Holandesa da Cabaña Penner, no Paraguai, vaca quebra recorde historico e supera a antiga marca em quase 16 litros e reforçou como investimento em genética, nutrição e bem-estar está transformando a pecuária leiteira na América do Sul.
Uma vaca da raça Holandesa (Holstein) acaba de escrever um novo capítulo na história da pecuária leiteira sul-americana. Durante a 9ª edição da Expo Cooprolanda, no Paraguai, o animal atingiu a impressionante marca de 108,7 litros de leite em apenas um dia, distribuídos em três ordenhas, estabelecendo um novo recorde nacional e um dos maiores desempenhos já registrados na região.
O resultado ultrapassou com folga o recorde anterior da competição, de 92,99 litros, obtido em 2023, e chamou atenção de produtores, técnicos e especialistas em genética bovina. Mais do que um número expressivo, o desempenho é visto como reflexo de décadas de seleção genética, manejo nutricional preciso, conforto animal e investimentos em tecnologia dentro da porteira.
Recorde é fruto de quase três décadas de trabalho
A campeã pertence à Cabaña Penner, propriedade reconhecida no Paraguai pelo trabalho contínuo de melhoramento genético do rebanho leiteiro.
Segundo o proprietário David Penner, o resultado não aconteceu por acaso.
“Esse recorde é consequência de muitos anos de dedicação, reunindo genética, conforto animal e nutrição adequada”, destacou o produtor após a divulgação do resultado.
O engenheiro agrônomo Hugo Pistilli, especialista em genética animal, classificou o desempenho como um marco para toda a pecuária leiteira tropical.
“É uma produção histórica em nível regional. Os 108,7 litros quebraram todos os recordes”, afirmou o especialista.
Cinco gerações de seleção genética
De acordo com Pistilli, a vaca recordista é resultado de cinco gerações consecutivas de seleção genética, processo que permitiu elevar o potencial produtivo da linhagem de cerca de 83 litros para mais de 108 litros por dia.
O animal é filha do touro King Doc, uma das linhagens reconhecidas internacionalmente pela alta produção leiteira.
Além da genética, especialistas destacam características fundamentais para atingir esse nível de desempenho:
- sistema mamário altamente desenvolvido;
- excelente conformação do úbere;
- profundidade corporal adequada;
- resistência estrutural;
- elevada eficiência alimentar.
Esses fatores permitem que a vaca produza grandes volumes de leite mantendo saúde e longevidade produtiva.
O mais impressionante: ela ainda nem atingiu o pico de produção
Outro dado chamou atenção dos especialistas.
A vaca produziu os 108,7 litros apenas entre 42 e 45 dias após o parto, período em que normalmente ainda não ocorre o pico da lactação, que costuma ser registrado por volta dos 60 dias.
Segundo Pistilli, logo aos 15 dias pós-parto, ela já produzia cerca de 65 litros por dia, volume considerado excepcional para essa fase da lactação.
Além disso, trata-se de uma vaca em seu terceiro parto, sendo que especialistas afirmam que o potencial máximo normalmente é alcançado apenas após o quarto parto.

Bem-estar animal faz tanta diferença quanto a genética
Embora o potencial genético seja indispensável, tanto o proprietário quanto os especialistas destacam que a produtividade não seria possível sem um ambiente altamente controlado.
Na propriedade, o manejo inclui:
- alimentação balanceada;
- monitoramento veterinário constante;
- conforto térmico;
- instalações modernas;
- manejo cuidadoso durante toda a lactação.
No Paraguai, muitas fazendas de alta produção utilizam galpões do tipo compost barn, sistemas free stall, ventiladores e aspersores para reduzir o estresse térmico, um desafio importante em regiões de clima quente e úmido.
Menos vacas, mais produtividade
Para Hugo Pistilli, a pecuária leiteira moderna caminha em direção a um modelo muito diferente daquele de décadas atrás.
O objetivo já não é simplesmente aumentar o tamanho do rebanho.
A estratégia consiste em produzir mais leite com menos animais, aumentando a eficiência econômica da atividade.
“O objetivo da genética é ter menos vacas com maior produção”, resumiu o especialista.
Essa lógica também melhora indicadores como:
- eficiência alimentar;
- custo por litro produzido;
- longevidade das matrizes;
- rentabilidade do sistema.

Paraguai avança como referência em leite tropical
Embora a média nacional do Paraguai ainda esteja entre 15 e 16 litros por vaca/dia, devido à grande diversidade de sistemas produtivos, propriedades mais tecnificadas já superam 50 litros diários por animal.
Na própria Cabaña Penner, a média do rebanho ultrapassa 52 litros por vaca ao dia, desempenho comparável — e, em alguns casos, superior — ao registrado em importantes fazendas dos Estados Unidos.
Segundo Pistilli, produzir leite em ambiente tropical representa um desafio adicional.
“O Paraguai é líder regional na produção leiteira em clima tropical, porque produzir leite no calor não é fácil”, destacou.
Genética da campeã será multiplicada
Após o recorde, a prioridade da fazenda será preservar e multiplicar o patrimônio genético da vaca.
Segundo David Penner, o plano é que o animal volte a emprenhar e, posteriormente, participe de um programa de produção de embriões, permitindo que suas características sejam transmitidas para futuras gerações.
Essa estratégia é amplamente utilizada em rebanhos leiteiros de elite para acelerar o melhoramento genético e aumentar a produtividade das próximas gerações.
O que esse recorde ensina ao produtor?
Embora uma produção superior a 100 litros por dia esteja restrita a animais geneticamente excepcionais, o caso reforça um princípio cada vez mais evidente na pecuária leiteira moderna: os maiores ganhos de produtividade não dependem apenas da genética, mas da combinação entre seleção criteriosa, nutrição, manejo, sanidade e bem-estar animal.
Para o produtor brasileiro, o exemplo mostra que investir em conforto, alimentação de precisão e melhoramento genético pode elevar significativamente a eficiência do rebanho, reduzindo custos por litro produzido e aumentando a rentabilidade da atividade.
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