Método pioneiro permite espalhar genética de elite nos rebanhos e pode deixar a carne bovina mais macia, sustentável e valorizada no mercado em poucos anos. Conheça o pioneirismo do projeto Surrogate Sires
Uma inovação científica apresentada recentemente nos Estados Unidos pode marcar o início de uma nova era na produção global de carne bovina. Pesquisadores desenvolveram um método capaz de expandir rapidamente a presença de genética superior nos rebanhos, abrindo caminho na pecuária para que bifes, hambúrgueres e outros cortes de alto padrão se tornem mais acessíveis ao consumidor nos próximos anos.
A tecnologia, considerada pioneira, foi apresentada durante a reunião anual da Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS), em Phoenix, Arizona, e já é vista por especialistas como um avanço com potencial para aumentar a produtividade, reduzir impactos ambientais e elevar o padrão médio da carne bovina mundial.
O projeto, conhecido como “Reprodutores Substitutos” (Surrogate Sires), baseia-se na utilização de ferramentas modernas de edição genética para transformar touros comuns em transmissores de material genético altamente valorizado.
O processo ocorre em etapas estratégicas:
- Touros convencionais passam por edição genética para se tornarem estéreis, impedindo a produção de seus próprios espermatozoides.
- Em seguida, recebem células-tronco retiradas dos testículos de touros com genética comprovadamente superior — animais selecionados por características como qualidade de carne, eficiência alimentar e saúde.
- Quando esses touros se reproduzem, transmitem exclusivamente os genes do doador, fazendo com que os descendentes herdem atributos considerados premium.
Um dos pontos mais relevantes do método é que os bezerros gerados não são geneticamente modificados, o que pode facilitar processos regulatórios e reduzir barreiras de aceitação no mercado consumidor.
Historicamente, o acesso a reprodutores de alto valor sempre foi limitado a grandes produtores, devido ao custo elevado desses animais e às dificuldades logísticas de transporte e adaptação.
Com a nova tecnologia, surge a possibilidade de disseminar genética superior em larga escala, permitindo que propriedades menores também elevem o padrão de seus rebanhos.
Na prática, isso pode criar um novo mercado dentro da pecuária de corte, ampliando a competitividade e acelerando a evolução genética dos animais de produção.
Os impactos potenciais vão além da qualidade do produto final. Estudos indicam que a técnica pode gerar:
- Carne bovina mais macia e saborosa
- Animais mais resistentes a doenças
- Melhor conversão alimentar
- Crescimento mais rápido
- Maior rentabilidade ao produtor
Além disso, a redução do tempo necessário para que o animal atinja o peso ideal de abate pode provocar um efeito ambiental significativo. Menos tempo no campo significa menor consumo de recursos naturais e redução nas emissões de metano, um dos principais gases associados à pecuária.
Esse fator ganha importância diante do desafio global de alimentar uma população crescente sem ampliar proporcionalmente a pressão sobre o meio ambiente. O avanço também abre perspectivas especialmente relevantes para regiões como América do Sul.
Raças zebuínas, como o Nelore, dominam países tropicais graças à sua rusticidade e adaptação ao calor. No entanto, muitas delas não foram originalmente selecionadas com foco prioritário na qualidade da carne.
Já raças taurinas, como o Angus, apresentam alto padrão de marmoreio e maciez, mas enfrentam dificuldades em climas mais severos.

A nova tecnologia cria um cenário no qual animais adaptados ao ambiente tropical podem transmitir genética de raças reconhecidas pela excelência da carne bovina, combinando resistência com qualidade — uma equação considerada ideal pela indústria frigorífica.
Para grandes exportadores, como o Brasil, isso poderia representar um salto competitivo na disputa pelos mercados mais exigentes do mundo.
Grande parte dessa revolução só é possível graças ao CRISPR-Cas9, uma das ferramentas mais avançadas da biotecnologia moderna.
A técnica funciona como uma espécie de “tesoura molecular”, capaz de identificar trechos específicos do DNA e realizar cortes precisos. Com isso, cientistas conseguem remover, alterar ou silenciar genes indesejados e priorizar características benéficas que já existem naturalmente nas espécies.
Na prática, trata-se de uma forma de acelerar um processo que a humanidade já realiza há milhares de anos — a seleção genética de animais mais produtivos.
Hoje, porém, o que antes levava décadas pode ser alcançado em poucos anos.
Entre as aplicações estudadas estão:
- aves mais resistentes a doenças como a gripe aviária;
- bovinos com crescimento mais rápido;
- animais com maior eficiência alimentar;
- rebanhos com melhor padrão de bem-estar.
Durante décadas, alimentos geneticamente modificados carregaram forte resistência pública e foram rotulados com termos pejorativos. No entanto, a nova geração de biotecnologias tem buscado se diferenciar ao trabalhar apenas com genes já presentes na natureza — sem inserir material de outras espécies.
Essa abordagem tende a reduzir a percepção de risco e ampliar a aceitação do consumidor ao longo do tempo, especialmente à medida que sustentabilidade e segurança alimentar se tornam prioridades globais.
A tecnologia já foi patenteada e licenciada para uma empresa sediada no Reino Unido, que pretende comercializar o sistema entre três e cinco anos.
O timing coincide com mudanças regulatórias britânicas voltadas aos alimentos geneticamente editados, o que pode acelerar a chegada dos primeiros produtos às prateleiras.
Caso a adoção ocorra conforme o esperado, especialistas avaliam que o setor pecuário pode entrar em um ciclo de transformação semelhante ao observado na agricultura com a chegada das sementes de alta performance.
Mais do que uma inovação pontual, o avanço indica uma mudança estrutural na forma como a proteína animal poderá ser produzida nas próximas décadas.
A possibilidade de expandir rapidamente a genética de ponta, reduzir impactos ambientais e elevar a qualidade da carne bovina sugere um cenário em que ciência e pecuária caminham cada vez mais integradas.
Se as projeções se confirmarem, o consumidor do futuro poderá encontrar nos supermercados cortes provenientes de rebanhos geneticamente superiores — e a chamada “carne de elite”, ou “carne do futuro”, deixará de ser exceção para se tornar parte do novo padrão global.
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