Café lidera alta de alimentos – mais de 40% – no Brasil e pressiona o consumidor, aponta Neogrid

Mesmo com safra maior, redução na oferta de arábica e fatores climáticos sustentaram a escalada dos preços; especialistas projetam inflação mais moderada em 2026, mas ainda sensível ao cenário global

O tradicional café diário do brasileiro se tornou um dos principais vilões do orçamento doméstico ao longo do último ano. Mesmo em um cenário de produção elevada, o produto registrou uma disparada de preços e liderou a inflação entre os alimentos, evidenciando como variáveis climáticas, oferta restrita e custos elevados continuam influenciando diretamente o bolso do consumidor.

Levantamento do estudo “Variações de Preços: Brasil & Regiões”, da Neogrid, aponta que o café em pó e em grãos ficou 40,7% mais caro entre dezembro de 2024 e dezembro de 2025, com o preço médio saltando de R$ 53,58 para R$ 76,36 no período. O resultado reforça um cenário de pressão inflacionária persistente na alimentação — um dos grupos com maior impacto no custo de vida das famílias brasileiras.

Produção maior não impediu disparada

O avanço dos preços chama atenção justamente porque ocorreu em um contexto de crescimento da produção nacional. Segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a safra brasileira foi estimada em 56,5 milhões de sacas, alta de 4,3% em relação a 2024.

Ainda assim, um fator específico desequilibrou o mercado: a queda na produção do café arábica — variedade mais consumida no país.

A colheita recuou 9,7%, impactada por baixa produtividade e condições climáticas adversas, reduzindo a oferta e provocando reflexos em todas as categorias do produto.

Na prática, o mercado enfrentou uma combinação clássica de pressão: oferta menor do tipo preferido pelo consumidor e demanda aquecida.

Alta não ficou restrita ao café

Embora o café tenha liderado o ranking de aumentos, outros itens importantes da cesta também ficaram mais caros ao longo de 2025. Entre os principais destaques estão:

  • Queijos: alta de 12,4%
  • Margarina: aumento de 12,1%
  • Creme dental: +11,7%
  • Cerveja: +6,2%

O movimento indica que a inflação foi relativamente disseminada, ainda que com intensidades diferentes entre os produtos.

Alívio pontual no fim do ano

Apesar do cenário de alta acumulada, dezembro trouxe uma desaceleração em alguns itens básicos, ajudando a conter a inflação de alimentos no curto prazo.

Entre as quedas registradas:

  • Leite UHT: -5,3%
  • Ovos: -3,6%
  • Arroz: -2,2%

Mesmo assim, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) avançou 0,33% na comparação com novembro, sinalizando a permanência de um ambiente inflacionário — ainda que heterogêneo entre categorias.

Carnes e custos elevados reforçaram pressão

Para Anna Carolina Fercher, líder de Dados Estratégicos da Neogrid, o comportamento dos preços ao longo do ano ajuda a entender o cenário atual.

Segundo a especialista, categorias estratégicas como café e carnes sofreram pressões relevantes, impulsionadas por custos elevados, oferta mais restrita e forte demanda externa — fatores que atingem diretamente o orçamento das famílias.

No fechamento de dezembro, por exemplo, alguns produtos ainda subiram:

  • Sabão para roupa: +2,4%
  • Carne bovina: +2,3%
  • Carne suína: +2,2%

Sudeste sente avanço dos legumes

O estudo também aponta diferenças regionais importantes. No Sudeste, os legumes lideraram as altas em dezembro, com avanço de 3,5%, seguidos por creme dental (2,2%) e carne bovina (1,7%).

Por outro lado, houve quedas relevantes em produtos como leite UHT (-7,6%) e ovos (-4,6%), mostrando que a inflação alimentar não ocorre de forma uniforme.

O que esperar dos preços em 2026?

A perspectiva para este ano é de um comportamento menos volátil, mas ainda cercado de incertezas.

A expectativa é de oscilações mais moderadas nos alimentos, com mercadorias básicas tendendo à estabilidade. Porém, itens sensíveis ao câmbio e ao cenário internacional devem continuar pressionados — especialmente diante de riscos climáticos e macroeconômicos.

A escalada do café — um dos produtos mais simbólicos do consumo brasileiro — revela um ponto crucial: mesmo com liderança global na produção agrícola, o país não está imune às variáveis que moldam o mercado de alimentos.

Clima, produtividade, demanda externa e custos logísticos seguem determinando preços e exigindo atenção tanto do consumidor quanto de toda a cadeia do agronegócio.

Se por um lado o Brasil mantém protagonismo na oferta mundial, por outro o comportamento recente reforça uma lição conhecida no setor: produção elevada nem sempre significa preços mais baixos, especialmente quando há desequilíbrios na qualidade da safra ou na disponibilidade das variedades mais demandadas.

E, ao que tudo indica, o cafezinho — hábito quase cultural — continuará sendo também um termômetro importante da inflação nos próximos meses.

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