Carne bovina brasileira fora da cota chinesa pode encontrar novos destinos e abrir mercado bilionário

Estudo aponta sete países com potencial para absorver excedente das exportações após restrições da China, enquanto nações árabes ampliam compras e reforçam oportunidades estratégicas para o Brasil.

A imposição de limites à carne bovina brasileira pelo principal comprador global, a China, pode redesenhar o mapa das exportações do país — mas também abrir novas e relevantes frentes comerciais. Um estudo da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira (CCAB), finalizado em 2026, indica que sete países do mundo árabe despontam como os mais aptos a absorver o volume excedente da proteína, reduzindo riscos para a indústria frigorífica e ampliando a diversificação de mercados.

O movimento ocorre em um contexto de crescimento acelerado das importações na região. Entre 2022 e 2024, os 22 países da Liga Árabe elevaram suas compras de carne bovina em 62%, saltando de 766 mil toneladas para 1,24 milhão, enquanto o valor movimentado avançou 18%, passando de US$ 4,4 bilhões para US$ 5,2 bilhões.

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Esse cenário reforça uma tendência estratégica: quanto maior a dependência brasileira de um único comprador, maior o impacto de medidas protecionistas — e, por consequência, maior a necessidade de novos parceiros comerciais.

Sete mercados com potencial imediato

Segundo o levantamento, Egito, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita lideram o consumo e a logística regional, respondendo juntos por 63,7% das aquisições analisadas.

Além deles, Argélia, Iraque, Jordânia e Omã registraram salto médio de 672% nas compras, sinalizando abertura de novos canais comerciais ou mudanças nas políticas de abastecimento alimentar.

No total, esses sete países concentram aproximadamente 276 milhões de habitantes, fator que amplia o potencial de demanda e os torna candidatos naturais a receber o excedente que ultrapassar a cota chinesa de 1,1 milhão de toneladas.

Quem compra mais — e quem paga melhor

O estudo também detalha o perfil de cada mercado:

  • Egito: maior volume individual, com 335,2 mil toneladas importadas em 2024, apesar de queda de 19% no valor desde 2022, reflexo da busca por proteínas mais baratas.
  • Emirados Árabes Unidos: mercado que melhor remunera, somando US$ 1,14 bilhão em compras e 253 mil toneladas — alta de 25% no período.
  • Arábia Saudita: terceira posição, com US$ 981 milhões e volume de 202 mil toneladas.

Para o Brasil, os dados confirmam uma realidade cada vez mais clara no comércio internacional: nem sempre o maior comprador é o mais rentável — e a estratégia precisa equilibrar volume e valor agregado.

Brasil já é protagonista — mas pode crescer

Entre 2022 e 2024, o país ficou em segundo lugar entre os fornecedores da região, com 28,4% de participação, atrás apenas da Índia (34%) e bem à frente do Paquistão (8,2%).

Em 2025, a indústria brasileira faturou *US$ 1,79 bilhão com vendas ao bloco árabe, avanço de 1,91% frente ao ano anterior. As nações da região responderam por cerca de *10% da receita dos frigoríficos exportadores.

As projeções indicam espaço para expansão: o Brasil pode elevar as exportações em mais de US$ 1 bilhão no médio prazo, impulsionado pelo crescimento populacional e econômico desses países.

Perfil das exportações favorece competitividade

A pauta brasileira para o mundo árabe é concentrada em produtos de maior valor, com destaque para:

  • carne bovina congelada e desossada — cerca de 70% do valor total exportado;
  • carne fresca ou refrigerada desossada;
  • miúdos, com crescimento expressivo da língua (388%) e do fígado (104%).

Além disso, parte relevante dos mercados possui baixas tarifas de importação, o que aumenta a competitividade brasileira. A Líbia, por exemplo, não cobra tarifas, enquanto países do Conselho de Cooperação do Golfo aplicam taxas entre 0% e 6%.

Ainda assim, barreiras persistem em alguns destinos — como Marrocos, com tarifa de 200% para carne refrigerada — evidenciando a importância de acordos comerciais e avanços sanitários para ampliar o acesso.

O efeito China: risco bilionário e corrida por mercados

A decisão chinesa de limitar as compras a 1,1 milhão de toneladas entre janeiro de 2026 e dezembro de 2028, aplicando tarifa de 55% sobre o excedente, pode tornar os embarques adicionais inviáveis.

Para dimensionar o impacto:

  • em 2025, a China adquiriu 1,648 milhão de toneladas, gerando US$ 8,844 bilhões;
  • as restrições podem provocar prejuízo estimado em US$ 2,94 bilhões aos frigoríficos brasileiros.

Curiosamente, o efeito imediato foi o aumento das vendas externas: em janeiro deste ano, os embarques cresceram 42,5% na comparação anual, com grande parte direcionada ao mercado chinês — movimento associado à antecipação das compras antes do esgotamento da cota.

Redirecionar é possível — mas não imediato

Especialistas avaliam que o bloco árabe não deve absorver rapidamente todo o excedente, mas países como Egito e Emirados tendem a ganhar protagonismo crescente nas exportações brasileiras.

Um fator positivo é que os frigoríficos brasileiros já operam com linhas adaptadas às exigências halal, além de contarem com número relevante de certificadoras — o que reduz barreiras técnicas e acelera negociações.

Uma mudança estrutural no comércio da carne?

O avanço das nações árabes sugere mais do que uma solução emergencial para a limitação chinesa. Na prática, indica um caminho estratégico para o Brasil:

diversificar destinos, reduzir dependência de grandes compradores e fortalecer mercados com crescimento populacional e econômico.

Se bem aproveitado, o cenário pode transformar um risco bilionário em oportunidade — e consolidar o país como fornecedor global ainda mais resiliente.

Fonte: Compre Rural, com informações do estudo da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira (CCAB)

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ℹ️ Conteúdo publicado por Myllena Seifarth sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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