O que começou com sintomas comuns evoluiu para uma doença rara ligada a ovelhas, provocando uma longa batalha pela recuperação e uma mudança definitiva em suas prioridades.
Uma viagem internacional que deveria representar descanso acabou marcando o início de uma longa e desafiadora jornada para a agricultora Sally Crowe, de 48 anos. O episódio, ocorrido em 2012, mudou não apenas sua saúde, mas também sua forma de enxergar o trabalho no campo e o equilíbrio entre vida profissional e familiar.
Responsável pela gestão de uma pequena propriedade de aproximadamente 65 acres em Caithness, onde mantém criação de ovelhas, bovinos e aves, Sally tornou-se conhecida do público após participar do programa britânico This Farming Life, da BBC. Porém, sua notoriedade também passou a carregar um alerta importante sobre os riscos invisíveis presentes na atividade rural.
Durante uma viagem à Austrália Ocidental, a agricultora visitou amigos que trabalhavam em um galpão de tosquia de ovelhas — ambiente considerado de risco para doenças transmitidas pelo ar. Foi nesse contexto que ela provavelmente contraiu a febre Q, uma infecção bacteriana associada a animais de fazenda.
Ao retornar ao Reino Unido, Sally passou a apresentar sintomas intensos e persistentes. O quadro clínico, no entanto, confundiu os médicos por um longo período, levando a sucessivas consultas sem uma resposta definitiva.
Doenças com manifestações semelhantes, como a doença de Lyme, chegaram a ser investigadas, mas os exames não confirmaram essa hipótese. O diagnóstico correto só foi estabelecido cerca de 18 meses depois, período em que sua condição física se deteriorou significativamente.
Antes da infecção, Sally levava uma rotina ativa e exigente, típica de quem administra uma propriedade rural. Com o avanço da doença, passou a enfrentar fadiga extrema e limitações físicas severas, chegando a permanecer até 18 horas por dia na cama.
Inicialmente, os profissionais de saúde apontaram encefalomielite miálgica (ME) — uma síndrome associada à fadiga crônica — como explicação para os sintomas. A ausência de tratamentos eficazes naquele momento agravou a sensação de incerteza.
Quando a febre Q foi finalmente identificada, surgiu um novo desafio: a escassez de opções terapêuticas na Escócia. A forma crônica da doença, considerada rara, atinge apenas uma pequena parcela dos infectados — cerca de 5% dos casos — mas tende a ser mais complexa e difícil de controlar.
Trata-se de uma infecção que, em muitos pacientes, não pode ser totalmente eliminada, exigindo acompanhamento contínuo e estratégias para manter o quadro sob controle.
Determinada a buscar alternativas, a agricultora recorreu a um especialista na África do Sul, iniciando tratamento em 2016. O protocolo durou um ano e combinava ciclos de antibióticos com medicamentos tradicionalmente utilizados contra a malária.
O processo foi descrito como extremamente exigente do ponto de vista físico e emocional. Os primeiros meses apresentaram pouca resposta, mas a partir do terceiro mês os efeitos positivos começaram a surgir, permitindo uma recuperação gradual.
Com o avanço do tratamento, Sally passou a reconstruir sua rotina, embora com novas limitações.
A experiência com a doença provocou uma mudança profunda em sua relação com o trabalho. A agricultora percebeu que manter o ritmo anterior era insustentável e chegou a considerar a possibilidade de abandonar a propriedade da família, que pertence ao grupo desde 1972.
O longo período de debilidade trouxe uma nova percepção sobre qualidade de vida, energia e propósito. Atualmente, sua estratégia é equilibrar as tarefas físicas com atividades menos extenuantes, respeitando os limites do próprio corpo.
A maternidade também teve papel decisivo nessa transformação. Em 2019, Sally deu à luz o filho William por meio de fertilização in vitro, reforçando sua decisão de priorizar o tempo com a família.
Hoje, sua rotina inclui o manejo essencial da fazenda — que abriga 60 ovelhas reprodutoras, cerca de nove vacas e dezenas de galinhas — seguido por períodos dedicados ao convívio familiar. O trabalho aos fins de semana foi reduzido para garantir maior qualidade de vida.
Segundo o Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido (NHS), a febre Q é uma infecção bacteriana transmitida principalmente por animais como ovelhas, cabras e bovinos.
A contaminação ocorre, na maioria das vezes, pela inalação de partículas contaminadas presentes no ar, originadas de fluidos corporais, fezes, pele, pelos ou lã dos animais.
Os sintomas costumam aparecer entre duas e três semanas após a exposição e podem incluir:
- Febre elevada
- Dores musculares
- Cansaço extremo
- Sensação geral de mal-estar
Embora muitos casos sejam leves, a doença pode evoluir para quadros graves. Na forma crônica, há risco de complicações severas, como endocardite, uma inflamação potencialmente fatal das estruturas do coração.
Outro fator de atenção é a prevenção: não existe atualmente uma vacina licenciada contra a febre Q no Reino Unido, o que amplia a importância das medidas de biossegurança.
A história de Sally Crowe evidencia um ponto crítico para o setor agropecuário: o risco das zoonoses, doenças que podem ser transmitidas entre animais e humanos.
Profissionais que mantêm contato frequente com rebanhos — como agricultores, veterinários, tratadores e trabalhadores de frigoríficos — estão entre os grupos mais vulneráveis.
O caso reforça a necessidade de:
- protocolos sanitários rigorosos
- uso de equipamentos de proteção
- monitoramento da saúde dos rebanhos
- atenção a sintomas persistentes
Mais do que um relato pessoal, o episódio funciona como um lembrete estratégico para a sustentabilidade da atividade rural: preservar a saúde do produtor é tão essencial quanto garantir a sanidade animal e a produtividade da fazenda.
Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias.