Nova tecnologia baseada em dados históricos, satélites e inteligência artificial promete avaliar a real capacidade produtiva das lavouras e dar mais segurança a bancos, cooperativas e produtores rurais; conheça o score de risco produtivo
O agronegócio brasileiro vive um momento de atenção no campo financeiro. Com aumento expressivo da inadimplência, crescimento dos pedidos de recuperação judicial e maior rigor na concessão de crédito, o setor começa a adotar novas ferramentas para reduzir riscos e aumentar a previsibilidade. Nesse cenário, surge o chamado score de risco produtivo, uma inovação da Picsel que pode transformar a forma como instituições financeiras analisam produtores rurais no país.
De acordo com levantamento recente, as empresas ligadas ao agro responderam por 30,1% dos pedidos de recuperação judicial em 2025, o que acendeu um alerta no sistema financeiro e levou bancos e cooperativas a exigirem mais garantias para liberar crédito.
Ao mesmo tempo, o ambiente econômico mais restritivo, com juros elevados e aumento dos custos operacionais, vem pressionando o caixa do produtor. Esse cenário contribuiu para a alta da inadimplência, que já supera 8% em algumas análises, além de ampliar o uso de instrumentos como CPR e outras formas de financiamento mais caras .
Nova tecnologia tenta corrigir falha histórica no crédito rural
Diante desse contexto, a criação do score de risco produtivo surge como uma resposta direta a uma lacuna histórica: a análise de crédito no agro sempre considerou mais o histórico financeiro do produtor do que sua capacidade real de produzir.
A ferramenta, desenvolvida pela Picsel, funciona de forma semelhante aos scores de crédito tradicionais, mas com um diferencial importante: incorpora variáveis diretamente ligadas à produção agrícola, como produtividade, clima, solo e histórico de safras .
Na prática, isso significa que o risco passa a ser medido não apenas pelo passado financeiro do produtor, mas pela consistência e potencial produtivo da sua área agrícola.
Como funciona o score de risco produtivo
A tecnologia utiliza uma base robusta de dados, que inclui:
- Mais de 30 anos de histórico agrícola
- Avaliação de até 30 safras diferentes
- Maior peso para as cinco safras mais recentes
- Cobertura de praticamente 100% da produção nacional de soja e milho, que representam cerca de 88% dos grãos do país
Além disso, o sistema integra informações de diferentes fontes, como:
- Imagens de satélite (incluindo Sentinel e dados da NASA)
- Dados climáticos históricos
- Informações de solo
- Bases públicas como o Cadastro Ambiental Rural (CAR) e MapBiomas
Esses dados são processados por modelos de inteligência artificial, que geram uma pontuação entre 0 e 1000 pontos, onde quanto maior o score, menor o risco produtivo da área analisada .
Outro ponto importante é que a análise é feita por área produtiva, e não apenas por produtor. Isso permite identificar diferenças dentro da mesma propriedade, oferecendo uma leitura mais precisa do risco.

Impacto direto no crédito, seguro e gestão financeira
O score de risco produtivo funciona como um verdadeiro termômetro agrícola, permitindo que instituições financeiras ajustem suas estratégias de concessão de crédito de forma mais eficiente.
Na prática, isso pode resultar em:
- Taxas de juros mais justas para produtores mais eficientes
- Redução da exigência de garantias para áreas com menor risco
- Maior rigor para operações consideradas mais arriscadas
- Melhor precificação de seguros agrícolas
Além disso, a ferramenta permite correlacionar diretamente quebras de safra com inadimplência, o que tende a melhorar processos como gestão de risco e provisionamento de perdas no sistema financeiro .
Cenário de pressão exige mais inteligência financeira no agro
O avanço dessa tecnologia ocorre em um momento crítico. O setor enfrenta uma combinação de fatores que elevam o risco:
- Custos de produção mais altos
- Volatilidade das commodities
- Eventos climáticos extremos
- Descompasso entre ciclo produtivo e entrada de receita
Esse conjunto de desafios cria um “vazio financeiro”, no qual o produtor já arcou com os custos, mas ainda não realizou vendas, pressionando o caixa e aumentando a dependência de crédito .
Diante disso, especialistas apontam que o futuro do agro passa por mais uso de dados, diversificação de financiamento e gestão de risco mais sofisticada.
Uma mudança estrutural na análise do agro
O score de risco produtivo representa, portanto, uma mudança estrutural na forma como o mercado enxerga o produtor rural. Ao integrar tecnologia, dados históricos e inteligência artificial, a ferramenta tende a reduzir distorções e trazer mais justiça na avaliação de risco.
Mais do que isso, pode ajudar a equilibrar uma equação cada vez mais sensível no campo: como garantir acesso ao crédito sem aumentar a inadimplência.
Se consolidado, esse modelo pode marcar o início de uma nova fase no financiamento do agronegócio brasileiro — mais técnica, mais precisa e alinhada à realidade produtiva do campo.
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