A raça Canchim tem se destacado pela produtividade, pela rusticidade e qualidade da carne, ganhando cada vez mais espaço na pecuária de corte brasileira
O crescimento da raça Canchim no Brasil deixou de ser apenas uma tendência pontual para se tornar um movimento consistente dentro da pecuária de corte. Em diferentes regiões do país, criadores têm encontrado na raça uma combinação rara entre desempenho produtivo, adaptação ao clima tropical e qualidade de carne — fatores que dialogam diretamente com as exigências atuais do mercado, tanto interno quanto internacional.
Resultado de décadas de pesquisa e seleção, o Canchim nasceu com um propósito muito claro: encurtar o ciclo de produção de carne sem perder eficiência. Hoje, mais de meio século depois de sua criação, a raça volta ao centro das atenções impulsionada pelo avanço do cruzamento industrial, pela busca por sustentabilidade e pela valorização de animais que entreguem retorno econômico real ao produtor.
A história do Canchim começa na década de 1960, dentro da Embrapa Pecuária Sudeste, em São Carlos (SP). Naquele período, pesquisadores buscavam uma alternativa que unisse o alto desempenho de raças taurinas europeias — especialmente o Charolês — com a rusticidade e resistência do gado zebuíno, já adaptado às condições tropicais brasileiras.
O Charolês sempre foi reconhecido mundialmente como uma máquina de produção de carne. O grande desafio era justamente adaptar essa potência produtiva ao calor, aos parasitas e às particularidades ambientais do Brasil. O resultado desse trabalho científico foi o desenvolvimento de um grau de sangue equilibrado entre taurino (5/8) e zebu (3/8), originando o Canchim — um animal com genética direcionada para ganho de peso acelerado, bom rendimento de carcaça e maior resistência climática.
O objetivo central era reduzir o ciclo de abate, entregando um bovino que chegasse mais rápido ao peso ideal, consumindo menos recursos e mantendo qualidade de carne. Esse DNA de eficiência permanece como um dos principais pilares da raça até hoje. 
Crescimento impulsionado pelo cruzamento industrial
Nos últimos anos, o Canchim tem surfado uma onda de valorização puxada principalmente pelo cruzamento industrial — estratégia amplamente adotada por pecuaristas que buscam heterose, desempenho e retorno financeiro mais rápido.
A presidente da associação da raça, Kika Ribeiro, destaca que o avanço não é casual, mas resultado de uma convergência de fatores técnicos e de mercado. “A raça Canchim tem crescido nos últimos anos, pegando gancho com o crescimento do cruzamento industrial. Raças sintéticas, assim como a nossa, são ótimas opções para cruzamento de sangue. Vale destacar a liquidez dos nossos leilões, principalmente dos touros, com clientes em todo o Brasil.” – disse Kika.
Segundo ela, a curva de expansão é visível tanto na procura por reprodutores quanto na valorização de fêmeas. “Graças a Deus, está aumentando bastante. O uso do touro Canchim para fazer cruzamento industrial a campo nos oferece um campo de trabalho amplo, é uma raça sintética ideal para esse tipo de manejo, para quem não quer usar de tecnologias como a Inseminação Artificial em Tempo Fixo (IATF). Os leilões têm tido liquidez total, tanto de macho quanto de fêmea. A raça está em expansão”– celebrou a criadora.
A liquidez citada pela presidente é um termômetro importante: quando os leilões apresentam vendas consistentes, significa que o mercado reconhece valor prático no animal, não apenas interesse teórico. 
Diferenciais produtivos e adaptação ao Brasil
O Canchim foi literalmente desenhado para o Brasil. Enquanto muitas raças taurinas puras enfrentam dificuldades em climas quentes e úmidos, o Canchim apresenta desempenho equilibrado em praticamente todo o território nacional.
Em termos produtivos, a raça se destaca pelo ganho de peso acelerado, boa conversão alimentar e eficiência na desmama. A combinação genética permite que os animais apresentem musculatura volumosa e rendimento de carcaça competitivo, sem abrir mão da resistência necessária para sistemas a pasto.
Já na qualidade da carne, o Canchim tem surpreendido criadores e técnicos. Trabalhos de pesquisa conduzidos em parceria com institutos e centros de pesquisa utilizam ultrassonografia de carcaça para identificar animais superiores, avaliando área de olho de lombo, espessura de gordura e marmoreio — característica cada vez mais valorizada pelo mercado gourmet.
