Relatório da Avery Dennison aponta impacto bilionário no varejo, falta de controle sobre perdas e desafios crescentes com carnes e logística e desperdício de alimentos pode atingir US$ 540 bilhões em 2026
O desperdício de alimentos voltou ao centro das discussões globais sobre eficiência, sustentabilidade e rentabilidade no agronegócio e no varejo. Um novo levantamento internacional mostra que as perdas ao longo da cadeia de suprimentos seguem em trajetória de alta e já representam um dos maiores custos invisíveis do setor, afetando diretamente margens, preços e competitividade em todo o mundo.
Os dados fazem parte do relatório “Tornando o invisível visível: liberando o valor oculto do desperdício de alimentos para impulsionar crescimento e rentabilidade”, desenvolvido pela Avery Dennison, que analisou a percepção de milhares de empresas do setor. O estudo revela que o desperdício global pode atingir US$ 540 bilhões em 2026, consolidando-se como um dos principais desafios econômicos da cadeia alimentar moderna.
O levantamento, que ouviu cerca de 3.500 varejistas e líderes da cadeia de suprimentos em diferentes países, mostra que o desperdício deixou de ser apenas uma questão ambiental e passou a ser um problema financeiro relevante.
No Brasil, o impacto é ainda mais expressivo: os custos associados ao desperdício chegam a representar, em média, 32% da receita anual das empresas do varejo alimentício, considerando perdas desde a colheita até o ponto de venda.
Isso significa que quase um terço do faturamento pode ser comprometido por ineficiências operacionais, como falhas logísticas, erros de previsão de demanda e má gestão de estoque.
Além disso, o estudo aponta um gargalo estrutural importante: 61% das empresas afirmam não ter visibilidade total sobre onde o desperdício ocorre em suas operações, o que limita a capacidade de reação e de implementação de soluções efetivas .
Carnes lideram ranking de desperdício e preocupam o agro
Entre os produtos mais afetados, os perecíveis continuam sendo o principal desafio. De acordo com o relatório, as categorias mais difíceis de gerenciar em termos de desperdício são:
- Carnes (50%)
- Frutas e verduras (45%)
- Produtos de panificação (28%)
No Brasil, a situação é ainda mais crítica no segmento de proteína animal: 72% dos líderes da cadeia apontam as carnes como a categoria mais desafiadora em relação às perdas.
Em escala global, o impacto também chama atenção. Projeções indicam que o desperdício de carnes pode gerar perdas de até US$ 94 bilhões em 2026, enquanto frutas, verduras e hortaliças somam cerca de US$ 88 bilhões .
Para o agronegócio, especialmente a pecuária, esse cenário acende um alerta: parte relevante do valor gerado no campo está sendo perdida antes de chegar ao consumidor, comprometendo a eficiência de toda a cadeia.
Logística, estoque e inflação ampliam o problema
O estudo da Avery Dennison também identifica os principais fatores que impulsionam o desperdício ao longo da cadeia:
- Gestão de estoque e excesso de inventário são apontados por 51% das empresas como causas relevantes das perdas;
- Falta de controle no transporte, com 56% das companhias sem clareza sobre o desperdício durante o deslocamento;
- Dificuldade de prever demanda, agravada pela inflação e pelas mudanças no comportamento do consumidor .
No caso das carnes, a pressão inflacionária tem papel central: 74% dos entrevistados afirmam que a inflação dificultou a previsão de demanda, enquanto 73% observam uma migração dos consumidores para porções menores ou proteínas mais acessíveis.
Esse novo padrão de consumo aumenta o risco de perdas, principalmente em produtos com menor prazo de validade.
Custo pode chegar a US$ 3,4 trilhões até 2030
Se o cenário atual não mudar, o impacto tende a se agravar. O relatório projeta que o custo acumulado do desperdício de alimentos pode atingir US$ 3,4 trilhões entre 2025 e 2030, colocando em risco metas globais de sustentabilidade .
O número ganha ainda mais relevância por coincidir com o prazo do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS 12.3) da ONU, que prevê a redução pela metade do desperdício global de alimentos. No entanto, 27% dos líderes do setor acreditam que não conseguirão cumprir essa meta dentro do prazo .
Desperdício deixa de ser invisível e vira estratégia de negócio
Para especialistas envolvidos no estudo, o desperdício de alimentos não pode mais ser tratado como um custo inevitável. A falta de visibilidade ao longo da cadeia e a baixa adoção de tecnologias continuam sendo entraves importantes.
Nesse contexto, soluções como rastreabilidade, gestão de estoque em tempo real e sistemas mais precisos de previsão de demanda surgem como caminhos para reduzir perdas e aumentar a rentabilidade.
O recado do estudo é direto: o desperdício deixou de ser apenas um problema ambiental e passou a ser uma oportunidade econômica estratégica, especialmente em um cenário de margens pressionadas e consumo mais volátil.
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