Técnica simples, bem manejada, o creep feeding pode elevar o peso à desmama, reduzir o “atraso” das bezerras e ajudar a encurtar o caminho até a puberdade — mas exige planejamento, adaptação e controle de consumo para não virar custo sem retorno.
O creep feeding (ou “creche do bezerro”) é uma estratégia de suplementação exclusiva para bezerros ao pé da vaca, com acesso a um cocho protegido por uma estrutura que impede a entrada das matrizes. Na prática, ele serve para acelerar o crescimento em momentos em que o leite e o pasto não dão conta sozinhos (seca, transição águas-seca, pasto de baixa qualidade, lotação alta), e também para padronizar lotes, melhorar desempenho de animais superiores e diminuir o impacto da estação na desmama.
Quando a execução é bem feita, o creep feeding tende a entregar três ganhos claros:
- Mais peso à desmama (e lote mais uniforme)
- Menos “freio” de crescimento na seca e na fase final da cria
- Para bezerras de reposição, melhor desenvolvimento corporal, o que pode favorecer entrada mais cedo na puberdade e melhora de índices reprodutivos quando o manejo nutricional do pós-desmame acompanha (sem “sobe e desce” de dieta)
A seguir, o Compre Rural montou o passo a passo completo — do objetivo ao cocho — para você aplicar a técnica com eficiência e segurança.
1) Defina o objetivo do creep feeding (isso muda tudo)
Antes de comprar ração, você precisa responder: qual problema eu quero resolver?
Os objetivos mais comuns são:
- Aumentar peso à desmama para vender bezerro mais pesado
- Proteger desempenho na seca (quando a vaca cai de leite e o pasto perde valor)
- Preparar bezerra de reposição, garantindo estrutura e condição corporal mais cedo
- Uniformizar lote (reduzir diferença entre bezerros “atrasados” e “adiantados”)
Sem objetivo, você não mede retorno. Sem retorno, vira suplementação “no escuro”.
2) Escolha o momento certo de iniciar
Em geral, o creep feeding faz mais sentido quando:
- o bezerro já “aprendeu” a comer (fase em que começa a beliscar capim e explorar cochos)
- há queda de oferta/qualidade do pasto ou limitação de leite
- você quer ganho extra nos 60–90 dias finais antes da desmama, quando o consumo e a resposta tendem a ser maiores
Ponto de atenção: iniciar cedo demais pode gerar baixo consumo (desperdício); iniciar tarde demais pode reduzir a janela de resposta.
3) Monte o creep feeding: estrutura que funciona no dia a dia
Um creep eficiente precisa cumprir 3 funções: acesso só do bezerro, conforto e segurança.
Checklist prático:
- Entrada seletiva: vãos que passam bezerros e barram vacas
- Local seco e firme: evita lama, micotoxinas, empedramento e cocho sujo
- Sombra e água próximas: aumenta permanência e consumo
- Cocho coberto (se possível): reduz umidade e perdas
- Espaço de cocho: evite “empurra-empurra” e dominância; cocho curto demais reduz consumo dos menores
Dica de campo: colocar o creep em área de passagem natural (próximo a água/sombra) aumenta a “adesão” do lote.
4) Defina o tipo de suplemento (o que vai no cocho)
Aqui está um dos pontos mais sensíveis: o creep feeding não é “qualquer ração”. A dieta deve ser palatável, estável e compatível com a fase do bezerro.
Opções comuns de abordagem:
- Creep energético/proteico (pasto ruim/seca): busca compensar falta de energia e proteína
- Creep mais energético (pasto bom, mas foco em ganho rápido): acelera acabamento e peso
- Creep para bezerras de reposição: mira crescimento estrutural e regularidade, sem “explodir” condição corporal de forma desbalanceada
O erro clássico: suplemento “forte” demais sem adaptação → acidose, diarreia, queda de desempenho e custo alto.
5) Faça adaptação alimentar (o passo que mais evita prejuízo)
A adaptação é o que separa creep feeding lucrativo de creep feeding problemático.
