Brasil e China anunciam fábrica de tratores para agricultura familiar com apoio do MST; veja onde

Projeto que conta com parceria entre Brasil e China, com apoio do MST, prevê investimento de R$ 200 milhões, produção de até 5 mil máquinas por ano e geração de empregos em Maricá (RJ), com foco na mecanização de pequenos produtores

A cooperação entre Brasil e China para fortalecer a mecanização da agricultura familiar ganhou um novo capítulo. Após ser anunciada pelo Compre Rural no ano passado, foi confirmada a instalação da primeira fábrica de máquinas agrícolas do país voltada exclusivamente para agricultores familiares, resultado de um acordo firmado em Pequim entre empresas brasileiras e chinesas, com participação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e da prefeitura de Maricá, no Rio de Janeiro.

O projeto envolve a gigante chinesa Sinomach, uma das principais fabricantes de máquinas do mundo, e a empresa brasileira de ciência e tecnologia OZ Earth. A unidade industrial será instalada no distrito de Ponta Negra, em Maricá, com investimento estimado em R$ 200 milhões e potencial para gerar até 500 empregos indiretos.

A iniciativa tem como objetivo ampliar o acesso de pequenos produtores rurais à mecanização agrícola, um dos principais gargalos produtivos da agricultura familiar brasileira.

Projeto nasce de cooperação internacional e articulação política

A construção da fábrica foi formalizada após a assinatura de três contratos principais em Pequim, consolidando a parceria tecnológica entre os dois países. O arranjo envolve uma combinação considerada inédita por seus articuladores, reunindo empresas privadas, poder público e organizações populares organizadas em cooperativas.

A ideia de implantar a fábrica de tratores já vinha sendo discutida desde novembro de 2025, quando uma delegação chinesa participou de encontros em Maricá para estruturar a cooperação tecnológica. Na ocasião, lideranças ligadas ao projeto classificaram a iniciativa como um passo importante para a industrialização do campo brasileiro.

Segundo Cedenir de Oliveira, dirigente do setor de produção do MST, o acordo representa um avanço que vai além da simples aquisição de máquinas. “Hoje é um dia histórico para a luta camponesa brasileira. A nossa luta não é apenas pela terra, mas por um projeto de desenvolvimento para o país, que passa também pela industrialização”, afirmou o dirigente.

Fábrica produzirá tratores adaptados à agricultura familiar, com foco no MST

A unidade industrial terá capacidade para fabricar até 5 mil tratores por ano, voltados especificamente às necessidades de pequenas propriedades rurais. Os equipamentos serão produzidos em duas faixas de potência: 25 e 50 cavalos, consideradas adequadas para atividades de pequena escala.

A prioridade de distribuição será para cooperativas, associações de produtores e projetos ligados à reforma agrária, além de agricultores familiares organizados. A expectativa é que os equipamentos possam ser adquiridos por meio de políticas públicas de financiamento, como o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) e programas governamentais de compras institucionais.

Especialistas envolvidos no projeto destacam que a agricultura familiar brasileira ainda possui baixo nível de mecanização, resultado de décadas em que o desenvolvimento tecnológico agrícola foi direcionado principalmente ao agronegócio de larga escala.

Produção começará com peças importadas e montagem no Brasil

Na fase inicial, a fábrica utilizará o sistema SKD (Semi Complete Knockdown), um modelo industrial no qual os equipamentos são exportados parcialmente desmontados para montagem no país de destino.

Nesse formato, os tratores chegarão ao Brasil em módulos e conjuntos prontos, sendo montados na unidade de Maricá. O objetivo dessa estratégia é acelerar o início da produção enquanto se desenvolve a cadeia nacional de fornecedores.

O plano prevê que, ao longo dos primeiros anos, a produção avance para um modelo mais nacionalizado.

A meta é alcançar cerca de 60% de conteúdo nacional, requisito exigido pela legislação brasileira para acesso a incentivos fiscais e linhas de financiamento específicas.

Segundo o advogado Samuel Asafe, que participou das negociações, a nacionalização das peças é uma etapa estratégica para consolidar a industrialização do projeto no Brasil.

MST ganha cooperação tecnológica e inovação no campo

Além da produção de máquinas, o acordo prevê cooperação tecnológica entre Brasil e China, com possibilidade de integrar os equipamentos a plataformas digitais voltadas à agricultura.

A ideia é desenvolver máquinas adaptadas às condições da agricultura familiar, incluindo sistemas que possam se conectar a ferramentas digitais de gestão agrícola e tecnologias inteligentes de produção.

A gestora Maria Gomes, ligada ao projeto industrial, destaca que o objetivo não é apenas importar equipamentos, mas criar uma base tecnológica nacional voltada ao pequeno produtor.

“A mecanização não é a máquina como fim, mas como meio para desenvolver o campo, fortalecer a produção de alimentos e ampliar a autonomia tecnológica”, afirmou.

Impactos esperados no campo e na economia local

Os responsáveis pela iniciativa afirmam que o projeto poderá gerar uma série de impactos econômicos e sociais.

Entre os principais efeitos esperados estão:

  • redução da penosidade do trabalho rural, especialmente em pequenas propriedades
  • aumento da produtividade da agricultura familiar
  • geração de empregos na indústria local
  • maior permanência de jovens no campo
  • ampliação da participação das mulheres nas atividades agrícolas

A instalação da fábrica de tratores também pode transformar Maricá em um novo polo industrial ligado à mecanização agrícola, fortalecendo cadeias produtivas associadas à agricultura familiar e à indústria de máquinas no país.

Agricultura familiar no centro da produção de alimentos

A agricultura familiar é responsável por uma parcela significativa da produção de alimentos consumidos no Brasil, incluindo itens básicos da dieta nacional como feijão, mandioca, hortaliças, leite e parte da produção de carnes.

Apesar disso, o setor enfrenta desafios estruturais, como acesso limitado a máquinas, crédito e tecnologias adaptadas às pequenas propriedades.

Nesse contexto, a criação de uma fábrica dedicada exclusivamente ao desenvolvimento de equipamentos para esse público pode representar uma mudança estratégica na política de mecanização agrícola no país, ampliando a competitividade e a sustentabilidade da produção familiar.

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