Endividamento crescente, juros elevados e crédito restrito empurram empresas do campo para a reestruturação financeira — movimento que pode se intensificar em 2026. Com mais de 200 pedidos, soja lidera o número de empresas em recuperação judicial
O agronegócio brasileiro, frequentemente apontado como um dos pilares da economia nacional, enfrenta um momento de forte pressão financeira. Dados recentes mostram que o número de empresas em recuperação judicial atingiu níveis recordes, revelando um cenário de fragilidade que preocupa produtores, credores e analistas. Dentro desse contexto, o cultivo de soja aparece como o segmento mais afetado, concentrando mais de duas centenas de pedidos — um sinal claro de que até cadeias tradicionalmente resilientes estão sendo impactadas.
Segundo levantamento do Monitor RGF de Recuperação Judicial, o setor agropecuário encerrou o quarto trimestre de 2025 com 493 empresas em recuperação, avanço de 14,2% em relação ao trimestre anterior. O Índice RGF de Recuperação Judicial (IRJ) chegou a 13,53 — o mais alto entre todos os segmentos da economia, evidenciando a dimensão do problema no campo.
Esse indicador mede a proporção de empresas em recuperação a cada mil companhias ativas. Para efeito de comparação, a média nacional ficou em apenas 2,13, o que reforça o grau de vulnerabilidade do agro diante do atual ambiente econômico.
Soja lidera a crise dentro do agronegócio com maior número de pedidos de recuperação judicial
Entre as atividades mais pressionadas, o cultivo de soja lidera em número absoluto de casos, com 217 empresas em recuperação judicial. Na sequência aparecem a criação de bovinos para corte, com 84 registros, e o cultivo de cana-de-açúcar, com 50.
A leitura do relatório indica que o desempenho “reforça a vulnerabilidade do segmento”, pressionado por fatores como adversidades climáticas, oscilações de preços e restrição ao crédito — combinação que tem reduzido margens e comprometido o fluxo de caixa das companhias.
Especialistas avaliam que o quadro atual não surgiu de forma repentina, mas sim do acúmulo de dificuldades financeiras ao longo do tempo. Em muitos casos, empresas chegaram ao limite operacional após esgotar alternativas de curto prazo.
Juros altos e crédito restrito formam o “efeito tesoura”
Entre os principais vetores da crise está o custo do dinheiro. Taxas de juros elevadas, crédito mais cauteloso e maior incerteza econômica contribuíram para que empresas atingissem um limite financeiro, especialmente no fechamento de 2025.
O fenômeno não é isolado do agro. No Brasil como um todo, 5.680 empresas estavam em recuperação judicial ao fim do quarto trimestre de 2025, alta de 7,5% frente ao trimestre anterior e de 24,3% na comparação anual.
Outro levantamento aponta que 5,6 mil companhias estavam em processo de reestruturação, enquanto cerca de 1,6 mil recorreram à Justiça apenas no último ano — e somente 561 conseguiram sair do processo.
Endividamento crescente amplia o risco sistêmico
O avanço dos pedidos também reflete uma escalada das dívidas corporativas. Apenas as empresas que entraram em recuperação no último trimestre declararam passivos de aproximadamente R$ 40 bilhões, mais que o dobro do registrado no período anterior.
Analistas alertam que o problema pode ganhar escala porque grandes companhias também passaram a recorrer ao instrumento, o que tende a gerar efeitos em cadeia sobre fornecedores e parceiros menores.
Além disso, fatores como flutuações cambiais e incertezas políticas ampliam a cautela do mercado financeiro — cenário que reforça a expectativa de novos recordes de empresas em dificuldade ao longo de 2026.
Agro lidera insolvências e preocupa regiões produtoras
O recorte regional mostra que áreas fortemente dependentes da produção agrícola sentem o impacto com mais intensidade. Mato Grosso do Sul, por exemplo, registrou crescimento de 84% no número de empresas insolventes em um ano, com destaque para a soja e a pecuária.
O avanço das recuperações no setor chama atenção não apenas pelo volume, mas pela velocidade. No quarto trimestre de 2025, havia 493 empresas do agro nessa situação — aumento de 67% na comparação anual, movimento impulsionado por custos elevados, preços mais baixos das commodities e crédito escasso.
Para lideranças do setor, o cenário ainda pode piorar. O alto nível de endividamento somado a taxas bancárias entre 15% e 20% dificulta renegociações e deixa a recuperação judicial como uma das poucas alternativas para empresas pressionadas financeiramente.
Pequenas e médias seguem mais expostas — mas gigantes entram no radar
Embora empresas menores continuem mais vulneráveis, o monitor indica que companhias de maior porte também passaram a figurar entre os pedidos, inclusive dentro da agropecuária.
Esse movimento muda o perfil das recuperações judiciais no país e sugere um ciclo mais complexo, no qual problemas financeiros deixam de ser pontuais e passam a refletir um ambiente macroeconômico desafiador.
Cresce a recuperação judicial: Um sinal de alerta para o principal motor da economia
Apesar do recorde, as empresas em recuperação ainda representam uma fatia relativamente pequena do universo corporativo — cerca de 2,13 companhias em crise a cada mil ativas.
Ainda assim, o fato de o agronegócio liderar proporcionalmente os pedidos acende um alerta estratégico. O setor, responsável por parcela significativa das exportações e do PIB brasileiro, pode enfrentar um período de maior seletividade financeira, exigindo gestão de risco mais rigorosa, planejamento de safra e controle do endividamento.
Se as condições de crédito permanecerem restritas e os custos continuarem pressionados, especialistas avaliam que o movimento observado em 2025 pode ser apenas o início de um ciclo mais longo de reestruturação no campo — com a soja, principal commodity agrícola do país, no centro dessa transformação.
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