Costa Rica mira genética Canchim para produzir raça pura na América Central

Grupo com mais de 20 pecuaristas visitou a Fazenda Santo Antônio, em Angatuba (SP), para conhecer a genética Canchim e avaliar a implantação da raça pura na Costa Rica por meio de embriões brasileiros

A raça Canchim pode estar prestes a dar um dos passos mais importantes de sua história recente rumo à internacionalização. No último dia 5 de maio, uma comitiva formada por mais de 20 pecuaristas e técnicos da Costa Rica desembarcou em Angatuba para acompanhar de perto o encerramento da Prova de Avaliação de Touros a Campo (PCAD ILMA), realizada na Fazenda Santo Antônio, do Grupo ILMA.

A visita teve um objetivo claro: conhecer a fundo o avanço genético da raça Canchim no Brasil e avaliar a viabilidade da importação de embriões para implantação da raça pura em território costarriquenho. O movimento é visto por criadores, pesquisadores e empresas do setor como um marco para a expansão internacional da genética Canchim, abrindo portas não apenas para a Costa Rica, mas também para outros mercados da América Central, América Latina e até da África.

Durante todo o dia, os visitantes acompanharam palestras técnicas, avaliações funcionais, julgamento de touros, apresentação de matrizes e discussões sobre melhoramento genético, cruzamentos industriais, tolerância ao carrapato e produção de embriões bovinos de alta performance. O encontro reuniu ainda representantes da Embrapa, da Associação Brasileira de Criadores de Canchim, do Instituto de Zootecnia, além de centrais genéticas e criadores de referência da raça.

Mais do que uma simples visita técnica, o evento representou uma espécie de vitrine internacional do Canchim brasileiro, mostrando aos estrangeiros o nível de evolução genética alcançado pela raça nas últimas décadas.

Interesse nasceu após utilização de sêmen Canchim na Costa Rica

Um dos responsáveis pela articulação da visita internacional, Emílio Gouvêa explicou que o interesse da Costa Rica pela raça começou após produtores locais passarem a utilizar sêmen de touros Canchim brasileiros em seus rebanhos.

Segundo ele, os resultados obtidos no cruzamento despertaram rapidamente a curiosidade dos pecuaristas costarriquenhos, que passaram a buscar informações mais profundas sobre a raça.

“Essa demanda começou depois que alguns produtores da Costa Rica utilizaram sêmen de touros Canchim nossos, comercializados através da Alta Genetics. Eles começaram a observar os resultados e passaram a ter um interesse muito grande pela raça”, afirmou.

Emílio contou que o assunto ganhou força durante a InterCorte do ano passado, quando produtores estrangeiros começaram a questionar a possibilidade de utilização de embriões para formação de plantéis puros fora do Brasil.

“Naquele momento percebemos que existia uma oportunidade real. Eles queriam entender como funcionava a produção de embriões e como poderiam começar um Canchim puro lá na Costa Rica”, explicou.

A partir daí, nasceu o projeto desenvolvido em parceria entre Canchim ILMA, Canchim CantaGalo, Mangalba EG, Alta Genetics e Trans Ova, empresa norte-americana referência mundial em biotecnologia reprodutiva.

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Foto: Marcio Peruchi

“Eles já conheciam nossas linhagens”, revela criador

Segundo Emílio Gouvea, um dos momentos mais marcantes da visita foi perceber o nível de conhecimento técnico que os costarriquenhos já possuíam sobre a raça Canchim e sobre os principais rebanhos brasileiros.

“O que mais me surpreendeu foi que, quando fui apresentar nossos touros, eles já sabiam quem eram os pais, as mães, as linhagens dos animais. Isso foi muito gratificante e mostra que o Canchim brasileiro já desperta atenção fora do país há algum tempo”, destacou.

Para ele, o interesse estrangeiro comprova o amadurecimento da raça e o reconhecimento internacional do trabalho de melhoramento genético realizado por criadores brasileiros ao longo de décadas.

“Estamos falando de mais de 70 anos de seleção genética. Quem adquirir esses embriões não estará começando do zero, mas sim iniciando um plantel com décadas de evolução acumuladas”, ressaltou.

ILMA vê projeto como abertura de uma nova fronteira para a raça

Responsável pelos trabalhos de melhoramento do Canchim ILMA, Adriano Lopes afirmou que a presença da comitiva da Costa Rica representa o início de uma nova etapa para a raça Canchim no mercado internacional.

Segundo ele, a exportação de embriões pode acelerar significativamente a disseminação da genética brasileira em países tropicais. “Nós demos aqui um pontapé inicial muito importante na comercialização de embriões Canchim. Acreditamos profundamente nesse mercado e vemos um potencial enorme para América Central, América do Sul e outros países tropicais”, afirmou.

Adriano destacou ainda que a tecnologia de embriões permite um salto genético muito mais rápido aos pecuaristas interessados na raça. “Quando o produtor investe em embriões, ele encurta em 15 ou 20 anos o processo de melhoramento do rebanho. No nosso caso, estamos falando de mais de 40 anos de seleção genética acumulada”, explicou.

