto ao Procon estadual, solicitando investigação sobre possíveis práticas abusivas na comercialização do combustível.
Alta expressiva do diesel e pressão inflacionária no campo
Dados do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) indicam que o preço médio do diesel S500 na modalidade TRR — utilizada por produtores para compras em grande volume — saltou de R$ 5,83 para R$ 7,47 por litro, uma alta de cerca de 28% em curto período . Em regiões isoladas, no entanto, o aumento foi ainda mais agressivo.
Em municípios como Juruena, produtores relataram aumentos abruptos, com o combustível saindo da faixa de R$ 7,00 para R$ 9,50 praticamente da noite para o dia, refletindo a volatilidade internacional e o impacto direto do conflito no Oriente Médio sobre os preços do petróleo.
Além da elevação dos preços, há relatos de racionamento e restrição na entrega do diesel por distribuidoras, o que agrava ainda mais a situação. Em regiões como Nova Xavantina e Barra do Garças, produtores afirmam que o fornecimento tem sido limitado, prejudicando a continuidade da colheita .
Impacto direto nos custos de produção e na logística
O diesel é um dos principais insumos da produção agrícola, sendo essencial tanto para a operação de máquinas quanto para o transporte da produção. Com a disparada dos preços, o impacto é imediato.
Em Água Boa (MT), por exemplo, o custo do combustível subiu de R$ 5,67 para cerca de R$ 8,00 por litro, representando uma elevação de aproximadamente 30% nos custos operacionais . Esse aumento pressiona principalmente produtores que já enfrentam dificuldades de crédito e margens apertadas.
No médio-norte de Mato Grosso, região estratégica para o escoamento da safra pela BR-163, o impacto logístico também é significativo. O frete pode representar cerca de 30% do valor da soja, o que torna qualquer variação no diesel um fator decisivo na rentabilidade do produtor .
Esse cenário reforça uma preocupação recorrente no agro: o custo logístico elevado no Brasil, que se torna ainda mais sensível em momentos de instabilidade internacional.
Crise de abastecimento preocupa, mas entidades divergem
Em Mato Grosso do Sul, a situação também preocupa. Produtores relatam dificuldades para encontrar diesel em diversas regiões, especialmente em um momento em que ocorre simultaneamente a colheita da soja e o plantio do milho segunda safra .
Dados do projeto Siga-MS mostram que a colheita da soja já ultrapassa 63% da área plantada, enquanto o milho safrinha alcança cerca de 65,7% de área semeada, evidenciando o momento crítico da demanda por combustível .
Apesar disso, o Sindicato do Comércio Varejista de Combustíveis (Sinpetro-MS) nega um desabastecimento generalizado, afirmando que há combustível disponível nos postos. No entanto, admite que o fornecimento está sendo feito dentro de limites médios, o que reduz a capacidade de estocagem e cria sensação de escassez no campo .
Relatos de produtores, por outro lado, apontam um cenário mais crítico, com casos de restrição de volume, aumento superior a R$ 1 por litro e até paralisação de atividades por falta de combustível em algumas localidades .
Fatores externos e reflexo no consumidor final
A origem da crise está diretamente ligada ao cenário internacional. A escalada do conflito no Oriente Médio tem pressionado a cotação do petróleo tipo Brent, referência global, impactando os preços no Brasil .
Mesmo com medidas pontuais do governo, como a zeragem de tributos federais (PIS/Cofins) e ajustes realizados pela Petrobras, o efeito no campo tem sido imediato e significativo.
Segundo lideranças do setor, o impacto não fica restrito ao produtor. A alta do diesel tende a ser repassada ao longo da cadeia produtiva, chegando ao consumidor final por meio do aumento no preço dos alimentos.
Cautela e incerteza marcam decisões no agro
Diante do cenário, especialistas e lideranças do setor recomendam cautela. O momento exige atenção redobrada na compra de insumos e no planejamento da próxima safra, já que os custos seguem pressionados e o ambiente ainda é de incerteza.
Além disso, há um alerta importante: movimentos de estocagem impulsiva podem agravar ainda mais a crise, elevando a pressão sobre o abastecimento.
O episódio reforça um ponto estrutural do agronegócio brasileiro: a forte dependência de insumos estratégicos como o diesel. Em um contexto de instabilidade global, essa dependência se traduz rapidamente em aumento de custos, risco operacional e impacto direto na competitividade do setor.
No campo, a conta já começou a chegar — e pode ser apenas o começo de um ciclo de pressão mais amplo sobre toda a cadeia do agro brasileiro.
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