Com mais de 730 mil jumentos no país e demanda global bilionária puxada pela China, cadeia do abate ganha respaldo econômico; especialistas apontam que valorização pode estimular criação e tirar o jumento da rota do abandono
Durante muito tempo, os jumentos foram sinônimo de resistência no campo brasileiro. Presente principalmente no Nordeste, foi peça-chave no transporte, na lida diária e na sobrevivência de milhares de famílias. Com o avanço da mecanização e a substituição por veículos motorizados, esse cenário mudou drasticamente. Sem função econômica definida, milhares de animais passaram a ser abandonados, soltos em rodovias e propriedades, tornando-se um problema social, logístico e sanitário. É nesse contexto que o mercado de abate e exportação ressurge como alternativa econômica — e também como um dos temas mais debatidos dentro do agro.
Mas, diferente do que muitas análises superficiais sugerem, o debate atual já não gira apenas em torno de opinião. Há dados concretos, estudos acadêmicos e informações de mercado internacional que mostram que o jumento entrou, de fato, em uma cadeia global bilionária.
É nesse contexto que surge uma cadeia controversa, mas economicamente relevante: o mercado de abate e exportação de jumentos, que passou a reposicionar o animal como ativo dentro de uma cadeia internacional altamente lucrativa. A lógica é direta: quando há mercado, há interesse em produzir; quando não há valor econômico, o abandono tende a crescer.
O tamanho do rebanho de jumentos: um ativo ainda relevante no Brasil
Levantamento recente da World Population Review aponta que o Brasil possui mais de 730 mil jumentos em 2026, número que reposiciona o país como um dos maiores detentores desse tipo de animal no mundo.
A entidade, sediada na Califórnia, consolida dados a partir de bases como Nações Unidas e institutos oficiais de estatística, utilizando metodologias reconhecidas internacionalmente para projeções demográficas.
Esse dado muda a lógica do debate: o jumento não é um animal residual — é um ativo biológico relevante, ainda presente em escala significativa no território nacional.
Uma indústria global bilionária: o motor econômico por trás do mercado
O principal vetor de crescimento dessa cadeia está na Ásia, especialmente na China, com a produção do ejiao, um derivado do colágeno da pele do jumento utilizado na medicina tradicional e na indústria de suplementos.
Dados da agência internacional Reuters mostram que:
- A demanda global exige cerca de 5,9 milhões de peles por ano
- A população de jumentos na China caiu mais de 80% nas últimas décadas
- O preço do ejiao subiu cerca de 30 vezes em 10 anos
- Empresas líderes do setor registraram lucros superiores a 1 bilhão de yuans por ano
Ou seja, existe uma equação clara: alta demanda + escassez de matéria-prima = pressão internacional por novos fornecedores.
📌 É nesse espaço que o Brasil entra.
O mercado brasileiro: números, receita e potencial de crescimento
Mesmo com limitações regulatórias e operacionais, o Brasil já apresentou números relevantes nesse setor. Em um dos períodos de maior atividade, frigoríficos autorizados exportaram mais de 25 mil toneladas de produtos derivados de asininos, gerando aproximadamente US$ 40 milhões em receita.
Na ponta da operação, os números ajudam a entender o interesse do setor:
- Receita média de cerca de R$ 370 por animal abatido
- Possibilidade de alcançar até R$ 870 por animal com exportação direta para a China
Ou seja, há dinheiro na mesa — e ele cresce conforme a cadeia se aproxima do mercado final.
Além disso, dados oficiais apresentados pela Advocacia-Geral da União (AGU) indicam:
- Centenas de empregos diretos e indiretos
- Participação de produtores rurais como fornecedores
- Estrutura de frigoríficos com inspeção federal (SIF)
Isso confirma que não se trata de um mercado informal — mas de uma cadeia que já operou dentro de parâmetros sanitários e comerciais reconhecidos.
O ponto central: sem mercado, não há produção
A base do argumento econômico pró-abate é simples e respaldada por lógica produtiva: nenhuma espécie é criada em escala sem retorno financeiro. Sem valor econômico, não há investimento, planejamento ou interesse na manutenção e expansão do rebanho.
Estudos acadêmicos publicados pela Universidade de São Paulo (USP), na Brazilian Journal of Veterinary Research and Animal Science, reforçam esse cenário ao apontar que o Brasil ainda não possui uma cadeia estruturada de criação de jumentos. Segundo a pesquisa, a oferta atual está ligada, em grande parte, a animais soltos ou recolhidos, o que limita qualquer avanço produtivo mais consistente.
Além disso, há um fator biológico relevante: a reprodução dos jumentos é lenta, com gestação de aproximadamente 12 meses, o que dificulta a reposição rápida do rebanho. Ainda assim, o ponto central destacado pelos pesquisadores é outro: sem demanda econômica consistente, não há estímulo para a reprodução organizada, o que impede a formação de uma cadeia produtiva sólida no país.
De extrativismo à pecuária estruturada: onde está a oportunidade
Hoje, o Brasil ainda opera, em parte, em um modelo extrativista — coletando um estoque existente de animais. No entanto, especialistas e agentes do setor defendem que a abertura de mercado pode ser o gatilho para uma nova cadeia pecuária, com:
- Programas de reprodução
- Melhoramento genético
- Rastreabilidade
- Integração produtiva (modelo semelhante ao bovino)
Na prática, isso significaria transformar o jumento em uma nova fronteira do agro, especialmente em regiões de baixa mecanização.

Muito além da pele: carne, exportação e subprodutos
Embora o couro seja o principal driver econômico, a cadeia produtiva do jumento não se limita a esse único fator. Há espaço para ampliação e diversificação das receitas, o que pode aumentar significativamente a viabilidade do setor no longo prazo.
Entre as possibilidades, destaca-se a exportação de carne, que já foi realizada para mercados asiáticos, além do uso industrial de subprodutos, ampliando o aproveitamento da matéria-prima. Esse movimento abre caminho para um modelo mais eficiente, baseado no conceito de aproveitamento integral do animal, prática comum em outras cadeias pecuárias.
Esse tipo de estrutura já é realidade em setores consolidados do agro, onde o valor está diretamente ligado à eficiência produtiva e ao uso completo dos recursos disponíveis, elevando a rentabilidade e reduzindo desperdícios.
O fator crítico: abandono dos jumentos versus valorização dos jumentos
O Brasil vive hoje um paradoxo claro.
De um lado:
- Animais abandonados
- Acidentes em rodovias
- Falta de política de manejo
De outro:
- Um mercado internacional bilionário
- Demanda crescente
- Possibilidade de geração de renda
Nesse cenário, o maior risco para o jumento não é apenas o abate — é a ausência de valor econômico.
Sem função e sem mercado, o animal tende a desaparecer lentamente do sistema produtivo.
Com valor, passa a ser:
- Criado
- Manejado
- Integrado ao agro
O que está em jogo no Brasil
O debate sobre o abate de jumentos deixou de ser apenas emocional ou ideológico. Ele passou a envolver:
- Comércio exterior
- Cadeias produtivas emergentes
- Valorização de ativos rurais
- Geração de renda em regiões vulneráveis
Os dados mostram que o mercado existe, paga bem e tem demanda crescente.
A discussão agora é estratégica: o Brasil vai estruturar essa cadeia e capturar valor ou vai abrir mão de um mercado global bilionário?
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