Pequena, dócil e produtora de um leite rico para queijos, a vaca Canadienne enfrenta o avanço das Holstein e depende de pesquisa genética e estratégia de mercado para continuar existindo.
Num estábulo do Centre de recherche en sciences animales de Deschambault (CRSAD), a oeste da cidade de Quebec, uma bezerra castanha chamada Victorine chama atenção logo de cara: apesar de ter nascido em agosto de 2025, ela é menor do que bezerros Holstein ainda mais jovens que dividem o mesmo espaço.
Curiosa, a bezerra interage com visitantes como se estivesse acostumada a ser observada. Mas o motivo que a torna especial vai muito além da aparência: Victorine pertence a uma raça histórica e rara, considerada hoje em risco real de desaparecer da pecuária.
Ela é uma Canadienne, raça bovina originalmente francesa, levada à então Nova França por colonizadores em meados de 1600. Desde então, especialistas afirmam que todas as vacas Canadienne existentes descendem daquele primeiro rebanho, formado por cerca de 300 animais.
O problema é que, passados quase quatro séculos, a raça está no limite. As estimativas apontam que restam aproximadamente 800 vacas Canadienne no mundo, espalhadas entre França, Estados Unidos, Saskatchewan e Quebec. Destas, apenas cerca de 400 são consideradas de raça pura, o que coloca a raça em um cenário de urgência para conservação.
A principal ameaça não é sanitária, mas econômica. Em um mercado cada vez mais orientado por produtividade e escala, a raça Canadienne acabou perdendo espaço para vacas que entregam maior volume de leite. E, nesse ponto, a diferença é gritante: enquanto uma Holstein moderna pode produzir até 60 quilos de leite por dia, uma Canadienne produz em torno de 20 a 25 quilos diários.
Ainda que produza menos, a Canadienne tem um trunfo importante: o leite é rico em gordura e proteínas, característica que melhora o desempenho em produtos como queijo e manteiga. Só que, para os padrões industriais, isso não basta quando o produtor é remunerado principalmente pelo volume entregue.

Foto: Susan Campbell/CBC
A especialista em nutrição animal Rachel Gervais, da Universidade Laval, descreve com bom humor o contraste entre as raças. Ao caminhar pelo rebanho, ela aponta para uma vaca Canadienne chamada Florine ao lado de uma Holstein: a Canadienne parece pequena demais, quase como um animal jovem, mas é adulta, saudável e produtiva.
Para Mario Duchesne, coordenador da Rede Canadense de Raças Bovinas, a queda da raça no sistema leiteiro tem uma explicação direta: muitos criadores desistiram da Canadienne justamente pela baixa produção, migrando para a Holstein, que hoje domina a cadeia do leite. Ainda assim, Duchesne acredita que a pequena vaca marrom não precisa competir com a Holstein, e sim ocupar outro espaço no mercado: o da identidade, da tradição e da qualidade.
Segundo ele em entrevista a CBC, a chance de sobrevivência está em transformar a raça em um produto com valor próprio, ancorado em atributos que o consumidor reconheça e pague mais caro. “Precisamos de qualidade”, defende Duchesne, “mas precisamos vender a herança desta raça. Ela é originária da França, mas não é uma vaca francesa. É uma vaca canadense.”
Esse é justamente o ponto central defendido pelos cientistas envolvidos no projeto: salvar a raça depende de torná-la viável economicamente para o produtor. E, para isso, o caminho mais promissor está no leite e no potencial de transformação desse leite em produtos de nicho.
Gervais destaca que esse modelo já funciona em outros países, especialmente na Europa, onde raças específicas estão diretamente ligadas à produção de queijos tradicionais e manteigas diferenciadas. Com isso, pequenas produções conseguem cobrar mais caro, manter margens e, ao mesmo tempo, preservar biodiversidade.
Outro desafio importante enfrentado pelos pesquisadores é que, apesar de ser histórica, a raça Canadienne tem poucos dados científicos consolidados. Muita coisa sobre ela circula como “verdade popular”, baseada em relatos antigos, suposições ou até mitos. Por isso, parte do projeto passa por catalogar a raça de forma técnica, com dados reais e comparáveis.

