Cientistas encontram vestígios de cocaína e analgésicos em tubarões

Pesquisa inédita coordenada pela UFPR e Fiocruz detecta resíduos de drogas ilícitas e fármacos em predadores nas Bahamas, evidenciando o impacto severo da poluição urbana e os riscos da contaminação no sangue de tubarões para a segurança alimentar e a saúde pública global

A degradação dos ecossistemas marinhos atingiu um novo e alarmante patamar. Um artigo publicado recentemente no periódico científico Environmental Pollution documentou, de forma inédita, a contaminação no sangue de tubarões por substâncias de preocupação emergente, incluindo entorpecentes e fármacos de uso comum.

O estudo, coordenado pela professora Natasha Wosnick, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), em parceria com a Fiocruz, identificou resíduos de cocaína, cafeína e analgésicos (paracetamol e diclofenaco) em animais que habitam as águas das Bahamas.

Impacto da contaminação no sangue de tubarões na vida marinha

Embora os tubarões ocupem o topo da cadeia alimentar e sejam fundamentais para o equilíbrio oceânico, eles figuram entre as espécies mais vulneráveis à atividade humana. A pesquisa concentrou-se em animais de habitats costeiros, como o tubarão-caribenho-de-recife (Carcharhinus perezi), o tubarão-lixa (Ginglymostoma cirratum) e o tubarão-limão (Negaprion brevirostris).

A identificação dessas substâncias foi possível graças à técnica de cromatografia líquida acoplada à espectrometria de massas em série (LC–MS/MS). Esse método permite separar e pesar moléculas com precisão cirúrgica, detectando compostos mesmo em concentrações ínfimas no soro sanguíneo. Os dados reforçam que o descarte inadequado de esgoto e a falha no tratamento de resíduos urbanos estão transformando os oceanos em depósitos químicos de alta periculosidade.

Metodologia e parcerias internacionais

O estudo foi liderado por Wosnick através do Instituto de Cabo Eleuthera, nas Bahamas, e contou com a colaboração técnica da professora Rachel Ann Hauser-Davis, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), onde as amostras foram processadas no Brasil. Diante do status de conservação das espécies, a equipe utilizou métodos não letais, priorizando a ética e a preservação dos indivíduos analisados.

A importância do estudo reside no fato de ser o primeiro no mundo a relatar cafeína e paracetamol em tubarões, além de marcar o primeiro registro de cocaína e diclofenaco em espécimes na região caribenha.

Consequências biológicas da contaminação no sangue de tubarões

Ao contrário do que sugere a ficção cinematográfica, a presença de estimulantes não gera comportamentos agressivos ou “eufóricos” nos animais. “Essa associação só reforça um medo histórico exagerado que contribui para a perseguição desses animais”, alerta a pesquisadora Natasha Wosnick.

O perigo real é invisível e fisiológico. A contaminação no sangue de tubarões provoca alterações em marcadores vitais, como os níveis de triglicerídeos, ureia e lactato. Como os tubarões compartilham vias metabólicas com outros vertebrados, as substâncias desenvolvidas para humanos podem comprometer gravemente o sistema endócrino, o fígado e o sistema nervoso desses predadores, afetando desde sua saúde geral até sua capacidade reprodutiva.

Um problema de “Saúde Única”: Do oceano ao prato

Para o setor de agronegócio e pesca, os dados são um alerta para a segurança alimentar. Através da bioacumulação, esses contaminantes concentram-se no organismo dos grandes predadores que, em muitas regiões (incluindo o Brasil), são consumidos por humanos sob o nome comercial de cação.

A questão, portanto, transita do desequilíbrio ecológico para um desafio de saúde pública. A integração entre a saúde ambiental, animal e humana — o conceito de Saúde Única — é a única via para mitigar os riscos. O cenário observado no Caribe serve como um espelho para a costa brasileira, onde a urgência por investimentos em saneamento básico e monitoramento químico torna-se cada vez mais evidente para proteger a economia pesqueira e a saúde da população.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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