Escalada do conflito no Oriente Médio, envolvendo diretamente o Irã, pressiona o preço do petróleo, ameaça rotas estratégicas de comércio e eleva o risco de alta nos custos do agronegócio brasileiro, com possíveis reflexos na inflação e no preço dos alimentos.
A intensificação da guerra no Oriente Médio colocou o agronegócio brasileiro em estado de atenção. O avanço do conflito na região, especialmente envolvendo o Irã e outros atores internacionais, gera instabilidade em um dos pontos mais estratégicos da economia global. Embora o Irã não seja um dos maiores parceiros comerciais do Brasil, os desdobramentos da crise no Oriente Médio podem atingir diretamente o setor agropecuário brasileiro por meio da alta do petróleo, encarecimento de fertilizantes e riscos logísticos nas rotas internacionais de comércio.
O Oriente Médio é uma região fundamental para o fluxo global de energia e para o comércio internacional de alimentos. Para o Brasil, os países do Oriente Médio representam entre 10% e 15% das exportações agrícolas, com destaque para produtos como milho, soja, açúcar e carnes. Entre essas proteínas, ganha destaque a carne halal, produzida de acordo com os preceitos da religião muçulmana e altamente demandada pelos mercados do Oriente Médio. O Brasil é hoje o maior exportador mundial desse tipo de carne.
Uma das maiores preocupações do setor agropecuário é o impacto da crise no Oriente Médio sobre o preço do petróleo. A região concentra alguns dos principais produtores globais e abriga rotas essenciais para o transporte da commodity.
O cenário ficou mais tenso após o fechamento do Estreito de Ormuz, passagem marítima localizada entre o Irã e a Península Arábica. O estreito conecta grandes produtores do Oriente Médio, como Arábia Saudita, Irã, Iraque e Emirados Árabes Unidos, ao Golfo de Omã e ao Mar Arábico.
Cerca de 20% de todo o petróleo e gás natural liquefeito consumido no mundo passa por essa rota, o que torna qualquer instabilidade no Oriente Médio um fator de grande impacto para os mercados globais.
Desde os ataques que intensificaram o conflito na região — incluindo operações que resultaram na morte do aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã — o petróleo já acumulava alta próxima de 15% nos mercados internacionais.
Mesmo sem interrupção imediata da produção, o aumento da incerteza no Oriente Médio adiciona um prêmio de risco ao preço do barril, pressionando custos de transporte, combustíveis e insumos utilizados no agronegócio.
Outro efeito direto da crise no Oriente Médio aparece no mercado de fertilizantes, especialmente os nitrogenados, como a ureia, um dos insumos mais utilizados na agricultura brasileira.
Esse fertilizante é essencial para culturas importantes como milho, café, cana-de-açúcar, trigo e pastagens.
Embora o Irã não seja o principal fornecedor direto para o Brasil, ele exerce papel relevante na cadeia global de fertilizantes do Oriente Médio, principalmente por fornecer gás natural utilizado na produção desses insumos em países exportadores.
Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, o Brasil importou 7,7 milhões de toneladas de ureia no último ano. Mais da metade desse volume veio de países com forte ligação com a cadeia energética do Oriente Médio:
- Nigéria: 1,8 milhão de toneladas
- Omã: 1,2 milhão de toneladas
- Catar: 991 mil toneladas
Somados, esses três países responderam por 51,7% das importações brasileiras do fertilizante.
Como quase 90% do custo de produção de fertilizantes nitrogenados está ligado ao consumo de energia, principalmente gás natural, qualquer instabilidade no Oriente Médio tende a pressionar os preços globais desses insumos.
O Oriente Médio também é um mercado importante para as exportações do agronegócio brasileiro, especialmente para grãos e proteínas.
Em 2025, o Irã importou do Brasil:
- US$ 1,98 bilhão em cereais, farinhas e preparações
- US$ 745,8 milhões em soja
- US$ 189,1 milhões em açúcar e etanol
Entre os grãos, o milho é o principal produto exportado para o Oriente Médio. No ano passado, o Irã foi o maior destino do cereal brasileiro, comprando cerca de 9 milhões de toneladas, o equivalente a 23% das exportações do Brasil.
Outro ponto sensível envolve a logística de exportação para o Oriente Médio. O Brasil lidera a produção global de carne halal, destinada principalmente aos países da região.
Atualmente, mais de 28 mil toneladas mensais de carne halal brasileira são exportadas para o Oriente Médio.
O fechamento do Estreito de Ormuz preocupa porque a rota é estratégica para o transporte marítimo entre o Brasil e diversos mercados do Oriente Médio. Caso o bloqueio se prolongue, exportadores podem ter que recorrer a rotas alternativas, que são mais longas e mais caras, elevando os custos logísticos.
Apesar das preocupações, a crise no Oriente Médio também pode abrir oportunidades para alguns setores do agro brasileiro.
Com a alta do petróleo causada pela instabilidade no Oriente Médio, os biocombustíveis tendem a ganhar competitividade, especialmente o etanol e o biodiesel.
O biodiesel brasileiro é produzido principalmente a partir da soja, enquanto o etanol tem como matérias-primas a cana-de-açúcar e o milho.
Caso o petróleo permaneça valorizado devido à crise no Oriente Médio, a demanda por combustíveis renováveis pode crescer, criando oportunidades para parte da cadeia produtiva do agronegócio brasileiro.
Especialistas alertam, no entanto, que uma escalada maior da guerra no Oriente Médio pode elevar ainda mais os custos de produção agrícola, pressionando fertilizantes, combustíveis e logística — fatores que, no fim da cadeia, podem refletir também no preço dos alimentos e na inflação.
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