Escassez de animais prontos, exportações aquecidas e escalas curtas dos frigoríficos reforçam o poder de negociação do produtor e sustentam expectativa de preços ainda mais elevados no mercado do boi gordo nas próximas semanas
O mercado do boi gordo encerrou janeiro com um cenário que chama a atenção de toda a cadeia pecuária: preços em trajetória de alta, oferta restrita e demanda firme, tanto no mercado interno quanto nas exportações. Esse conjunto de fatores tem levado produtores a adotar uma postura mais estratégica nas negociações — e, em muitas regiões, já se fala abertamente na possibilidade de a arroba atingir R$ 350 ainda em fevereiro.
A valorização não é pontual. Trata-se de um movimento sustentado por fundamentos considerados sólidos por analistas do setor, indicando um início de ano favorável ao pecuarista e potencialmente desafiador para as indústrias frigoríficas.
Mercado físico mantém ritmo de alta na cotação do boi gordo
O mercado físico do boi gordo fechou a última semana com continuidade do movimento de valorização. Segundo análise da Safras & Mercado, os principais estados produtores registraram patamares mais elevados, com destaque para São Paulo, onde já ocorreram negócios esporádicos próximos de R$ 340/@ na modalidade a prazo.
Mesmo com a arroba mais cara, não há sinais consistentes de alongamento nas escalas de abate — um indicador clássico de oferta limitada. A restrição de animais prontos segue como vetor central da alta, mantendo a expectativa de continuidade desse movimento.
Outro fator relevante é o desempenho das exportações. Os preços médios pagos pela carne bovina brasileira avançaram nas negociações recentes, ajudando a sustentar o mercado doméstico.
Média recente da arroba no país
- São Paulo: R$ 332,58
- Goiás: R$ 316,07
- Minas Gerais: R$ 319,12
- Mato Grosso do Sul: R$ 316,93
- Mato Grosso: R$ 310,07
Os números reforçam que a valorização no mercado do boi gordo é generalizada, ainda que com intensidades diferentes entre as praças.
Pecuarista ganha força na “queda de braço”
Janeiro terminou com o mercado sustentado pela escassez de animais terminados e pelas escalas curtas dos frigoríficos, cenário que fortalece a posição do produtor nas negociações. Na praça paulista, a arroba chegou a R$ 330, consolidando um ambiente de preços firmes.
Analistas destacam ainda que a dificuldade das indústrias em alongar as escalas — que atendem, em média, apenas seis dias — somada à retenção estratégica do gado nas fazendas, favorecida pelas boas condições das pastagens, é hoje o principal pilar de sustentação do mercado.
Na prática, isso significa menor pressão de venda e maior capacidade do pecuarista de esperar por preços melhores.
“Na queda de braços das negociações, os pecuaristas estão levando vantagem no momento”, avalia o analista Pedro Gonçalves.
A expectativa para fevereiro, ao menos no curtíssimo prazo, permanece positiva.
Exportações recordes reforçam o viés altista
O avanço das cotações ocorre em sintonia com o forte ritmo das vendas externas. Em apenas 16 dias úteis de janeiro, o Brasil embarcou 183,8 mil toneladas de carne bovina, com média de 11,5 mil toneladas diárias — 40,1% acima do registrado no mesmo período de 2025.
O faturamento já superava US$ 1 bilhão, com a tonelada negociada perto de US$ 5,5 mil.
Dados oficiais também apontam que as exportações renderam US$ 1,024 bilhão, com preço médio de US$ 5.576,80 por tonelada, registrando alta de 55,4% no valor médio diário e avanço de 10,9% no preço médio frente a janeiro do ano anterior.
Para o setor, esses números funcionam como um verdadeiro “colchão” para as cotações internas.
China, EUA e o efeito das cotas
Mesmo com o início das salvaguardas chinesas — que limitam as exportações a 1,1 milhão de toneladas, com tarifa de 55% para volumes excedentes — o mercado absorveu as mudanças e se recuperou ao longo do mês.
A avaliação de especialistas é que houve um efeito rebote nas compras chinesas, motivado pelo receio de preços mais altos no futuro. Os Estados Unidos também seguem ativos nas aquisições, ainda que a cota com tarifa reduzida já esteja praticamente preenchida.
Oferta controlada deve manter preços firmes
Do lado da produção, as chuvas de janeiro ajudaram o pecuarista a segurar o gado no pasto, reduzindo a pressão de venda.
Além disso, houve desaceleração no abate de fêmeas, estimulada pelos altos preços do bezerro — um movimento típico de retenção para a estação de monta e que impacta diretamente a disponibilidade futura de animais.
A combinação desses fatores aponta para um mês de fevereiro com preços “bastante firmes”, segundo analistas da Scot Consultoria.
Consumo interno também entra na equação
A primeira quinzena do mês costuma trazer reforço na demanda doméstica com a entrada dos salários, enquanto o Carnaval tende a elevar o consumo de proteína. Com estoques baixos nas indústrias, há dificuldade para formar reservas capazes de atender esse aumento de consumo — outro elemento que favorece a valorização da arroba.
No atacado, os preços seguem firmes mesmo em um período tradicionalmente mais fraco para o consumo, justamente por causa do baixo nível de estoques.
O dólar e as margens da indústria
Apesar do cenário positivo, há pontos de atenção. O dólar próximo de R$ 5,15 a R$ 5,20 pode pressionar as margens das indústrias frigoríficas. Ainda assim, projeções indicam a arroba ao redor de R$ 330 pelo menos até o fim da primeira quinzena de fevereiro, mantendo o viés altista.
Arroba a R$ 350 é possível?
Embora não seja consenso imediato, o ambiente atual cria espaço para novas máximas. O mercado segue amparado por oferta enxuta e demanda consistente, condição que deve prevalecer enquanto esses fundamentos permanecerem.
Para muitos produtores, o momento é de cautela e estratégia: vender aos poucos, travar preços quando possível e acompanhar de perto o comportamento das exportações.
Se o ritmo atual continuar — com frigoríficos disputando boiadas e exportações em alta — a barreira dos R$ 350/@ deixa de ser apenas um desejo do campo e passa a figurar como uma possibilidade real no radar do mercado.
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