Tecnologia criada dentro das porteiras pantaneiras diminui prejuízos na pecuária e abre caminho para a convivência com a onça-pintada, símbolo do bioma
No Pantanal de Poconé (MT), onde a pecuária e a vida selvagem dividem o mesmo território há mais de 200 anos, um conflito histórico começa a ganhar novos contornos — e com resultado prático no bolso do produtor. Um projeto implantado em propriedades-modelo conseguiu reduzir em 83% a mortalidade de bezerros causada por ataques de onças-pintadas, criando uma alternativa concreta para diminuir perdas sem recorrer à retaliação contra os felinos.
A iniciativa é do Instituto Impacto, organização que atua diretamente no bioma e vem testando um modelo de proteção baseado em ciência e adaptação de infraestrutura rural: cercas elétricas ajustadas ao comportamento do animal, com foco em prevenir ataques sem ferir a onça.
As informações foram divulgadas em reportagem do portal g1, publicada em 14 de janeiro de 2026, dentro do projeto Terra da Gente, com entrevistas e relatos do coordenador do Instituto Impacto, Paul Raad, que vive e trabalha na região.
Um conflito antigo no bioma onde o agro manda no mapa
Antes de falar em solução, é preciso entender por que o problema é tão sensível no Pantanal.
Segundo o pesquisador e coordenador do Instituto Impacto, Paul Raad, cerca de 95% do Pantanal é área privada e aproximadamente 80% é destinada à produção rural, o que coloca o produtor como peça central — e vulnerável — nessa relação entre economia e conservação.
E é aí que mora o impasse: a onça não “ataca por maldade”, mas por oportunidade. E, para o produtor, cada animal perdido pode ser a diferença entre lucro e prejuízo.
“A onça é um animal oportunista. Quando ela preda o gado, gera um prejuízo econômico real. Sem alternativas, o produtor acaba eliminando a onça por retaliação. Ambos são vítimas da falta de ferramentas”, explicou Paul Raad em entrevista ao g1.
Essa realidade ajuda a entender por que, historicamente, a predação sobre o rebanho acabou se transformando em um dos maiores desafios para manter a onça-pintada protegida em áreas produtivas.
Onde a mudança começou: fazenda com tradição na pecuária virou área-modelo
O projeto começou a ganhar corpo na Pousada Piuval, uma propriedade localizada em Poconé (MT), com:
- 7 mil hectares
- 2,5 mil cabeças de gado
- gestão familiar que atravessa cinco gerações
Foi nesse território, segundo a reportagem, que a “trégua tecnológica” começou a ser construída, mostrando que o controle do prejuízo pode caminhar junto da preservação.
Como funciona a cerca elétrica “educativa” — e por que ela é diferente das comuns
Apesar de parecer simples à primeira vista, o sistema não é uma cerca elétrica convencional.
De acordo com o Instituto Impacto, o projeto foi desenhado pensando na biologia do felino: são três fios intercalados (positivos), começando a apenas 20 centímetros do chão, justamente para interceptar a forma como a onça se aproxima durante a caça.
Paul Raad detalhou em entrevista que, diferente do que muita gente imagina, a onça não costuma pular para caçar:
“A onça não costuma pular para caçar; ela se agacha e vem rastejando de forma furtiva. É aí que ela encontra o fio”, explicou.
Quando há contato com a estrutura, o animal recebe uma descarga de 6.000 volts. O número chama atenção, mas o sistema é estruturado para ser seguro, operando com:
- alta voltagem
- baixa amperagem
- choque em pulso rápido, de fração de segundo
O impacto é de dor imediata e susto, mas sem lesões físicas:
não provoca queimaduras e não causa danos ao animal, conforme descrito na reportagem.
E o ponto central do método está no propósito:
✅ o objetivo não é machucar
✅ é criar memória negativa associada ao gado
Ou seja: a cerca não é armadilha — é condicionamento.