O criador também ressaltou que o projeto nasce sustentado por avaliações técnicas rigorosas, realizadas em parceria com pesquisadores e instituições de referência. “Tudo isso é construído com base em dados, avaliação funcional, desempenho, adaptabilidade e seleção genética consistente. É isso que dá credibilidade ao projeto”, afirmou.

Costa-riquenhos saem impressionados com adaptabilidade da raça

Representando a Alta Genetics, Esteban Ulloa Murillo da Ganadería Magghi afirmou que a comitiva saiu impressionada com o nível da genética apresentada no Brasil.

Segundo ele, o Canchim reúne exatamente as características buscadas pelos sistemas produtivos da Costa Rica: rusticidade, adaptação ao calor, ganho de peso e qualidade de carne. “O Canchim é uma raça extremamente adaptada ao clima tropical e pode contribuir muito para a qualidade da carne e para a rentabilidade da pecuária da Costa Rica”, afirmou.

Esteban destacou ainda que o grupo ficou particularmente impressionado com as matrizes selecionadas para o projeto de embriões e com os resultados obtidos pelos animais avaliados na prova. “As impressões foram extremamente positivas. Todos ficaram muito satisfeitos com o que viram aqui no Canchim ILMA e com o nível dos animais apresentados”, relatou.

“O Canchim pode transformar a pecuária da América Central”, diz Zadra

O zootecnista Alexandre Zadra acredita que o Canchim possui enorme potencial para transformar sistemas produtivos tropicais da América Central.

Segundo ele, muitos rebanhos da Costa Rica ainda possuem conformação excessivamente zebuína e podem ganhar musculatura, desempenho e qualidade de carcaça com a utilização da raça. “Quando você coloca Canchim nesses cruzamentos, entra musculatura, entra conformação de carcaça, entra ganho de desempenho. Isso fica muito evidente”, explicou.

Zadra afirmou ainda que a raça possui enorme versatilidade para cruzamentos industriais e excelente adaptação a ambientes quentes e desafiadores. “O Canchim funciona muito bem em regiões tropicais. Nós já vimos animais performando em estados extremamente quentes do Brasil e isso chamou muito a atenção dos visitantes”, destacou.

Projeto de embriões aposta em alta tecnologia e taxas elevadas de concepção

O gerente de embriões da Alta Genetics, Vinícius Moressi, afirmou que o projeto nasce sustentado por uma das tecnologias mais avançadas do mundo em produção embrionária.

Segundo ele, a parceria contará com suporte da Trans Ova, gigante norte-americana responsável por revolucionar o mercado global de embriões bovinos.

Moressi explicou que um dos grandes entraves históricos da produção embrionária eram as baixas taxas de concepção registradas há alguns anos, cenário que mudou completamente com os avanços laboratoriais recentes.

“Há 10 ou 15 anos, muitos produtores tinham insegurança com embriões porque os resultados eram muito inconsistentes. Hoje isso mudou radicalmente. Com o avanço da tecnologia, trabalhamos com médias de concepção entre 50% e 60%, índices extremamente competitivos dentro da pecuária moderna”, destacou.

Segundo ele, os próprios produtores costarriquenhos ficaram impressionados com o nível tecnológico apresentado durante o encontro.

“Muitos deles já utilizavam touros Canchim e ficaram abismados quando viram de perto a evolução genética da raça, a adaptabilidade dos animais, o desempenho em confinamento e a habilidade materna das vacas”, afirmou.

Para Moressi, o Canchim possui potencial para se tornar uma ferramenta estratégica de melhoramento genético em toda a América Central.

“É uma raça extremamente versátil, adaptada ao calor, eficiente em cruzamentos e muito produtiva. Ela pode contribuir muito para os sistemas produtivos tropicais”, ressaltou.

Embrapa vê avanço histórico para a raça

Pesquisadora da Embrapa Pecuária Sudeste, Cíntia Marcondes afirmou que o interesse estrangeiro reforça o reconhecimento internacional da eficiência produtiva do Canchim. “A comitiva veio justamente para conhecer a produtividade, eficiência e adaptabilidade da raça ao clima tropical. Isso mostra que o trabalho de seleção realizado no Brasil vem despertando atenção internacional”, destacou.

Ela acredita que a exportação de embriões pode representar um divisor de águas para a expansão global da raça.

“É um marco para o Canchim brasileiro”, afirma presidente da associação

Presidente da Associação Brasileira de Criadores de Canchim, Kika Ribeiro classificou a visita da delegação costarriquenha como um momento histórico para o setor.

“Foi uma visita extremamente importante para a raça Canchim e principalmente para a exportação de genética brasileira. Isso pode abrir portas para novos mercados e incentivar ainda mais os programas de melhoramento dentro da raça”, afirmou.

Segundo ela, além da possibilidade de exportação de embriões, o evento também demonstrou o alto nível técnico alcançado pelos animais avaliados na prova.

“Os touros e matrizes apresentados aqui certamente irão contribuir muito para o avanço genético do Canchim tanto no Brasil quanto fora dele”, concluiu.

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