Compra histórica de tilápia por Minas Gerais provoca reação no setor produtivo

Importação inédita de 122 toneladas do peixe vietnamita em 2026 quebra ciclo de quase 30 anos e gera debate sobre desigualdade tributária e riscos sanitários no estado

O mercado aquícola brasileiro foi surpreendido em fevereiro de 2026 com um movimento comercial que rompeu um ciclo de quase trinta anos. Pela primeira vez desde 1997, a compra histórica de tilápia por Minas Gerais foi registrada oficialmente, trazendo à tona um sinal de alerta para a cadeia produtiva local. Foram importadas 122 toneladas de filés oriundos do Vietnã, conforme apontam os dados do ComexStat.

O fato é emblemático porque ocorre justamente em um momento de franca expansão da produção mineira, evidenciando um desequilíbrio competitivo gerado por fatores econômicos externos e tributários.

Os números por trás da compra histórica de tilápia por Minas Gerais

A entrada do produto vietnamita no território mineiro não é um evento isolado, mas reflete uma tendência que ganha força no Brasil. De acordo com o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o país importou mais de 1,3 mil toneladas de filé de tilápia da nação asiática no mesmo período. Esse volume equivale a aproximadamente 4,1 mil toneladas de peixe vivo, o que já representa 6,5% da produção mensal brasileira. Pela primeira vez na série histórica, o volume de importações superou o de exportações nacionais.

Segundo Nathália Rabelo, analista de agronegócios do Sistema Faemg Senar, o fenômeno da compra histórica de tilápia por Minas Gerais não se justifica por escassez de peixe nas represas do estado, mas por uma agressividade de preços do mercado externo. O filé vietnamita chega ao varejo com custos reduzidos graças à escala industrial de produção e encargos operacionais menores no país de origem, desafiando a hegemonia dos polos produtores mineiros, como Morada Nova de Minas.

Crescimento da produção e o gargalo tributário

A ironia do cenário atual reside no desempenho produtivo de Minas. Dados do IBGE revelam que o Brasil produziu 499 mil toneladas em 2024, um salto de 12,8% em relação ao ano anterior. Em Minas Gerais, o crescimento foi ainda mais robusto: 28% de aumento, saltando para 58,4 mil toneladas anuais. O estado consolidou-se como o terceiro maior produtor nacional, detendo 11,7% do share total e investindo pesadamente em genética e nutrição.

Entretanto, o setor reclama da falta de isonomia. O produtor Carlos Junior de Faria Ribeiro destaca que a indústria mineira é onerada pelo ICMS, enquanto o produto importado entra no estado com vantagens competitivas desleais. Para os produtores locais, a atual política acaba por favorecer o exportador estrangeiro em detrimento de quem gera emprego e renda no campo mineiro, exigindo uma resposta rápida das autoridades para proteger o mercado interno.

Riscos sanitários e insegurança regulatória

Para além da questão financeira, a compra histórica de tilápia por Minas Gerais levanta uma bandeira vermelha sobre a biossegurança. O setor teme a introdução do vírus da tilápia do lago (TiLV), uma enfermidade exótica da qual o Brasil é livre. Uma eventual contaminação poderia dizimar parques aquícolas inteiros, causando prejuízos bilionários.

Outro ponto de tensão é o debate jurídico sobre a tilápia ser classificada como “espécie exótica invasora”. Segundo Guilherme Oliveira, analista de Sustentabilidade do Sistema Faemg Senar, uma mudança nessa classificação aumentaria drasticamente a burocracia e os custos ambientais. Esse cenário de incerteza regulatória, somado à pressão das importações, pode frear novos investimentos e comprometer a competitividade da piscicultura mineira no longo prazo.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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