Modelo que integra genética de corte ao rebanho leiteiro, o chamado Beef-on-Dairy, avança como padrão produtivo, porém desafios operacionais e de alinhamento entre produtores e confinamentos ainda impactam resultados e rentabilidade
O sistema beef-on-dairy — estratégia que utiliza genética de raças de corte em vacas leiteiras para produzir bezerros mais valorizados — deixou de ser uma tendência emergente para se tornar um modelo produtivo consolidado em diversas regiões. No entanto, apesar do avanço das parcerias entre fazendas leiteiras, ranchos de cria e confinamentos, especialistas alertam que desconexões operacionais continuam comprometendo a eficiência e a colaboração ao longo da cadeia.
Durante a MILK Business Conference 2025, produtores de leite e gestores de feedlots discutiram os principais gargalos do sistema, destacando progressos já obtidos, mas também apontando áreas onde o alinhamento ainda precisa evoluir para garantir maior desempenho dos animais e retorno econômico.
Um modelo que exige integração real
Com a expansão do beef-on-dairy, os diferentes elos da produção passaram a trabalhar juntos com maior frequência. Essa aproximação fortaleceu a comunicação na cadeia, porém diferenças de processos, expectativas e linguagem técnica ainda geram ruídos importantes.
Na prática, o sucesso do sistema depende de uma coordenação precisa desde o nascimento do bezerro até sua terminação — e qualquer falha nesse percurso pode reduzir o potencial produtivo.
Colostro: o detalhe que define o futuro do bezerro – e do lucro no Beef-on-Dairy
Um dos pontos mais críticos está nas primeiras horas de vida do animal. Gestores de confinamento afirmam que o que acontece na fazenda leiteira antes mesmo do transporte do bezerro tem impacto maior na saúde e no desempenho do que muitas etapas posteriores.
Eric Behlke, da Blackshirt Feeders, ressalta que o principal indicador da saúde futura do bezerro é a chamada transferência passiva de imunidade, obtida por meio do consumo adequado de colostro.
Quando há falha nessa transferência — ou seja, quando o animal não recebe colostro de qualidade — os efeitos negativos acompanham o bezerro até o final do ciclo produtivo.
Para confinamentos que pagam valores elevados por esses animais, começar com um bezerro imunologicamente fragilizado significa assumir um risco difícil de reverter.
O consenso entre os especialistas é direto: tratar bezerros beef-on-dairy com o mesmo rigor aplicado às novilhas de reposição — com protocolos consistentes, ambiente limpo e fornecimento rápido de colostro — é a forma mais rápida de reduzir a diferença de desempenho.
Dois setores, duas linguagens e um objetivo: o lucro
Outro desafio relevante está na comunicação. Mesmo falando sobre o mesmo animal, equipes do leite e do confinamento frequentemente utilizam termos distintos, o que pode gerar confusão nas negociações iniciais.
O produtor Daniel Vander Dussen relatou que, ao começar a vender bezerros beef-on-dairy, se deparou com conceitos de comercialização e métricas de peso que eram comuns aos confinamentos, mas totalmente novos para ele.
Esse tipo de situação evidencia que não é necessário um vocabulário idêntico entre os setores — mas é fundamental que ambos compreendam claramente o que está sendo discutido para criar valor conjunto.
Escolha do touro: mais estratégia, menos aparência
Há também equívocos sobre a genética ideal. Embora o Angus seja amplamente utilizado, especialistas reforçam que não existe uma única raça obrigatória.
Tony Bryant, da Five Rivers Cattle Feeding, destaca que a cor da pelagem, por exemplo, está entre os fatores menos relevantes na avaliação do animal.
A melhor genética é aquela que atende simultaneamente às necessidades da fazenda leiteira e às exigências do comprador final.
Essa visão amplia as possibilidades de cruzamento e permite maior personalização dos programas genéticos.
Investimento alto aumenta a pressão por resultados
O crescimento do beef-on-dairy também elevou o valor dos bezerros, com preços atingindo patamares recordes. Esse cenário torna a parceria entre os elos ainda mais estratégica.
Tony Lopes, produtor leiteiro da Califórnia, citou que recentemente bezerros chegaram a custar US$ 1.650, um nível de investimento que exige comprometimento técnico e mentalidade aberta por parte dos fornecedores.
Isso inclui revisar práticas tradicionais, como:
- fornecedores de genética
- uso de sêmen sexado ou convencional
- proporção de sêmen de corte
- escolha das raças utilizadas
Segundo Lopes, o confinamento não busca apenas um vendedor — procura um parceiro que entenda os objetivos do sistema de terminação e esteja disposto a ajustar a produção para gerar um animal mais competitivo.
O caminho à frente: adaptação será decisiva para o futuro do beef-on-dairy
Hoje, o beef-on-dairy já representa um modelo produtivo relevante para propriedades leiteiras, criando novas oportunidades de receita, mas também exigindo maior profissionalização.
Especialistas apontam que o sucesso dependerá de três pilares principais:
- comunicação clara entre os elos
- definição transparente de expectativas
- decisões genéticas bem planejadas
Cada etapa — do cuidado inicial ao planejamento reprodutivo — influencia diretamente o desempenho final do animal. Produtores que adotarem flexibilidade e priorizarem parcerias tendem a garantir bezerros mais saudáveis, melhor performance e maior relevância no mercado.
Por outro lado, resistir às mudanças pode significar perda de competitividade em uma indústria cada vez mais integrada e orientada por eficiência.
Compre Rural com informações do Dairyherd
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