O caso “Kaduzinho” e o achado raro: onças aprendem observando outras onças
O projeto também contribuiu para uma descoberta científica relevante sobre o comportamento do felino, a partir do monitoramento com armadilhas fotográficas.
Segundo o material, o Instituto Impacto produziu um artigo científico internacional intitulado “Interações sociais em onças-pintadas: isso promove o aprendizado?”, que apontou algo considerado incomum: aprendizado social.
As câmeras registraram Kaduzinho, um jovem macho, acompanhando a fêmea Baía e seus filhotes.
Quando Kaduzinho tentou se aproximar do curral protegido, recebeu o choque — mas o que veio depois surpreendeu os pesquisadores: as outras onças que estavam observando não precisaram levar o choque para entender o risco.
O grupo então desistiu do gado e, dias depois, passou a caçar presas naturais, como capivaras e guaxinins, registradas novamente pelas câmeras.
Paul Raad comemorou o resultado e explicou o efeito do sistema:
“Isso prova que a cerca não deixa a onça com fome. Ela funciona como uma ‘educadora’, redirecionando o predador para suas presas naturais”, afirmou.
Na prática, o recado é direto: o projeto não “elimina” a onça do território — apenas muda a escolha alimentar dela, reduzindo o risco de ataque ao gado.
A conta que fecha: custo de 2 bezerros e 23 animais salvos em uma temporada
No agro, o argumento decisivo quase sempre é o econômico — e o projeto faz questão de trabalhar com essa lógica.
Conforme afirmou Paul Raad na reportagem, a paixão pela natureza só se sustenta se a conta fechar no fim do mês, e foi justamente isso que o modelo testado provou.
Os números destacados são contundentes:
- o custo de instalação da cerca elétrica foi equivalente ao valor de dois bezerros
- em contrapartida, o sistema salvou cerca de 23 bezerros em uma única temporada
Para Raad, trata-se de uma virada de mentalidade dentro da porteira:
“O investimento se paga muito rápido. Foi a primeira vez que vi um produtor tirar dinheiro do próprio bolso para investir na convivência com a onça, em vez de combatê-la. Isso mostra uma mudança de mentalidade”, relatou.
Coexistência no Pantanal: por que o pequeno produtor é o mais vulnerável aos ataques de onça
O Instituto Impacto agora busca expandir a tecnologia e ampliar o alcance do projeto, com participação de veterinários e pantaneiros locais, incluindo produtores na diretoria — como Breno Dorileu.
Também aparece no material o PIP Coexistência (Programa Integrado Pantanal), com foco no pequeno produtor ribeirinho, além do apoio de instituições como WWF Brasil e a ZAA (Associação de Zoológicos da América) no financiamento da iniciativa.
O motivo para priorizar quem é pequeno é simples: proporcionalmente, a perda pesa muito mais.
“Para quem tem 5 bezerros, perder um para a onça é uma tragédia de 20% do patrimônio. Proteger o pequeno é fundamental para evitar a caça da onça”, disse Paul Raad, em entrevista ao g1.
Um Pantanal onde cerca não divide, mas protege os dois lados
A visão de longo prazo do Instituto Impacto é clara: o futuro precisa ser de convivência, e não de guerra permanente entre pecuária e conservação.
Segundo Paul Raad, a expectativa é que, nos próximos anos, o Pantanal caminhe para um modelo em que cercas e tecnologia deixem de simbolizar separação e passem a unir interesses — garantindo renda ao produtor e sobrevivência à fauna.
E a frase final resume o espírito do projeto:
“Nosso sonho é que a onça deixe de ser vista como inimiga e passe a ser entendida como parte da fazenda. Uma onça viva precisa valer mais do que uma morta”, concluiu.
No ritmo das águas pantaneiras, a tecnologia que antes era vista apenas como ferramenta de produção passa a ganhar outro papel: um caminho real para reduzir perdas, preservar o bioma e evitar que um prejuízo no curral vire sentença de morte na mata.
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