Rotina recomendada:
- Comece com pequena oferta diária, para ensinar consumo
- Ajuste gradualmente até atingir o consumo-alvo
- Evite “sobra velha” no cocho: ração oxidada perde palatabilidade e pode mofar
Regra de ouro: bezerro deve comer todo dia, mas sem “encher” cocho de uma vez. Constância vale mais do que volume.
6) Controle o consumo (senão você não controla o custo)
Creep feeding tem retorno quando existe ganho adicional real e custo controlado.
Como controlar:
- Trabalhe com meta de consumo por bezerro/dia e acompanhe no cocho
- Observe se há bezerros dominando o acesso (os menores somem do cocho)
- Ajuste oferta para manter cocho “limpo”, com sobra mínima
Sinal de alerta: consumo alto sem ganho proporcional pode indicar formulação inadequada, cocho mal posicionado, desperdício, ou que o pasto/leite já estavam entregando o necessário (resposta marginal baixa).
7) Maneje o ambiente: sanidade e desempenho andam juntos
O creep feeding aumenta ingestão e aglomeração ao cocho. Se o ambiente estiver ruim, o risco sobe.
Cuidados que fazem diferença:
- Higiene do cocho (ração úmida = risco de fungos e queda de consumo)
- Controle de lama e poeira
- Monitoramento de diarreia e fezes muito moles (sinal de ajuste necessário)
- Água de qualidade sempre perto (hidratação influencia consumo e digestão)
Desempenho não é só ração: é ração + ambiente + rotina.
8) Ajuste o creep à categoria: bezerro para venda x bezerra de reposição
Aqui entra a promessa da manchete: crescimento e fertilidade.
Bezerros para venda (peso e padronização)
O foco costuma ser:
- ganho rápido e consistente
- lote mais uniforme
- melhor peso à desmama, valorizando arrobas e liquidez comercial
Bezerras de reposição (crescimento e puberdade)
Para bezerras, o creep feeding pode ajudar porque:
- melhora crescimento contínuo, reduzindo “travas” nutricionais
- facilita atingir peso e desenvolvimento compatíveis com puberdade mais cedo
Mas existe um detalhe crucial:
fertilidade não melhora por milagre — ela melhora quando a bezerra atinge desenvolvimento adequado com regularidade, sem extremos.
Risco a evitar: “engordar demais” sem estrutura. Excesso de energia mal conduzido pode gerar animal precoce no acúmulo de gordura, mas sem base corporal proporcional — e aí o desempenho reprodutivo pode não acompanhar como esperado.
9) Meça resultado: sem régua, não há lucro
O creep feeding precisa ser avaliado como investimento.
Indicadores simples (e muito eficientes):
- Peso médio à desmama (antes x depois / com x sem creep)
- Ganho médio diário no período de uso
- Uniformidade do lote (diferença entre leves e pesados)
- Para reposição: peso/estrutura na desmama e consistência do ganho pós-desmama
A métrica final é econômica: custo por kg adicional produzido.
10) Erros mais comuns (e como evitar)
- Cocho sem controle → desperdício e custo invisível
- Suplemento forte sem adaptação → acidose/diarreia e perda de desempenho
- Creep mal localizado → bezerro não frequenta, consumo baixo
- Falta de espaço → só os dominantes comem, lote fica desigual
- Usar creep onde não precisa → resposta pequena e ROI ruim
- Desmamar e “largar” a dieta → bezerro perde ganho, bezerra não consolida desenvolvimento
Quando o creep feeding mais “brilha” na prática
Ele costuma ser mais estratégico quando:
- a vacada entra em período de queda de leite
- o pasto está limitante (seca ou transição)
- o sistema quer desmama mais pesada
- a fazenda precisa encurtar ciclo e acelerar reposição com bezerras bem desenvolvidas
No fim, creep feeding é ferramenta de precisão: funciona muito bem quando tem objetivo, dieta compatível, rotina de adaptação e controle de consumo.
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