Vendas de máquinas agrícolas despencam, mas gigantes apostam milhões no Brasil; entenda

Mercado brasileiro sente os efeitos dos juros altos e do crédito mais restrito, mas fabricantes mantêm planos de expansão diante do tamanho e do potencial da agricultura nacional

O mercado de máquinas agrícolas atravessa um período de retração no Brasil em 2026. Entre janeiro e abril, a receita obtida com máquinas e implementos destinados ao setor caiu 17,9% na comparação com o mesmo período do ano passado, chegando a R$ 17,07 bilhões. O cenário, entretanto, está longe de representar uma debandada das grandes fabricantes. Empresas internacionais continuam investindo em produção, nacionalização de equipamentos e expansão comercial no país, apostando no crescimento de longo prazo da agricultura brasileira.

O contraste coloca duas realidades lado a lado: de um lado, produtores mais cautelosos na compra de equipamentos; do outro, uma indústria que enxerga no Brasil um mercado estratégico para as próximas décadas.

Vendas de máquinas agrícolas sentem desaceleração

Dados da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) mostram que somente em abril a receita líquida do segmento ficou em aproximadamente R$ 4,21 bilhões, queda de 22,2% frente ao mesmo mês de 2025.

Com esse resultado, o acumulado dos quatro primeiros meses chegou aos R$ 17,07 bilhões, recuo de 17,9%.

É importante destacar que esses percentuais representam a receita do setor, e não necessariamente uma queda equivalente no número de tratores, colheitadeiras e implementos comercializados.

Juros elevados, crédito mais caro e margens mais apertadas dentro das propriedades rurais ajudam a explicar o momento de maior cautela.

O cenário é especialmente desafiador para equipamentos de maior porte, normalmente associados a investimentos elevados e maior dependência de financiamento.

Exportações seguem direção contrária

Enquanto os negócios dentro do país perderam força, o desempenho externo apresentou comportamento bastante diferente.

As exportações de máquinas e implementos agrícolas somaram aproximadamente US$ 583 milhões entre janeiro e abril, avanço de 20,1% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Somente em abril, as vendas externas alcançaram aproximadamente US$ 160 milhões.

O resultado ajuda a mostrar que a retração observada no início de 2026 está mais concentrada na demanda doméstica do que em uma perda generalizada de competitividade da indústria.

Safra brasileira continua crescendo

Um dos principais motivos para as fabricantes continuarem olhando para o Brasil está no tamanho da produção agrícola nacional.

A estimativa mais recente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgada em agosto, aponta uma produção de aproximadamente 353 milhões de toneladas de cereais, leguminosas e oleaginosas em 2026.

O volume representa crescimento de aproximadamente 2% sobre a produção de 2025.

Uma agricultura desse tamanho demanda capacidade crescente de plantio, pulverização, colheita, transporte e processamento.

Mesmo quando o produtor adia a aquisição de uma máquina nova, a expansão e modernização do sistema produtivo continuam criando demanda estrutural por equipamentos.

New Holland nacionaliza máquinas no Brasil

Um exemplo concreto dessa estratégia vem da New Holland, marca pertencente à CNH.

A companhia anunciou investimento superior a R$ 100 milhões para nacionalizar a fabricação das plataformas de colheita Draper FD2 by MacDon.

Os equipamentos de 25, 50 e 61 pés passarão a ser produzidos na unidade de Curitiba, no Paraná.

A fábrica brasileira será utilizada para atender não somente o mercado nacional, mas clientes de toda a América Latina.

Segundo a própria fabricante, a nacionalização deverá ampliar a disponibilidade de equipamentos, peças e suporte técnico na região.

A estratégia transforma a operação brasileira em um polo regional para uma linha importante de equipamentos utilizados durante a colheita.

AGCO também reconhece mercado mais difícil

Os próprios balanços das fabricantes confirmam que 2026 está sendo um ano mais complicado.

A AGCO, dona de marcas como Fendt, Massey Ferguson e Valtra, informou que as vendas de tratores no mercado brasileiro caíram 10% no primeiro trimestre de 2026, em comparação com igual período do ano anterior.

A companhia apontou demanda mais fraca principalmente entre equipamentos maiores.

Segundo a fabricante, custos elevados, condições de financiamento e disponibilidade de crédito continuam influenciando a decisão de compra dos produtores brasileiros.

Ainda assim, a empresa mantém presença estratégica no país e planos de expansão para suas marcas.

Fabricantes estrangeiras ampliam apostas

Mesmo diante da desaceleração, empresas como Fendt e JCB também vêm indicando intenção de ampliar suas operações brasileiras.

A Fendt, pertencente à AGCO, trabalha com expansão de sua rede comercial e pretende aumentar significativamente sua presença no Brasil e em outros mercados da América Latina.

Já a JCB mantém um programa de investimentos no país que contempla expansão industrial, desenvolvimento de novos equipamentos e aumento da capacidade de sua operação em Sorocaba, no interior paulista.

A lógica dessas empresas não está baseada somente nas vendas de 2026.

O cálculo considera a evolução esperada da agricultura brasileira nos próximos anos e a necessidade de renovação e modernização da frota utilizada no campo.

Tecnologia ganha peso na decisão de compra

A retração também muda o tipo de equipamento que consegue convencer o produtor a investir.

Em um ambiente de juros altos e maior controle de custos, simplesmente oferecer uma máquina mais potente não é suficiente.

Fabricantes passam a enfatizar recursos capazes de demonstrar ganhos econômicos mensuráveis, como automação, agricultura de precisão, telemetria, redução do consumo de combustível e aplicações mais precisas de insumos.

Robôs agrícolas e sistemas baseados em inteligência artificial também começam a ganhar espaço.

A tendência é que a disputa no mercado deixe de envolver apenas potência ou tamanho e passe cada vez mais pelo custo por hectare trabalhado.

Concorrência aumenta no mercado brasileiro

Outro elemento importante é o aumento da presença de novos fabricantes no Brasil, especialmente empresas asiáticas.

A entrada de mais concorrentes amplia a oferta disponível ao produtor e pressiona marcas tradicionais a disputar mercado não apenas pelo equipamento, mas por financiamento, assistência técnica, peças, conectividade e custo de manutenção.

Para quem compra, isso pode significar mais alternativas.

Para os fabricantes já estabelecidos, significa a necessidade de investir justamente em um momento de retração nas vendas.

Queda no presente e aposta no futuro

Os números de 2026 mostram um mercado brasileiro de máquinas agrícolas sob pressão, principalmente pela conjuntura financeira.

Mas os investimentos anunciados indicam que as fabricantes fazem uma leitura diferente quando olham para horizontes mais longos.

A produção brasileira continua próxima de níveis recordes, novas tecnologias avançam sobre as propriedades e existe uma frota que precisará ser renovada ao longo dos próximos anos.

Por isso, a queda de 17,9% na receita do primeiro quadrimestre não significa necessariamente uma perda de interesse pelo Brasil.

Pelo contrário: enquanto produtores calculam com mais cuidado cada novo investimento, grandes fabricantes se movimentam para estar preparadas quando o próximo ciclo de compras ganhar força.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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