A armadilha do livre comércio? Os perigos invisíveis para o agro no acordo Mercosul-UE

Enquanto grandes exportadores celebram a abertura comercial, produtores nacionais de vinhos e azeites alertam para o impacto de subsídios estrangeiros, gargalos tributários e o risco de o Brasil se tornar escoadouro para excedentes europeus

A euforia com a abertura de novos mercados esconde um cenário de incertezas para parte do campo brasileiro. Embora o acordo entre Mercosul e União Europeia (em vigor provisório desde maio de 2025) prometa turbinar as exportações de proteínas e frutas, setores sensíveis como o de azeites e vinhos denunciam uma concorrência desleal.

Para esses produtores, o tratado não é apenas uma oportunidade comercial, mas um desafio de sobrevivência diante de subsídios estrangeiros e falhas na fiscalização.

O custo da desigualdade: subsídios e fraudes no azeite

Enquanto o agronegócio exportador celebra, a olivicultura nacional enfrenta um “campo de jogo” inclinado. Segundo Flávio Obino Filho, presidente do Ibraoliva, a principal ameaça não é a tarifa — que já está zerada para europeus desde março de 2025 —, mas os subsídios governamentais massivos recebidos pelos produtores da Europa. Essa ajuda estatal permite que o azeite importado chegue às gôndolas brasileiras com preços que o produtor local, sobrecarregado por impostos, não consegue cobrir.

Além do fator econômico, a integridade do produto preocupa. Dados do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), citados pelo Ibraoliva, revelam um dado alarmante: em testes de painel sensorial, mais de 90% dos azeites importados rotulados como extravirgens foram desclassificados. O setor agora exige que o governo brasileiro condicione a entrada desses produtos à apresentação de laudos sensoriais rigorosos para coibir fraudes.

Vinhos: O Brasil como “escoadouro” do excedente europeu

Na vitivinicultura, o alerta é sobre o volume de estoque. Com o consumo de álcool em queda na Europa, o Brasil tornou-se o alvo estratégico para o excedente de produção do Velho Continente. Luciano Rebelatto, presidente do Consevitis-RS, alerta que a redução tributária para os europeus ocorre no pior momento possível: quando a economia brasileira fragilizada empurra o consumidor para o produto mais barato, ignorando a origem.

Eduardo Piaia, diretor-executivo da mesma entidade, reforça que o setor brasileiro ainda é jovem e luta contra uma carga tributária desproporcional. A prioridade agora é blindar a imagem do rótulo nacional e reduzir custos de produção para enfrentar a “mística” de que o vinho importado é sempre superior.

Suco de uva: a estratégia de resistência

Como alternativa para manter a rentabilidade das famílias produtoras, o setor aposta no suco de uva 100% natural. Considerado uma “válvula de escape”, o produto não foi incluído nas negociações de alíquota zero da mesma forma que a fruta in natura, o que é visto por Rebelatto como uma oportunidade perdida de “moeda de troca”.

Apesar da pressão, há um fio de otimismo: a maior presença de rótulos europeus pode ampliar o mercado total de vinhos no Brasil — que hoje é de apenas 2 litros per capita/ano — criando um público que, no futuro, pode ser capturado pela qualidade crescente da indústria nacional.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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