Agro brasileiro corre risco de perder US$ 17,5 bilhões com nova lei antidesmatamento da UE

O agronegócio brasileiro entrou em contagem regressiva para enfrentar um dos maiores gargalos comerciais de sua história recente. A nova Lei Antidesmatamento da UE (EUDR), que endurece as regras para a entrada de produtos agrícolas no bloco europeu, não é mais uma ameaça distante, mas um risco real que pode retirar US$ 17,5 bilhões por ano da balança comercial do país. O prejuízo estimado equivale a cerca de 16% de tudo o que o Brasil exporta para o mercado agropecuário global, segundo um levantamento inédito da consultoria italiana BIP.

A regulação, em vigor desde o ano passado, funciona como uma barreira técnica intransigente: ela proíbe a comercialização de produtos vindos de áreas desmatadas após 31 de dezembro de 2020. Na prática, a Lei Antidesmatamento da UE exige que o exportador prove, via satélite e documentos, que cada saca de soja ou arroba de boi não tem relação com a derrubada de florestas, seja ela legal ou ilegal perante o Código Florestal brasileiro.

O cerco às sete commodities estratégicas

O impacto é direto em sete pilares da economia nacional: gado, soja, café, cacau, madeira, borracha e óleo de palma. De acordo com a análise da BIP, o setor de pecuária e o de cacau são os que apresentam maior vulnerabilidade. No caso do gado, o calcanhar de Aquiles é a rastreabilidade da “origem da origem” — o monitoramento de fornecedores indiretos que ainda escapam aos sistemas atuais.

Já o café e o cacau enfrentam um desafio social e logístico: a enorme presença de pequenos produtores. Para esses agricultores, o custo de implementar sistemas de geolocalização e due diligence pode ser o fator que os expulsará do mercado europeu. A consultoria alerta que a burocracia exigida pela Lei Antidesmatamento da UE pode criar um “apartheid” comercial, onde apenas os grandes grupos com fôlego financeiro conseguirão se manter em conformidade.

O gargalo do CAR e a urgência tecnológica

Um dos pontos mais críticos para o Brasil é a morosidade institucional. O Cadastro Ambiental Rural (CAR) é a principal arma do país para provar a legalidade das fazendas, mas o estudo da BIP revela um dado alarmante: apenas 4,5% dos 8 milhões de imóveis cadastrados tiveram sua análise de regularidade ambiental concluída. Sem o aval do Estado, o produtor fica em um limbo jurídico diante de Bruxelas.

Apesar do cenário severo, o setor tenta enxergar uma saída na modernização. “Enxergamos oportunidades relevantes de investimentos em soluções tecnológicas como geolocalização, blockchain e inteligência artificial”, afirma Marcelo Pagoti, diretor da Divisão de Agro e Manufatura da BIP. Para ele, a adaptação à Lei Antidesmatamento da UE deve ser vista como um movimento de sobrevivência que vai redefinir o comércio global.

As punições para quem ignorar as novas regras são pesadas e imediatas. As empresas que falharem na comprovação da origem dos lotes estão sujeitas a multas de até 4% do seu faturamento anual, além do confisco de mercadorias e a suspensão imediata de suas licenças de importação no bloco europeu. Para o agro brasileiro, a sustentabilidade deixou de ser um diferencial de marketing para se tornar uma condição obrigatória de caixa.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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