Novo modelo aposta em manejo intensivo, recuperação do solo e eficiência produtiva para colocar o bezerro como principal fonte de receita nas fazendas; conheça a cria regenerativa, segundo Antônio Chaker
A pecuária de cria no Brasil caminha para uma transformação relevante nos próximos anos com o avanço da chamada cria regenerativa, um modelo que combina manejo estratégico, recuperação ambiental e gestão intensiva para elevar a produtividade por área. A proposta vem sendo defendida por especialistas do setor como uma alternativa concreta para aumentar a rentabilidade sem ampliar a área de pastagens, ponto-chave diante das exigências ambientais e econômicas do mercado.
De acordo com Antônio Chaker, diretor do Instituto Inttegra, o sistema já apresenta resultados consistentes em propriedades que adotaram o protocolo. Segundo ele, a cria regenerativa pode elevar a margem de lucro em até 30%, com faturamento chegando a cerca de R$ 2.400 por hectare ao ano.
“O produtor precisa entender que o bezerro pode ser o principal gerador de caixa da fazenda. Quando o sistema é bem conduzido, o ganho econômico aparece de forma consistente”, destacou o especialista ao comentar o avanço do modelo no país.
Manejo do pasto é o coração do sistema
Um dos pilares da cria regenerativa está no manejo intensivo das pastagens, que passa a ser tratado como elemento central da produção. O sistema prioriza o consumo da chamada “ponta do capim”, parte mais nutritiva da planta, o que melhora diretamente o desempenho dos animais.
Na prática, isso exige uma mudança de mentalidade no campo: os animais passam a ser movimentados com frequência entre piquetes, muitas vezes diariamente, garantindo acesso constante ao pasto em estágio ideal.
Segundo Chaker, essa estratégia permite maximizar a produção por hectare ao mesmo tempo em que recupera o solo e o equilíbrio do ecossistema da fazenda.
Além disso, o descanso adequado das áreas favorece:
- recuperação da fertilidade do solo
- aumento da matéria orgânica
- melhor retenção de água
- redução da degradação das pastagens
Nutrição e planejamento evitam perdas na seca
Outro ponto crítico do sistema é o planejamento alimentar. Para garantir estabilidade produtiva ao longo do ano, a cria regenerativa prevê que entre 6% e 20% da área da fazenda seja destinada à produção de reservas, como silagem e capim diferido.
Essa estratégia é fundamental para manter o desempenho das matrizes durante a transição entre seca e águas — período em que muitas propriedades enfrentam queda nos índices reprodutivos.
Com nutrição adequada, a taxa de prenhez aumenta, o intervalo entre partos diminui e o peso à desmama tende a crescer, impactando diretamente o resultado econômico da atividade.
Cria regenerativa: Tecnologia torna o sistema viável no dia a dia
Apesar de exigir maior controle e frequência de manejo, o modelo não depende de tecnologias complexas. Pelo contrário: ferramentas simples têm papel decisivo na implementação do sistema.
“O uso de cercas elétricas móveis e quadriciclos torna a mudança de pasto rápida e prática, facilitando a rotina e tornando a atividade mais atrativa”, explicou Chaker.
Além de otimizar o trabalho no campo, esse tipo de tecnologia também contribui para um desafio crescente no agro: a sucessão familiar, ao tornar a atividade mais moderna e eficiente para as novas gerações.
Sistema integra solo, genética e gestão
Diferente de práticas isoladas, a cria regenerativa é considerada um modelo multifatorial, ou seja, depende da integração de vários elementos para funcionar corretamente.
Entre os principais pontos estão:
- qualidade do solo
- genética do rebanho
- nutrição eficiente
- gestão de indicadores produtivos
- capacitação da equipe
Segundo especialistas, é justamente essa integração que permite transformar a cria — tradicionalmente vista como uma fase de baixa rentabilidade — em uma atividade altamente estratégica dentro da pecuária de corte.
Bezerro ganha protagonismo na receita da fazenda
Historicamente, muitas propriedades brasileiras operam com baixa eficiência na cria, o que limita o potencial de geração de caixa nessa etapa da produção.
A proposta da cria regenerativa é inverter essa lógica. O objetivo é fazer com que o bezerro deixe de ser apenas uma etapa do ciclo produtivo e passe a ser o principal ativo econômico da fazenda.
Isso é possível com:
- maior taxa de prenhez
- menor mortalidade
- melhor desempenho dos animais
- aumento da produção por hectare
O resultado é um sistema mais eficiente, previsível e lucrativo.
O avanço da cria regenerativa também está alinhado a um movimento global. Em diversos países, cresce a pressão por sistemas produtivos que conciliem produção de alimentos com menor impacto ambiental.
Nesse cenário, modelos regenerativos ganham espaço por promoverem:
- recuperação de áreas degradadas
- sequestro de carbono no solo
- redução da necessidade de abertura de novas áreas
- maior resiliência climática
Para o Brasil, que possui um dos maiores rebanhos bovinos do mundo, com mais de 230 milhões de cabeças, a adoção desse tipo de sistema pode representar um salto de competitividade no mercado internacional.
O que esperar da pecuária nos próximos anos
Com a intensificação das exigências ambientais e a busca por maior eficiência econômica, especialistas apontam que a pecuária brasileira deverá passar por uma transformação estrutural.
A cria regenerativa surge, nesse contexto, como uma das principais apostas para o futuro do setor.
Ao combinar produtividade, sustentabilidade e rentabilidade, o modelo pode redefinir a forma como o bezerro é produzido no Brasil — e posicionar a cria como protagonista dentro do negócio pecuário.
Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias.