Oferta curta de animais terminados, exportações aquecidas e escalas de abate enxutas impulsionam a arroba do boi gordo pelo país e reforçam o poder de barganha do pecuarista.
O mercado pecuário brasileiro iniciou fevereiro em ritmo acelerado e já mostra sinais claros de uma nova fase de valorização no preço do boi gordo. Em diversas regiões produtoras, frigoríficos têm encontrado dificuldade para compor escalas de abate, enquanto a demanda — tanto interna quanto externa — permanece firme. O resultado é um movimento consistente de alta que levou o preço de referência do boi gordo a um novo patamar.
Pelos dados mais recentes, a arroba — com ou sem padrão-exportação — atingiu R$ 350 na praça de São Paulo, consolidando um avanço relevante nas negociações e reacendendo discussões sobre o comportamento do ciclo pecuário em 2026.
Esse movimento não ocorre isoladamente. Analistas apontam que o cenário atual combina fatores estruturais da oferta com variáveis conjunturais da demanda, criando um ambiente favorável à valorização — ao menos no curto prazo.
Oferta restrita pressiona preços e traz valorização no boi gordo
O avanço das cotações reflete principalmente a menor disponibilidade de animais terminados, o que tem limitado o atendimento das escalas de abate, hoje girando entre quatro e cinco dias em algumas regiões.
Além disso, o aquecimento do consumo de carne bovina, tanto no mercado doméstico quanto nas exportações, contribui diretamente para sustentar os preços em níveis elevados.
Outro fator relevante vem das condições climáticas. Pastagens favorecidas pelas chuvas recentes permitem ao pecuarista segurar o gado por mais tempo, vender lotes menores e negociar com maior firmeza — o que reforça seu poder de barganha diante da indústria frigorífica.
Entre as 17 praças monitoradas, seis registraram valorização da arroba — São Paulo, Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Paraná e Santa Catarina — enquanto as demais mantiveram estabilidade com viés de alta.
Retração no abate de fêmeas ajuda a explicar disparada
Um dos motores silenciosos dessa alta é a mudança no perfil dos abates. Dados preliminares indicam que o país registrou mais de dois milhões de abates em janeiro, volume expressivo frente à média histórica, mas ainda 4,7% menor que o observado no mesmo mês de 2025.
A principal explicação está na forte redução do processamento de fêmeas, que caiu 13% — a maior retração desde outubro de 2021.
Historicamente, esse comportamento costuma indicar retenção de matrizes para a atividade de cria — um movimento que reduz a oferta imediata de animais e tende a sustentar ciclos de valorização.
Ao mesmo tempo, as escalas médias de abate no país permanecem abaixo de oito dias, reforçando a percepção de aperto na disponibilidade de gado pronto.
Especialistas, contudo, recomendam cautela: juros elevados e o custo de oportunidade ainda desafiam decisões de retenção mais agressivas por parte do produtor.
Negócios a R$ 350 ainda não são maioria
Embora já existam operações nesse patamar, o mercado ainda busca consolidação. Consultorias relatam que negócios a R$ 350/@ ocorreram, mas em menor volume e sem se firmar como referência plena.
Na média paulista, os preços seguem ligeiramente abaixo:
- Boi gordo comum: R$ 342/@
- Boi-China: R$ 347/@
- Vaca gorda: R$ 315/@
- Novilha terminada: R$ 330/@
(valores brutos, a prazo).
Com maior dificuldade para fechar contratos e preencher escalas, frigoríficos de pequeno e médio porte têm sido obrigados a pagar mais pela arroba — outro indicativo de mercado firme.
Mercado físico do boi gordo segue aquecido — e pode subir mais
O ambiente de negócios ainda sugere continuidade da valorização dos preços da arroba do boi gordo no curtíssimo prazo, justamente pela restrição de oferta que dificulta a programação de abates. As exportações aparecem como a principal variável de sustentação neste início de ano, com volumes considerados bastante representativos.
Outro elemento no radar é o Carnaval. O período tende a reduzir a fluidez das negociações momentaneamente, mas pode aumentar o apetite de compra na retomada do mercado.
Cotações da arroba pelo país
Levantamento recente mostra preços firmes nas principais regiões produtoras:
- São Paulo: R$ 348,42
- Goiás: R$ 328,93
- Minas Gerais: R$ 332,94
- Mato Grosso do Sul: R$ 330,91
- Mato Grosso: R$ 322,09
No atacado, os cortes permanecem estáveis, com o quarto traseiro a R$ 26,50/kg e o dianteiro e a ponta de agulha a R$ 19,50/kg.
Apesar do cenário positivo, há sinais de alerta no horizonte. A expectativa é de que, com o avanço do Carnaval, a entrada da Quaresma e maior restrição orçamentária do consumidor após as despesas de início de ano, o consumo interno de carne bovina perca força gradualmente, aumentando a fragilidade do varejo.
O que o produtor deve observar agora
O momento é claramente favorável ao pecuarista, mas exige leitura estratégica do ciclo. Oferta curta + exportações fortes + retenção de fêmeas formam uma combinação clássica de pressão altista. Contudo, fatores macroeconômicos — como juros e comportamento do consumo — podem limitar movimentos mais agressivos.
Se o ritmo atual persistir, o mercado do boi gordo pode entrar em uma fase de maior disputa por animais terminados, elevando ainda mais a arroba. Caso contrário, ajustes pontuais são esperados — especialmente se a demanda doméstica desacelerar.
Uma coisa, porém, já é consenso entre analistas: o boi gordo voltou ao radar como uma das commodities mais dinâmicas do agro brasileiro neste início de ano.
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