Popularização de medicamentos à base de GLP-1 reduz consumo de produtos açucarados, derruba contratos futuros em Nova York e pressiona usinas brasileiras a rever estratégias entre açúcar, etanol e contratos de longo prazo.
A indústria sucroalcooleira brasileira entrou em 2026 diante de um cenário que poucos analistas projetavam há dois anos. Além de lidar com custos operacionais elevados, impactos climáticos severos e volatilidade cambial, o setor agora enfrenta uma nova variável estrutural no mercado internacional: a mudança no comportamento alimentar do consumidor norte-americano impulsionada pelas chamadas “canetas emagrecedoras”.
Medicamentos à base de GLP-1, como Ozempic, Mounjaro e Wegovy, originalmente desenvolvidos para o tratamento do diabetes tipo 2, passaram a ser amplamente utilizados para controle de peso. O efeito colateral mais relevante para o agronegócio global é a redução do apetite — especialmente por alimentos ultraprocessados e ricos em açúcar.
A tese ganhou força a partir de análises divulgadas por tradings norte-americanas de açúcar, como a Czarnikow, que apontam para uma queda consistente na demanda por açúcar nos Estados Unidos. O reflexo já aparece nos preços internacionais: em fevereiro de 2026, os contratos futuros de açúcar bruto negociados em Nova York recuaram para menos de 14 centavos de dólar por libra-peso, o menor patamar desde outubro de 2020 — e menos da metade dos picos registrados no fim de 2023.
O movimento deixou de ser apenas percepção de mercado e passou a constar em projeções oficiais. Em relatório de perspectivas de oferta e demanda divulgado em dezembro, o USDA reduziu drasticamente suas estimativas de consumo de açúcar nos Estados Unidos para 2026, com corte de 65% em relação às previsões anteriores.
O dado reforça que a mudança não se trata de um ajuste pontual, mas de uma transformação estrutural nos hábitos de consumo, especialmente em economias desenvolvidas, onde a adoção dos medicamentos GLP-1 cresce em ritmo acelerado.
Para o Brasil, responsável por cerca de 23% da produção mundial de açúcar, o impacto é direto. Os Estados Unidos figuram entre os principais compradores do produto brasileiro, e qualquer retração consistente na demanda pressiona contratos, margens e planejamento de safra.
Além da influência dos medicamentos, analistas observam que o cenário de preços também é afetado por uma recuperação da produção global estimada em aproximadamente 5% em relação ao ano anterior, ampliando a oferta no mercado internacional. Soma-se a isso uma tendência global de redução no consumo de açúcar por questões de saúde pública.
Diferentemente de outros grandes produtores globais, o Brasil possui uma vantagem estrutural relevante: a flexibilidade industrial das usinas. A cana-de-açúcar pode ser direcionada tanto para a produção de açúcar quanto para a fabricação de etanol.
Especialistas do setor jurídico avaliam que, diante de um mercado internacional menos atrativo para o açúcar, as usinas brasileiras podem redirecionar maior volume de cana para o etanol, especialmente quando o ambiente doméstico apresentar condições favoráveis.
Entre os fatores determinantes estão o preço da gasolina, a política de combustíveis, o comportamento do consumo interno e os créditos de descarbonização (CBios). Ou seja, a migração não depende apenas da dinâmica internacional, mas também de variáveis regulatórias e econômicas internas.
Essa flexibilidade pode aliviar a pressão no curto prazo e proteger parte da rentabilidade das usinas. No entanto, o movimento não está isento de riscos.
A ampliação da produção de etanol como alternativa ao açúcar pode gerar um efeito colateral indesejado. Caso um número significativo de usinas migre simultaneamente para o combustível, o aumento da oferta tende a pressionar os preços para baixo.
Especialistas do setor avaliam que, em um cenário de queda acentuada no açúcar, a utilização intensiva das estruturas industriais para etanol pode ampliar o volume disponível no mercado interno e reduzir a margem do combustível.
No momento, o preço do etanol segue considerado estável e competitivo. Porém, a sustentabilidade dessa condição dependerá do equilíbrio entre oferta, demanda e política energética. Assim, a estratégia funciona como amortecedor conjuntural, mas não resolve estruturalmente o problema da retração global no consumo de açúcar.
Além das variáveis econômicas, o novo cenário impõe desafios jurídicos relevantes. A volatilidade dos preços pode afetar contratos de fornecimento de longo prazo, operações de exportação, instrumentos de hedge e financiamentos atrelados à performance operacional das usinas.
Em situações de forte desequilíbrio econômico-financeiro, podem ser acionadas cláusulas de hardship — dispositivos que obrigam as partes a renegociar termos contratuais diante de eventos extraordinários e imprevisíveis que tornem a execução excessivamente onerosa.
Dependendo da redação contratual e da legislação aplicável, também podem surgir discussões envolvendo força maior ou revisão por onerosidade excessiva. O risco não se limita ao comércio internacional, alcançando operações estruturadas com bancos, debêntures e financiamentos vinculados a metas de produção e receita.
Incertezas
O ambiente de incerteza já começa a influenciar novas negociações. A tendência é que contratos futuros passem a incorporar mecanismos de proteção mais sofisticados.
Entre os instrumentos considerados estão cláusulas de ajuste automático de preço, earn-outs vinculados a indicadores de mercado, flexibilização de volumes mínimos contratados e revisão de covenants financeiros — cláusulas que impõem obrigações e métricas às empresas em operações de crédito.
Na prática, o avanço dos medicamentos GLP-1 deixa de ser apenas uma questão de saúde pública ou comportamento alimentar e passa a integrar a matriz de riscos estratégicos do setor sucroenergético.
O ponto central é que a redução da demanda por açúcar pode não ser temporária. Caso a adoção de medicamentos à base de GLP-1 continue avançando, especialmente nos Estados Unidos e em outras economias desenvolvidas, o setor poderá enfrentar impactos de longo prazo na formação de preços, na alocação industrial e na modelagem contratual.
A combinação entre menor consumo, recuperação da produção global e reorganização dos fluxos comerciais cria um novo ambiente competitivo. Para o Brasil, potência mundial na cadeia da cana, a capacidade de adaptação — produtiva, comercial e jurídica — será determinante para atravessar essa fase de transição.
Em um mercado global cada vez mais sensível a mudanças comportamentais e tecnológicas, o açúcar brasileiro agora disputa espaço não apenas com outros países produtores, mas com uma transformação silenciosa na mesa do consumidor.
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