Crise da carne nos EUA fecha fábrica da Cargill e corta 221 empregos enquanto importações disparam

Com rebanho no menor nível em 75 anos e produção em queda, Estados Unidos ampliam compras externas e enfrentam reestruturação no setor frigorífico; Essa crise da carne nos EUA é uma das mais fortes das últimas décadas, levando ao fechamento da fábrica da Cargill

A crise estrutural da pecuária bovina dos Estados Unidos ganhou um novo capítulo em fevereiro de 2026. A combinação de rebanho historicamente baixo, seca prolongada, custos elevados e margens negativas na indústria frigorífica levou ao fechamento de unidades industriais e à ampliação das importações de carne bovina pelo país. O movimento mais emblemático veio da Cargill, que anunciou o encerramento definitivo de sua fábrica de processamento de carne bovina em Milwaukee, no estado de Wisconsin.

Ao mesmo tempo, dados do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) apontam para crescimento relevante nas importações em 2026, enquanto a produção doméstica segue pressionada. Segundo relatório publicado em 18 de fevereiro, os Estados Unidos devem ampliar as importações de carne bovina neste ano diante da crise estrutural que atinge a pecuária local.

Cargill fecha unidade e corta 221 empregos

A decisão da Cargill resultará na eliminação de 221 postos de trabalho. A produção será interrompida em meados de abril, com encerramento total das atividades previsto para o fim de maio, conforme comunicado apresentado às autoridades trabalhistas de Wisconsin .

A planta era especializada na produção de carne bovina fresca, carne moída e produtos processados, mas não realizava abate de animais . Parte da produção será transferida para outras unidades da empresa na América do Norte, e alguns funcionários poderão ser realocados.

De acordo com a Bloomberg Línea, o fechamento ocorre em meio a uma grave escassez de gado, com o rebanho bovino dos EUA no menor nível em 75 anos.

A Cargill justificou a decisão como um ajuste estratégico para alinhar operações à demanda atual e priorizar investimentos, em um cenário de forte pressão sobre o setor.

Rebanho no menor nível desde 1952

O problema, no entanto, vai muito além de uma única fábrica. Desde 2019, o número de cabeças de gado de corte caiu 13%, chegando a 27,9 milhões. O rebanho total de bovinos está no menor patamar desde 1952, segundo dados do USDA .

A seca prolongada no oeste americano reduziu drasticamente as áreas de pastagem e elevou os custos com ração. Para preservar caixa, muitos produtores optaram por liquidar parte dos rebanhos nos últimos anos.

O resultado foi uma contração do ciclo pecuário, marcada por menor retenção de fêmeas e redução na oferta de animais para confinamento. Especialistas destacam que a recuperação é lenta. O ciclo entre o nascimento de um bezerro e o abate leva de dois a três anos, o que impede uma recomposição rápida da oferta .

Produção em queda e Brasil assume liderança

Em 2025, a produção de carne bovina dos Estados Unidos recuou 4% em relação ao ano anterior, somando 11,8 milhões de toneladas . O recuo fez o país perder a liderança global para o Brasil.

Para 2026, a produção está estimada em 11,76 milhões de toneladas, com leve revisão para cima em relação às projeções anteriores, impulsionada por aumento líquido no abate e maior peso médio de carcaça . Ainda assim, o ambiente segue de oferta restrita.

Importações sobem e Trump amplia compras da Argentina

Diante do cenário de escassez interna, os Estados Unidos devem ampliar as importações de carne bovina para 2,53 milhões de toneladas em 2026, alta em relação à projeção anterior .

No início de fevereiro, o presidente Donald Trump assinou uma ordem executiva para ampliar as importações de carne da Argentina, com tarifas reduzidas . A medida busca aliviar os preços no mercado doméstico, que vêm operando próximos a níveis recordes.

A Bloomberg Línea destaca que os preços dos bois saltaram cerca de 20% entre 2024 e 2025, com expectativa de novos aumentos neste ano. Mesmo com os preços elevados ao consumidor, os frigoríficos enfrentam margens negativas, já que a escassez de gado os obriga a pagar mais pela matéria-prima, comprimindo resultados financeiros.

Onda de fechamentos no setor

O fechamento da unidade da Cargill não é um caso isolado. Concorrentes como JBS e Tyson Foods também anunciaram o encerramento de plantas nos últimos meses. A Tyson fechou uma fábrica de abate em Nebraska e reduziu operações no Texas, enquanto a JBS informou o encerramento de unidade na Califórnia.

O cenário reflete uma reconfiguração da indústria frigorífica americana, pressionada por oferta restrita, custos elevados e necessidade de ajustes operacionais.

Crise da carne nos EUA: Impactos globais e oportunidades para exportadores

A crise da carne nos EUA abre espaço para países exportadores, como Brasil e Argentina, ampliarem sua presença no mercado americano. Com produção doméstica em retração e importações em alta, o mercado global de proteína animal tende a se tornar ainda mais competitivo e volátil em 2026.

Mesmo com possíveis pressões sazonais no curto prazo, o ambiente estrutural de oferta restrita mantém viés de preços firmes no mercado pecuário dos EUA .

Para o agro brasileiro, o momento reforça a importância estratégica do país como fornecedor global de carne bovina, especialmente em um contexto de instabilidade produtiva nas principais economias concorrentes.

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