Ciência cria “impressão digital” para rastrear da carne, madeira e soja no Brasil

Com uso de inteligência artificial, tecnologia nuclear e análise química, pesquisadores desenvolvem métodos para identificar a origem de commodities com a rastreabilidade e combater fraudes ligadas ao desmatamento.

A pressão global por cadeias produtivas mais transparentes colocou o Brasil diante de um dos maiores desafios da sua economia: provar a origem do que produz e exporta. Em um país que ocupa posição estratégica no comércio mundial de alimentos, fibras e produtos florestais, a sustentabilidade deixou de ser apenas um compromisso ambiental e passou a ser também um fator de competitividade, acesso a mercados e reputação internacional.

No centro dessa discussão estão três commodities fundamentais para a economia brasileira: carne bovina, madeira e soja. Todas têm forte relevância produtiva, mas também aparecem associadas, em diferentes graus, ao debate sobre desmatamento, uso da terra, exploração ilegal e fragilidades nos sistemas de controle de origem.

É nesse ponto que a ciência começa a ganhar protagonismo. Pesquisadores ligados ao Projeto RastreIA, sediado no Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de São Paulo (CENA/USP), trabalham no desenvolvimento de técnicas capazes de identificar a origem geográfica de produtos agropecuários e florestais por meio de assinaturas químicas, tecnologia nuclear, inteligência artificial e análise de elementos presentes em cada material. A proposta é ambiciosa: criar ferramentas que ajudem a separar produtos de origem regular daqueles associados a fraudes, ilegalidades ou áreas ambientalmente sensíveis.

O problema da origem

A rastreabilidade tem se tornado uma palavra-chave no comércio internacional, especialmente em cadeias ligadas ao uso da terra. Para compradores, governos, consumidores e empresas, já não basta saber apenas o que está sendo vendido. Cada vez mais, a pergunta central é: de onde veio esse produto e em que condições ele foi produzido?

O material analisado aponta que o avanço do desmatamento e da exploração ilegal expõe fragilidades nos mecanismos tradicionais de controle. Um dos dados mais fortes vem da Rede Simex, segundo a qual 62% da extração madeireira na Amazônia não é autorizada. O estudo avaliou a exploração de madeira por imagens de satélite entre agosto de 2023 e julho de 2024, cruzando as informações com dados oficiais dos órgãos ambientais.

O cenário se torna ainda mais sensível quando se observa onde parte dessa extração ocorre. Segundo o mesmo levantamento citado no material, 44% da exploração ilegal acontece em áreas protegidas, como territórios indígenas, assentamentos rurais e unidades de conservação. A madeira, portanto, aparece como uma das cadeias mais vulneráveis à fraude de origem, sobretudo quando a documentação não reflete a realidade do local explorado.

Mas o debate não se limita ao setor florestal. A relação entre desmatamento, ocupação irregular de áreas e produção agropecuária também envolve a pecuária bovina e a soja. O pesquisador Dr. Sérgio Raposo, da Embrapa, destaca no material que o desmatamento é um elo comum entre essas commodities, especialmente porque a pecuária pode ser usada como forma inicial de ocupação de áreas abertas ilegalmente, que depois podem dar lugar a outras atividades produtivas.

Madeira, carne e soja sob pressão

A madeira é um dos exemplos mais evidentes da complexidade da rastreabilidade no Brasil. O país possui uma das maiores biodiversidades de espécies florestais do mundo, o que dificulta a identificação, o controle e a fiscalização. Muitas espécies exploradas comercialmente estão ameaçadas pela retirada ilegal, o que amplia o risco ambiental e econômico da cadeia.

O caso do ipê ilustra esse desafio. O material aponta que se estima que apenas 20% da madeira de ipê não esteja relacionada a atividades de exploração ilegal. Trata-se de uma espécie altamente valorizada no mercado e, justamente por isso, muito visada por redes de extração irregular.

Hoje, para transportar e armazenar produtos florestais de espécies nativas, o Ibama exige o Documento de Origem Florestal (DOF), uma licença usada para comprovar a procedência legal da madeira. O problema, segundo os pesquisadores ouvidos no material, é que esse tipo de sistema pode ser fraudado. A documentação pode indicar uma espécie diferente daquela efetivamente explorada ou informar uma origem que não corresponde ao local real de retirada.

