Escassez de oferta, exportações recordes e poder de barganha do pecuarista impulsionam a arroba do boi gordo; decisão do governo sobre cota chinesa pode mudar o ritmo no próximo mês
O mercado do boi gordo encerrou fevereiro com uma das maiores valorizações nominais dos últimos anos, consolidando um movimento de alta que surpreendeu parte da indústria frigorífica e reforçou o protagonismo do pecuarista nas negociações. Em algumas praças, a arroba acumulou ganhos superiores a R$ 22/@ ao longo do mês, sustentada por oferta restrita, exportações aquecidas e escalas de abate curtas.
A pergunta que agora movimenta o setor é direta: março manterá o fôlego ou veremos uma acomodação dos preços?
Fevereiro de forte valorização
Em São Paulo, principal referência do País, o boi gordo terminou fevereiro negociado entre R$ 350/@ e R$ 355/@, patamar que não era observado desde novembro de 2024. Segundo levantamento da Scot Consultoria, o mês acumulou alta de 7,4% para o boi gordo e 7,6% para o “boi-China”, além de ganhos relevantes também para vaca e novilha.
Em outras praças importantes, o avanço foi expressivo:
- São Paulo: de R$ 332 para R$ 354 (+6,6%)
- Goiás: de R$ 316 para R$ 333 (+5,3%)
- Minas Gerais: de R$ 318 para R$ 338 (+6,3%)
- Mato Grosso: de R$ 310 para R$ 330 (+6,4%)
Além disso, indicadores diários mostraram São Paulo chegando a R$ 356,17/@ no encerramento do mês. Para efeito histórico, fevereiro registrou a maior variação nominal em relação a janeiro desde 1999, segundo análise da Scot.
Oferta curta sustenta o mercado
O principal vetor da alta foi a restrição de oferta. As escalas de abate permaneceram apertadas, variando entre cinco e seis dias úteis na média nacional.
Dados sob inspeção federal indicaram:
- Queda de 11,3% nos abates em janeiro/26 na comparação anual
- Na parcial de fevereiro (até 25/2), 1,6 milhão de cabeças abatidas, volume 31,7% inferior ao mesmo período de 2025
Outro fator importante foi a menor participação de fêmeas nas câmaras frias, estimulada pelos preços elevados do bezerro.
Com pastagens favorecidas pelas chuvas no Centro-Norte, o pecuarista ganhou poder de barganha. Boas condições de pasto permitiram cadenciar vendas e negociar lotes menores, reduzindo a pressão de oferta.
Exportações recordes elevam o piso da arroba
No front externo, os embarques de carne bovina foram determinantes.
Até a terceira semana de fevereiro, o Brasil já havia exportado 192,7 mil toneladas de carne bovina in natura, superando o recorde anterior .
Dados da Secex mostram que, até 13 dias úteis do mês:
- US$ 1,081 bilhão em receita
- 192,708 mil toneladas exportadas
- Preço médio de US$ 5.613,40 por tonelada
Na comparação anual:
- +77,3% no valor médio diário exportado
- +55,7% na quantidade média diária
- +13,9% no preço médio
Esse cenário de demanda internacional firme, aliado a um ambiente global de oferta mais apertada, deu sustentação à arroba ao longo de todo o mês.
Mercado atacadista e câmbio
No atacado, os preços se mantiveram firmes, especialmente na carne com osso.
No fechamento do mês:
- Quarto dianteiro: R$ 21/kg (+R$ 1,00)
- Quarto traseiro: R$ 27/kg (+R$ 0,50)
- Ponta de agulha: R$ 19,50/kg
Já o dólar encerrou fevereiro em torno de R$ 5,13, acumulando queda mensal de 2,15% — fator que ajuda a suavizar parte da pressão exportadora, mas não anulou o forte ritmo de embarques.
O que pode mudar em março?
O principal ponto de atenção é a gestão da cota de exportação para a China.
Analistas indicam que o governo brasileiro pode anunciar, ainda na primeira quinzena de março, uma regulamentação para escalonar os embarques ao longo do ano .
A preocupação é que, sem gestão, a cota de 1,106 milhão de toneladas se esgote rapidamente .
Se houver intervenção:
- O ritmo de exportações pode desacelerar;
- O apetite de compra chinês tende a diminuir;
- A arroba pode perder parte do ímpeto altista.
Além disso, o consumo doméstico segue como variável sensível. O varejo enfrenta dificuldade para repassar altas sucessivas, e a carne bovina continua perdendo competitividade frente ao frango, especialmente em momentos de renda pressionada .
Cenário provável do boi gordo para março
O ambiente para março pode ser resumido em três vetores:
1️⃣ Oferta ainda enxuta – pastagens seguem favorecendo retenção.
2️⃣ Exportações fortes, mas sob risco regulatório.
3️⃣ Consumo interno com limite para novos reajustes.
Se a decisão sobre a cota chinesa vier de forma restritiva, o mercado pode entrar em fase de acomodação, com menor velocidade de alta. Por outro lado, caso o fluxo externo siga intenso e a oferta permaneça curta, a arroba poderá testar novos patamares acima dos atuais R$ 350/@ em São Paulo.
O que fevereiro deixou claro é que, neste início de 2026, o pecuarista voltou a ditar o ritmo do mercado — e março começa com o setor atento às decisões de Brasília e ao apetite da China.
A disputa entre oferta curta e regulação das exportações será o fiel da balança nas próximas semanas.
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