Pesquisadores alertam que o uso frequente de produtos químicos está acelerando a resistência do carrapato bovino; integração entre genômica, testes laboratoriais e manejo estratégico surge como principal caminho para conter prejuízos no campo
O avanço da resistência a carrapaticidas acendeu um alerta na pecuária brasileira e voltou ao centro dos debates científicos nesta semana. Durante a 55ª reunião da Sociedade Brasileira de Bioquímica e Biologia Molecular (SBBq), realizada em Águas de Lindóia (SP), pesquisadores destacaram que o uso frequente e inadequado de produtos químicos vem tornando o controle do carrapato bovino cada vez mais difícil, aumentando os riscos sanitários e os prejuízos econômicos nas fazendas.
O tema foi apresentado pelo pesquisador Guilherme M. Klafke, do Centro Estadual de Diagnóstico e Pesquisa em Saúde Animal Desidério Finamor (IPVDF), ligado à Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi). Segundo ele, embora os avanços da biologia molecular estejam permitindo identificar mecanismos genéticos ligados à resistência, ainda existem desafios importantes para transformar essas descobertas em diagnósticos rápidos e eficientes aplicáveis no campo.
O carrapato bovino (Rhipicephalus microplus) é considerado um dos principais parasitos da pecuária em regiões tropicais e subtropicais. Além de causar perda de desempenho nos animais, redução de ganho de peso e prejuízos produtivos, o parasita também está associado à transmissão da tristeza parasitária bovina, doença que pode gerar sérios impactos sanitários nos rebanhos.
De acordo com Klafke, o maior problema é que o controle da praga ainda depende fortemente do uso de carrapaticidas químicos. Esse cenário favorece a seleção natural de populações resistentes, reduzindo gradativamente a eficiência dos produtos utilizados nas propriedades rurais.
Durante a apresentação, o pesquisador explicou que a resistência não pode ser vista de forma simples, mas sim como um fenômeno evolutivo e multifatorial. Mesmo com a identificação de mutações genéticas associadas à resistência, diferentes populações de carrapatos podem apresentar alterações distintas dependendo da região e da pressão de seleção sofrida ao longo do tempo.
Na prática, isso significa que um único marcador molecular pode não ser suficiente para explicar o comportamento de resistência encontrado nas fazendas brasileiras.
Segundo os especialistas, as ferramentas moleculares representam um avanço importante para compreender como a resistência surge, se espalha e permanece nas populações de carrapatos. No entanto, os testes laboratoriais tradicionais ainda continuam sendo fundamentais para orientar o uso racional dos carrapaticidas.
“O diagnóstico laboratorial continua sendo essencial para orientar o uso racional dos carrapaticidas”, destacou Klafke durante o evento. O pesquisador também reforçou que a integração entre vigilância genômica, bioensaios laboratoriais e dados obtidos no campo é hoje o caminho mais promissor para fortalecer o controle do carrapato bovino.
O IPVDF, órgão ligado à Seapi, mantém uma longa atuação no diagnóstico da resistência a carrapaticidas e no suporte técnico a veterinários, produtores e ao serviço veterinário oficial. Atualmente, o centro desenvolve estudos voltados ao aprimoramento dos métodos laboratoriais, vigilância da resistência e aplicação de novas abordagens genômicas em parceria com instituições nacionais e internacionais.
Outro ponto destacado é que o controle sustentável do carrapato não depende apenas da troca de produtos químicos. Especialistas defendem estratégias integradas de manejo, incluindo rotação adequada de princípios ativos, monitoramento constante da eficiência dos tratamentos, controle estratégico do parasita e acompanhamento técnico especializado.
A preocupação cresce justamente porque a resistência a carrapaticidas vem sendo observada em diferentes regiões produtoras do Brasil, afetando diretamente a produtividade da pecuária de corte e leite. Em muitos casos, produtores relatam redução significativa da eficácia de produtos antes considerados altamente eficientes, elevando custos operacionais e dificultando o manejo sanitário do rebanho.
Com isso, a ciência busca acelerar o desenvolvimento de métodos mais modernos e precisos para diagnosticar precocemente a resistência e auxiliar os pecuaristas na tomada de decisão. A expectativa é que a combinação entre biologia molecular, genômica e análises laboratoriais tradicionais permita construir estratégias mais sustentáveis e eficientes para o combate ao carrapato bovino nos próximos anos.
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