O analista ambiental Alexandre Gontijo, do Laboratório de Produtos Florestais do Serviço Florestal Brasileiro, explica que existem dois tipos de fraude recorrentes: a fraude taxonômica, quando uma espécie é declarada como se fosse outra, e a fraude de origem, quando o local informado não corresponde à verdadeira procedência da madeira.

Na prática, isso significa que um produto pode circular no mercado com aparência de legalidade, mesmo tendo sido extraído de forma irregular. É justamente essa lacuna que os métodos científicos de rastreabilidade buscam preencher.

A “impressão digital” das commodities

A aposta dos pesquisadores está na chamada assinatura química dos produtos. A lógica é relativamente simples, mas sofisticada do ponto de vista científico: elementos presentes no solo, na água, na vegetação e no ambiente deixam marcas nos organismos e materiais produzidos em determinada região. Essas marcas podem ser lidas como uma espécie de impressão digital geográfica.

No caso da madeira, a composição química carrega informações sobre o ambiente em que a árvore cresceu. No caso da carne bovina, a alimentação do animal, a água consumida e as características do solo da região também influenciam o perfil químico do produto final. Na soja, o princípio é semelhante: o ambiente produtivo deixa rastros que podem ajudar a indicar a origem.

É a partir desses rastros que o RastreIA pretende desenvolver modelos capazes de apontar, com maior segurança, de onde veio determinado produto. O projeto utiliza inteligência artificial, tecnologia nuclear e marcadores elementares e isotópicos para construir ferramentas de análise da origem geográfica de commodities brasileiras.

A pesquisadora Dra. Gabriela Bielefeld Nardotto, do Departamento de Ecologia da Universidade de Brasília (UnB), reforça no material que a rastreabilidade precisa estar vinculada à conservação dos ecossistemas e da biodiversidade. Para ela, rastrear não significa apenas identificar um ponto no mapa, mas reconstruir a história daquele produto, entendendo de onde veio, em que condições foi produzido e qual impacto pode ter gerado.

Essa abordagem amplia o conceito de rastreabilidade. No caso da carne bovina, por exemplo, não se trata apenas de acompanhar o animal ao longo da cadeia, mas de entender seu ciclo de vida, sua nutrição e o território onde foi criado. No caso da madeira, a rastreabilidade está ligada ao manejo florestal, à identificação correta da espécie e à comprovação do local de extração.

Tecnologia contra a fraude

Uma das vantagens apontadas pelos pesquisadores é que a composição química de um produto não pode ser alterada com a mesma facilidade de um documento. Enquanto registros físicos ou digitais podem ser manipulados, a assinatura química tende a preservar informações sobre a origem real do material.

É por isso que Alexandre Gontijo afirma que a rastreabilidade baseada em composição química pode funcionar como uma ferramenta de fiscalização e certificação de origem mais robusta. A madeira pode ser declarada de forma falsa em documentos, mas sua estrutura química carrega informações difíceis de mascarar.

Além da análise multielementar, o material destaca o uso da espectroscopia de infravermelho próximo, conhecida como NIRS. A técnica permite analisar amostras de madeira por meio de radiação eletromagnética e pode ser usada em campo, o que representa uma vantagem operacional importante para a fiscalização.

A pesquisadora Dra. Teresa Cristina Pastore, que atua com química da madeira no Laboratório de Produtos Florestais, explica que a identificação da madeira transportada é um desafio porque, muitas vezes, ela já está sem folhas, frutos ou outros elementos botânicos que auxiliariam na identificação visual. Nesse cenário, tecnologias capazes de fazer leituras rápidas e comparações com modelos estatísticos podem acelerar o processo de verificação.

Para garantir maior segurança nos resultados, os pesquisadores trabalham com bancos de amostras representativos, incluindo materiais de diferentes indivíduos, regiões e sistemas de produção. Quanto maior a base de comparação, mais preciso tende a ser o modelo de rastreabilidade.

O que o boi come também conta uma história

Na pecuária, a rastreabilidade química abre uma nova camada de análise. O pesquisador Dr. Sérgio Raposo, da Embrapa, resume a lógica com uma frase simples: “o ser vivo é o que come”.

