As cercas virtuais permitem redefinir limites digitais dentro da lavoura, aumentam o controle do pastoreio e ajudam produtores a proteger culturas, reduzir perdas e otimizar o uso do solo em sistemas de integração lavoura-pecuária.
A agricultura mista australiana — modelo que integra produção de grãos e pecuária na mesma propriedade — passa por uma transformação silenciosa, porém estratégica. Em meio à conversão acelerada de pastagens em áreas agrícolas e à necessidade de decisões cada vez mais rápidas sobre o uso do solo, as cercas virtuais começam a ocupar espaço dentro de talhões de cultivo ativo, expandindo seu uso para além das pastagens tradicionais.
O avanço ocorre em um momento em que quase 900 mil hectares de pastagens foram convertidos em áreas de cultivo nos últimos dois anos na Austrália, refletindo pressões econômicas e a valorização da produção de grãos. Esse cenário exige maior precisão no manejo do gado dentro das propriedades que mantêm sistemas integrados.
As cercas virtuais utilizam coleiras com GPS instaladas nos animais, que delimitam fronteiras digitais programáveis. Quando o gado se aproxima do limite definido, recebe inicialmente um alerta sonoro. Caso continue avançando, o sistema pode emitir um leve estímulo elétrico.
Com o tempo, os animais aprendem a associar o som ao limite, reduzindo significativamente a necessidade de estímulo adicional.
Pesquisas conduzidas pela CSIRO indicam que o sistema pode ser aplicado com eficiência também em ambientes agrícolas dinâmicos, onde os limites precisam ser ajustados com frequência e a margem de erro é reduzida.
O estudo foi financiado pela Grains Research and Development Corporation, pela Australian Wool Innovation e pela CSIRO, com resultados publicados na revista científica Animal Production Science.
Os testes ocorreram em três propriedades comerciais no sul da Austrália — Long Plains, Heath e Pinnaroo — utilizando sistemas pré-comerciais do eShepherd, com suporte técnico da Gallagher.
Cada experimento envolveu entre 40 e 60 bovinos, submetidos a diferentes estratégias de manejo, como:
- Pastejo em áreas afetadas por geadas
- Controle direcionado de ervas daninhas após colheita de feno
- Pastoreio de curto prazo antes da maturação final da cultura
O objetivo central foi avaliar se os limites digitais poderiam ser modificados com frequência, inclusive em formatos complexos e com contornos irregulares, sem comprometer o controle do rebanho.
Os resultados demonstraram rápida adaptação dos animais. No ensaio com maior número de alterações nos limites digitais, 95% das interações com as fronteiras ocorreram apenas com resposta ao sinal sonoro, sem necessidade de estímulo elétrico.
O comportamento coletivo da manada também influenciou o aprendizado, uma vez que os animais passaram a reagir não apenas aos próprios alertas, mas também às movimentações do grupo.
Esses dados reforçam evidências anteriores de que o gado aprende progressivamente a respeitar limites virtuais, mesmo em cenários com alta complexidade operacional.
Diferentemente das cercas físicas, que exigem mão de obra, tempo e custo para alteração, os limites digitais puderam ser remodelados de forma frequente e estratégica durante os testes.
A tecnologia permitiu:
- Concentrar pressão de pastejo onde havia necessidade de controle de ervas daninhas
- Proteger áreas mais sensíveis ao sobrepastoreio
- Manter cobertura vegetal em elevações arenosas suscetíveis à erosão
- Utilizar produtivamente áreas danificadas por geadas sem comprometer o restante do talhão
Em sistemas convencionais, muitas vezes o pastejo é interrompido integralmente quando apenas parte da área se torna vulnerável. A cerca virtual demonstrou potencial para permitir manejo segmentado dentro do mesmo campo.
Os testes também evidenciaram desafios operacionais. Em uma das propriedades, a eficácia do confinamento foi temporariamente reduzida quando novilhas estavam no cio e havia touros em área vizinha, demonstrando que fatores sociais podem influenciar o comportamento animal.
Além disso, o manejo adequado de fontes de água mostrou-se fundamental para o pleno funcionamento dos limites dinâmicos.
Os pesquisadores destacam que a tecnologia deve ser encarada como ferramenta de gestão, e não como solução autônoma. O conhecimento sobre comportamento animal e condições agronômicas continua determinante para os resultados.
A adoção comercial das cercas virtuais avança na Austrália após mudanças regulatórias que passaram a permitir seu uso em estados como Austrália do Sul, Nova Gales do Sul e Victoria.
Até recentemente, a maior parte da aplicação prática estava concentrada em sistemas exclusivamente baseados em pastagens. A expansão para áreas agrícolas ativas representa um novo patamar de integração tecnológica.
Embora o estudo tenha focado em gado de corte, a tecnologia apresenta potencial de aplicação em sistemas com ovinos, espécie predominante em muitas regiões mistas australianas. Pesquisas paralelas indicam que o aprendizado de limites virtuais também pode ocorrer em rebanhos ovinos, desde que haja desenvolvimento tecnológico adequado para a espécie.
Os resultados apontam que cercas virtuais podem:
✔ Aumentar o controle sobre o pastoreio em áreas agrícolas
✔ Reduzir riscos de danos às culturas
✔ Melhorar o manejo da cobertura vegetal
✔ Otimizar o uso de áreas com variabilidade de solo
✔ Ampliar a flexibilidade operacional em sistemas mistos
Em um contexto de intensificação produtiva e redução de áreas exclusivamente destinadas a pastagens, a tecnologia surge como aliada estratégica da agricultura mista.
A experiência australiana indica que o futuro da integração lavoura-pecuária pode ser cada vez mais digital — com limites invisíveis, porém altamente controláveis — redefinindo o manejo do gado dentro das lavouras.
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