Vídeo raro mostra onça-pintada arrastando tartaruga gigante às margens de rio brasileiro

Cena registrada em Cabixi, no sul de Rondônia, mostra o felino levando o quelônio da faixa de areia em direção à vegetação; imagens não revelam como ocorreu o encontro entre os animais

Uma onça-pintada (Panthera onca) foi registrada arrastando uma grande tartaruga às margens do Rio Guaporé, no município de Cabixi, em Rondônia. A gravação foi feita pelo guia de pesca Jackson Francisco na quinta-feira, 24 de setembro, e ganhou repercussão nos dias seguintes ao mostrar uma interação pouco vista entre duas espécies da fauna brasileira.

Nas imagens, o felino segura o quelônio pela região da cabeça, atravessa parte da faixa de areia, interrompe o movimento por alguns instantes e depois continua em direção à vegetação. A gravação não mostra o início da interação nem o que ocorreu depois, portanto não é possível determinar se a onça matou a tartaruga, se a encontrou já debilitada ou morta, ou mesmo se houve consumo do animal. A espécie da tartaruga também não pôde ser identificada com segurança apenas pelo vídeo. Continue a leitura e acompanhe o Compre Rural, onde informação de qualidade ajuda a fortalecer quem vive e produz no campo.

O que o vídeo realmente permite afirmar

O cuidado com a interpretação é relevante porque uma das reportagens que repercutiu o caso posteriormente descreveu a cena como uma “captura” realizada pela onça e localizou o episódio em Mato Grosso. A fonte que traz informações mais detalhadas sobre a origem do registro, porém, identifica Cabixi, em Rondônia, como o local da gravação e não mostra o momento de uma eventual caça.

Assim, o fato comprovado pelo registro é mais específico: a onça já estava com a tartaruga quando começou a ser filmada e a arrastou da praia em direção à mata.

A ausência das etapas anteriores impede conclusões sobre como o animal chegou até o quelônio. Ainda assim, estudos científicos mostram que tartarugas podem fazer parte da alimentação da espécie.

Ciência já registrou onças predando tartarugas adultas

Um trabalho publicado na revista científica Biota Neotropica analisou a predação de tartarugas-da-amazônia (Podocnemis expansa) por onças-pintadas nas praias do Rio Javaés, no Tocantins.

Durante cinco temporadas reprodutivas, entre 2000 e 2004, pesquisadores contabilizaram 901 fêmeas em postura e encontraram 33 animais predados por onças, correspondentes a uma média de 3,66%. Os casos ocorreram à noite, período em que as tartarugas deixavam a água para realizar a desova.

O estudo ajuda a mostrar que a interação observada em Rondônia é biologicamente plausível, mas não permite identificar a espécie filmada no Rio Guaporé nem confirmar que aquela tartaruga específica tenha sido abatida pela onça.

As circunstâncias também são diferentes: a pesquisa científica foi conduzida no Tocantins e envolveu animais cuja espécie e condição foram determinadas diretamente pelos pesquisadores.

Por que tartarugas podem se tornar presas

Durante o período reprodutivo, determinadas espécies de quelônios saem da água para alcançar praias e bancos de areia onde realizam a postura dos ovos.

Esse comportamento cria uma janela de maior exposição. O estudo realizado no Rio Javaés apontou justamente que as fêmeas de Podocnemis expansa ficavam vulneráveis enquanto caminhavam pelas praias, procuravam o ponto de nidificação, escavavam o ninho e posteriormente retornavam ao rio.

No caso registrado em Cabixi, o biólogo João Marcelo Biagini explicou ao Primeira Página que a alimentação das onças varia conforme as oportunidades existentes em cada ambiente. Regiões com diferentes concentrações de presas podem, portanto, resultar em dietas também distintas.

Essa flexibilidade alimentar é uma das características que permitem à onça ocupar ambientes bastante diferentes no continente americano.

Praias do Guaporé têm importância para os quelônios

A presença de tartarugas nas praias do Vale do Guaporé é amplamente documentada.

O próprio Governo de Rondônia mantém registros do Projeto Quelônios do Guaporé, iniciativa conduzida pela Associação Comunitária e Ecológica do Vale do Guaporé (Ecovale) para proteger ninhos, ovos e filhotes encontrados nas praias da região.

Segundo informações oficiais de turismo do estado, a iniciativa acompanha tartarugas que utilizam essas praias para reprodução e atua contra perdas provocadas tanto pela ação humana quanto pela predação natural.

A ocorrência de quelônios nesses ambientes ajuda a contextualizar por que um encontro desse tipo pode acontecer nas margens do Guaporé.

Um predador adaptável também próximo das áreas produtivas

A onça-pintada ocupa o topo da cadeia alimentar em diferentes ecossistemas brasileiros e pode consumir diversos tipos de animais de acordo com a disponibilidade encontrada no território.

Essa característica também explica parte dos conflitos registrados em regiões pecuárias, onde bovinos podem se tornar presas quando rebanhos compartilham áreas próximas a ambientes utilizados pelo felino.

O tema já apareceu em episódios envolvendo ataques de onça-pintada a bezerros e formas de reduzir o risco para o rebanho e em experiências com cercas elétricas e manejo para diminuir ataques ao gado no Pantanal.

Em outro registro, uma onça-pintada foi filmada tentando atacar um bezerro em uma fazenda no Tocantins, episódio que também chamou atenção para a proximidade possível entre grandes predadores e áreas de criação.

O caso do Guaporé mostra outro lado dessa dinâmica: desta vez, a interação ocorreu com um animal silvestre e em uma praia utilizada pela fauna local.

Registro chama atenção, mas ainda deixa perguntas abertas

Vídeo: Jackson Francisco

A cena chama atenção principalmente porque registra em vídeo uma interação que não costuma ser facilmente observada por pessoas em ambiente natural.

Isso, porém, é diferente de afirmar que o comportamento em si seja desconhecido ou excepcional para a espécie. A literatura científica demonstra que onças-pintadas podem predar grandes quelônios, principalmente quando esses animais ficam expostos durante a reprodução.

No flagrante de Cabixi, continuam sem resposta três questões: qual era a espécie da tartaruga, como ocorreu o encontro entre os animais e qual foi o destino do quelônio após o fim da gravação.

O que está documentado é uma onça-pintada transportando uma grande tartaruga por uma praia do Rio Guaporé — um registro que aproxima das câmeras uma relação predador-presa já conhecida pela ciência, mas que raramente é observada diretamente por quem percorre os rios da região.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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