Desde a safra 2003/2004, a Bahia ocupa a posição de segundo maior produtor de algodão do Brasil e é um exemplo do que a parceria nacional-estadual pode gerar.
Quando os primeiros produtores do Oeste da Bahia ousaram plantar algodão no cerrado, no início dos anos 1990, o Brasil ainda era um importador da fibra. Ninguém imaginaria, naquele momento, que em menos de três décadas o país se tornaria o maior exportador mundial de algodão. Essa transformação não foi por acaso. Foi construída safra a safra, com organização, tecnologia e uma estrutura associativa que soube unir o local ao nacional. No centro dessa história está a Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), fundada em 07 de abril de 1999. A Associação Baiana dos Produtores de Algodão (Abapa), criada no ano seguinte, em 2000, tornou-se uma de suas estaduais mais atuantes na missão de levar a fibra brasileira ao topo.
Desde a safra 2003/2004, a Bahia ocupa a posição de segundo maior produtor de algodão do Brasil e é um exemplo do que a parceria nacional-estadual pode gerar. O cerrado baiano, que nos anos 1990 era uma fronteira agrícola ainda em desbravamento, tornou-se uma das regiões mais produtivas e tecnificadas do planeta.
Conexão que gera escala
As dez entidades estaduais filiadas, dentre elas a Abapa, são o elo direto com o produtor no campo, levando os programas nacionais à ponta e trazendo de volta as demandas e realidades locais. Para Alessandra Zanotto Costa, atual presidente da Abapa, essa conexão é o coração do modelo.

“A Abrapa cumpre um papel que vai além da representação nacional. Ela direciona e conecta. É a partir dessa conexão que o trabalho das associações estaduais ganha escala, consistência e voz no Brasil e no mundo. Na Bahia, temos clareza de que os avanços que conquistamos em qualidade, sustentabilidade, volume e competitividade não são construções isoladas. São resultado de uma atuação coordenada, na qual o alinhamento entre o nacional e o estadual fortalece toda a cadeia. A Abrapa potencializa o trabalho da estadual, e é exatamente nessa conexão que o algodão brasileiro se posiciona com força, coerência e relevância”, afirma.
A virada
Parte fundamental dessa trajetória foi uma batalha travada não nas lavouras, mas nas salas de reunião de Genebra. Em 2002, a Abrapa, em parceria com o governo brasileiro, ingressou na Organização Mundial do Comércio (OMC) com um processo contra os subsídios concedidos pelos Estados Unidos aos seus produtores de algodão. A decisão final, favorável ao Brasil, chegou em 2009 e mudou as regras do mercado global.
“Fui presidente da Abrapa em dois momentos totalmente diferentes. No primeiro, nós tínhamos recém-entrado com a ação na OMC contra os subsídios americanos ao algodão. A Abrapa era uma associação enxuta, com muito pouca infraestrutura e recursos. Foi uma dificuldade arrecadar os meios para bancarmos os advogados e as custas dessa ação. A participação das estaduais, como a Abapa, foi decisiva”, rememora João Carlos Jacobsen Rodrigues, um dos pioneiros na introdução do algodão no cerrado baiano, primeiro presidente da Abapa e que presidiu a Abrapa por dois biênios, 2006/2008 e 2015/2016.

Ele destaca o apoio dos conselhos estaduais, que são os responsáveis, por exemplo, pela implementação das políticas de controle fitossanitário. “A defesa é fundamental na produção de algodão, no combate ao bicudo-do-algodoeiro e às doenças que têm potencial devastador para as lavouras. Tenho muito orgulho de ter passado pela diretoria da Abrapa duas vezes. Isso me proporcionou uma vivência muito diferente”, conclui.
Júlio César Busato, presidente da Abrapa no biênio 2021/2022 e ex-presidente da Abapa, resume o impacto daquele momento histórico na OMC. “A vitória na OMC, contra os subsídios americanos, foi o que nos deu ‘bala na agulha’ para nos organizar e agir, e isso veio através da Abrapa, com os contatos que ela tem no governo, principalmente no Ministério da Agricultura. O programa Cotton Brazil levou a mensagem do nosso algodão de quantidade, qualidade, rastreabilidade e sustentabilidade para fora e conquistou o mercado mundial”, afirma Busato.

Quatro pilares, uma identidade
O algodão baseia-se em quatro compromissos que são, ao mesmo tempo, diferenciais competitivos e promessas ao mercado: rastreabilidade, qualidade, sustentabilidade e promoção. Esses pilares são operacionalizados cotidianamente pelas associações estaduais, que implementam os programas nacionais da Abrapa em cada região produtora. Na Bahia, isso se traduz em produtores certificados, fazendas rastreadas, fibra com padrão de qualidade reconhecido internacionalmente e uma voz ativa no Cotton Brazil, o projeto que levou o algodão brasileiro às principais feiras e missões comerciais do mundo, da Ásia à Europa.
Bahia sempre junto
Celestino Zanella, que também já presidiu a Abapa, está prestes a assumir o comando nacional para o biênio 2027/2028. Ele, que acompanhou de perto toda essa evolução, projeta com convicção o futuro. “A cotonicultura mundial vai depender do Brasil. A Abrapa teve papel fundamental para manter a participação do algodão no mundo por meio do crescimento da produção brasileira. A Abapa, como entidade que representa a Bahia, segundo maior produtor de algodão no Brasil, sempre esteve em um papel relevante na associação”, sentencia.

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ℹ️ Conteúdo publicado por Myllena Seifarth sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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