A alimentação do gado, a água consumida e o ambiente em que o animal vive deixam marcas que podem ser detectadas no produto final. Isso significa que a carne pode carregar sinais associados à região de origem, ao sistema de produção e, em alguns casos, às condições ambientais do território.

Essa informação tem relevância direta para o debate sobre sustentabilidade. Em cadeias complexas, nas quais animais podem passar por diferentes propriedades ao longo da vida, a rastreabilidade convencional muitas vezes enfrenta gargalos. Técnicas científicas podem complementar os sistemas já existentes, oferecendo uma camada adicional de verificação.

No mercado internacional, esse tipo de ferramenta tende a ganhar importância. Países compradores e blocos econômicos têm aumentado as exigências relacionadas à origem dos produtos, especialmente quando há risco de associação com desmatamento. Para o Brasil, avançar nesse campo pode ser uma forma de proteger sua imagem, agregar valor às cadeias produtivas e reduzir o espaço para operadores ilegais.

Rastreabilidade como ativo econômico

Embora o tema tenha forte componente ambiental, a rastreabilidade também precisa ser vista como ativo econômico. Em um mundo onde consumidores, investidores e governos exigem mais transparência, países capazes de comprovar a origem sustentável de suas commodities tendem a ter vantagem competitiva.

Para o Brasil, isso é ainda mais relevante. O país tem escala, tecnologia, capacidade produtiva e papel estratégico no abastecimento global. Ao mesmo tempo, enfrenta cobranças recorrentes sobre desmatamento, grilagem, exploração ilegal e fiscalização ambiental.

A adoção de ferramentas científicas de rastreabilidade pode ajudar a separar produtores que cumprem a legislação daqueles que operam à margem dela. Também pode proteger empresas sérias de serem penalizadas pela imagem negativa gerada por cadeias contaminadas por ilegalidade.

Na prática, a rastreabilidade deixa de ser apenas uma exigência burocrática e passa a funcionar como um selo de confiança. Para frigoríficos, tradings, madeireiras, exportadores e produtores rurais, comprovar origem pode significar acesso a mercados mais exigentes, melhores contratos e redução de riscos reputacionais.

A sustentabilidade precisa ser comprovada

O material mostra que o Brasil vive um momento decisivo. A realização da COP30 em Belém, em 2025, colocou o país ainda mais no centro das discussões climáticas globais. Ao mesmo tempo, a força do agro brasileiro nas exportações torna inevitável o debate sobre como conciliar produção, conservação ambiental e responsabilidade climática.

A rastreabilidade científica surge, nesse contexto, como uma ponte entre o discurso e a comprovação. Não basta afirmar que uma cadeia é sustentável. Será cada vez mais necessário demonstrar, com dados, tecnologia e método, que determinado produto não veio de área ilegal, não está associado à degradação ambiental e respeita critérios mínimos de origem.

A pesquisadora Gabriela Nardotto resume essa visão ao defender que o manejo adequado é o “carimbo da sustentabilidade” para madeira, gado e soja. Ou seja, o futuro das commodities brasileiras não dependerá apenas de produzir mais, mas de provar como, onde e sob quais condições essa produção ocorre.

Uma nova etapa para o agro brasileiro

A rastreabilidade de carne bovina, madeira e soja pode se tornar uma das principais fronteiras tecnológicas da sustentabilidade no Brasil. Mais do que uma resposta à pressão internacional, ela representa uma oportunidade de modernizar cadeias produtivas, combater fraudes, fortalecer a fiscalização e valorizar quem produz dentro da lei.

Ao usar ciência para identificar a origem geográfica das commodities, o país pode avançar em uma agenda que une produtividade, preservação e credibilidade. Em um mercado cada vez mais atento à origem dos produtos, a transparência tende a deixar de ser diferencial e passar a ser requisito.

O desafio, agora, é transformar conhecimento científico em ferramenta prática para governos, empresas e produtores. Se isso acontecer, a rastreabilidade poderá cumprir um papel estratégico: proteger florestas, reduzir a concorrência desleal e consolidar o Brasil como potência agroambiental em um mundo que exige cada vez mais prova, e não apenas promessa.

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