O geneticista Claude Robert, do departamento de ciências animais da Universidade Laval, explica que o primeiro passo foi avaliar se a raça ainda tem diversidade genética suficiente para ser recuperada. A expectativa era encontrar uma diversidade baixa, já que se trata de uma raça com base populacional pequena e histórico limitado de cruzamentos. Mas o resultado surpreendeu.
“Para nossa surpresa, encontramos muita diversidade”, afirma Robert. Segundo ele, os criadores, ao longo do tempo, utilizaram diferentes touros disponíveis e, com isso, acabaram preservando variação genética no rebanho. Essa descoberta muda o cenário: em vez de apenas “segurar o que resta”, a raça pode ser trabalhada para evoluir.
Além de genética, há ajustes físicos e funcionais que podem aumentar o interesse comercial pela raça. Robert cita que algumas características, como úbere mais baixo, precisam ser corrigidas para melhorar a funcionalidade do animal e a praticidade no manejo. A avaliação é que essas melhorias podem ocorrer rapidamente com direcionamento adequado.
Enquanto isso, Gervais investiga outra crença bastante comum sobre a raça: a ideia de que a Canadienne é “feita” para comer forragens velhas ou de baixa qualidade. Ela reconhece que a raça é rústica e adaptável, mas reforça que não há dados concretos que provem qual dieta realmente entrega o melhor desempenho, tanto para produção quanto para qualidade do leite.
O objetivo é encontrar uma alimentação eficiente que permita equilibrar três fatores decisivos para o produtor: qualidade do leite, desempenho produtivo e custo de alimentação, sem perder a principal característica que diferencia a raça.

A pesquisa científica também se conecta com experiências reais de produtores que trabalham com a raça há décadas. Um dos exemplos mais citados é o de Dominique Arseneau, coproprietário da La Fromagerie du Pied-de-Vent, em Havre-Aux-Maisons, nas Ilhas da Madalena.
Ele cresceu vendo a família criar vacas Canadiennes, inicialmente voltadas ao abate. Mas em 1998 decidiu produzir queijo a partir do leite delas — exatamente o tipo de estratégia que hoje os pesquisadores enxergam como alternativa viável. Arseneau destaca a rusticidade da raça e o bom aproveitamento das pastagens locais, além da tranquilidade no manejo.
Para ele, a Canadienne é uma vaca “com poucos problemas”, produtiva dentro do que se propõe e com leite muito bom. Ainda assim, ele aponta um obstáculo: no sistema leiteiro, a conta fecha quando há volume. Quando uma vaca produz menos, o produtor precisa de mais animais para entregar a mesma quantidade total de leite, o que eleva custos.
“Quando se produz leite, paga-se muito para obter volume”, resume Arseneau. “Quando uma vaca é um pouco menos produtiva, é preciso ter mais animais para compensar.”
É justamente por isso que o foco da pesquisa não é apenas dizer que o leite é bom, mas provar, tecnicamente, que ele pode gerar produtos mais valorizados. O leite das vacas estudadas é enviado para o laboratório de Julien Chamberland, professor assistente do departamento de ciência dos alimentos da Universidade Laval, onde seus componentes são analisados em detalhes.
Depois, ele segue para a fábrica experimental da faculdade, onde é transformado em queijo — o lugar onde, segundo Chamberland, “a mágica acontece”.
O primeiro lote de queijo tradicional de leite cru foi produzido em dezembro de 2025, utilizando leite de vacas Holstein e Canadienne, preparados com o mesmo método e nas mesmas condições. Desde o primeiro dia, a equipe percebeu que havia diferença.
Segundo Chamberland, os queijos “não têm a mesma cor e não têm o mesmo sabor”. O queijo feito com leite Canadienne apresentou um sabor mais intenso e amanteigado, um perfil sensorial que não aparece com a mesma força no leite Holstein.
“O queijo Canadienne tem um sabor amanteigado intenso que o Holstein não tem. É diferente, e é isso que queremos promover”, afirma.

Apesar da empolgação inicial, a equipe ainda terá um caminho longo pela frente. O queijo precisa de dois anos de maturação para revelar todas as características que os pesquisadores buscam compreender. Mesmo assim, a expectativa é de que o leite da raça Canadienne tenha propriedades únicas e potencial para ser vendido como um produto premium, com identidade, história e diferencial de mercado.
Além da ciência e do mercado, existe também um componente emocional no projeto. Gervais destaca que as Canadiennes se tornaram as favoritas da fazenda pelo comportamento dócil, pela simpatia e por serem ótimas “embaixadoras” do próprio rebanho, inclusive ajudando a atrair estudantes e atenção do público.
Mas ela faz questão de ser realista: a raça não será salva apenas por carisma. O futuro depende de um conjunto de ações coordenadas, que inclui genética, nutrição, seleção, estratégia comercial e transformação do leite em produtos com mais valor agregado.
Mesmo assim, ela acredita que ainda há tempo — e que muitas pessoas carregam senso de história suficiente para querer ver essa raça continuar existindo.
A raça Canadienne é considerada a única raça bovina leiteira desenvolvida no Canadá, com origem no gado francês do século XVII. Pequena, resistente ao frio, rústica e dócil, ela produz leite com alto teor de gordura e proteína, sendo muito valorizada para queijo. Ao longo da história, teve papel essencial para colonos franceses por sua versatilidade, servindo tanto para leite quanto para carne magra e até trabalho.
Hoje, sua preservação está concentrada principalmente em Quebec, onde criadores e universidades tentam transformar uma raça ameaçada em um símbolo de biodiversidade, qualidade e herança rural com valor comercial.
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