Esse “plus” no marmoreio coloca a raça em posição estratégica para nichos de carne premium, onde o consumidor busca maciez, suculência e padrão sensorial elevado.
Melhoramento genético e tecnologia no campo
O avanço do Canchim não está apoiado apenas na tradição, mas em forte investimento tecnológico. Programas de melhoramento genético vêm incorporando ferramentas modernas que elevam o nível de precisão na seleção de animais.
Entre os principais destaques está o Teste de Eficiência Alimentar (TEA), aplicado de forma consecutiva há anos, avaliando quais indivíduos produzem mais consumindo menos alimento — um indicador fundamental para a rentabilidade do pecuarista.
Além disso, a genômica tem sido incorporada aos programas de seleção, permitindo identificar com antecedência características produtivas e funcionais. A ultrassonografia de carcaça também segue como ferramenta-chave na busca por qualidade de carne.
A qualidade da carne é hoje um dos principais cartões de visita do Canchim. A associação da raça estuda inclusive a criação de um selo próprio, voltado ao mercado premium. “A gente está sempre mais alinhado com o Charolês. Eles tinham um programa de carne e nós também estamos tentando nos organizar para fazer um selo da nossa carne, Canchim, que pode atender plenamente o mercado gourmet”, afirma Kika.
Outro ponto importante é a avaliação morfológica completa, que analisa funcionalidade, aprumos, correção de umbigo, qualidade de pelagem, pigmentação e score de carcaça. Esse conjunto de critérios amplia a segurança na escolha de reprodutores e matrizes.
Sustentabilidade entra na pauta
A pecuária moderna já não discute apenas produtividade, mas também impacto ambiental. Nesse cenário, o Canchim começa a ocupar espaço relevante.
Recentemente, programas de avaliação passaram a incluir a coleta de dados sobre emissão de metano entérico em machos, buscando identificar reprodutores que aliem alto desempenho produtivo com menor geração de gases de efeito estufa. A iniciativa coloca a raça em sintonia com exigências globais por sistemas mais eficientes e sustentáveis.
Manejo simples e rusticidade como trunfo
Outro fator que contribui para a expansão do Canchim é a facilidade de manejo. A rusticidade permite que o animal seja criado em diferentes biomas e condições climáticas sem necessidade de estruturas excessivamente complexas.
Kika Ribeiro resume essa versatilidade. “É uma raça rústica e totalmente adaptável. O Brasil tem diversos climas — frio, calor, meio termo — e ela vai em todos. Temos no Rio Grande do Sul, na Bahia, em Rondônia, no Mato Grosso do Sul. É uma raça que não tem problema nesse sentido” – destacou a presidente.
Essa amplitude geográfica reduz riscos e amplia o interesse de produtores de diferentes perfis.
Investimento e custo-benefício
Do ponto de vista econômico, o Canchim se posiciona como alternativa de alto custo-benefício. O ganho de peso superior na desmama é um dos argumentos mais fortes.
“Eu vejo o Canchim como um animal de custo-benefício. Você vai ter animais ganhando até 15% de peso a mais na desmama do que outras raças, pelo fato de ter sangue Charolês. Eu brinco que o Charolês é primo, e ele é imbatível na produção de carne” – reforça Kika.
Interesse internacional e visibilidade em feiras
A presença do Canchim em grandes eventos agropecuários também tem ampliado sua projeção. Em feiras como a Feicorte, a raça tem atraído atenção não apenas de criadores nacionais, mas também de investidores e técnicos estrangeiros interessados em genética adaptada a sistemas tropicais.
Esse interesse internacional reforça o posicionamento do Canchim como solução viável para países com clima semelhante ao brasileiro, ampliando o potencial de exportação de genética e conhecimento técnico.
O avanço do Canchim no Brasil não é apenas um reflexo de moda ou curiosidade genética. Trata-se de uma consolidação construída sobre ciência, desempenho econômico e alinhamento com as novas demandas da pecuária moderna. Em um cenário onde produtividade, sustentabilidade e qualidade caminham juntas, a raça surge como uma das apostas mais consistentes para o futuro do boi de corte brasileiro.
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