Pastagens ressecadas, perdas de até 60% nos estoques de forragem e queda na produção de leite pressionam criadores; seca na pecuária europeia e crise ocorre em um momento de maior rigor europeu sobre produtos brasileiros de origem animal
A forte seca que atinge diferentes regiões da Europa começa a produzir um efeito particularmente preocupante dentro das fazendas: pecuaristas estão consumindo agora a alimentação que deveria sustentar os rebanhos durante o próximo outono e inverno.
A situação expõe a dimensão do problema enfrentado pela pecuária europeia em 2026. Pastagens perderam capacidade de suporte, colheitas foram prejudicadas e fontes alternativas de alimentação ficaram mais escassas e caras, obrigando produtores a rever o manejo dos animais.
As informações são da Euractiv, que ouviu produtores e organizações agrícolas de diferentes países da União Europeia. A publicação relata que agricultores já recorrem antecipadamente aos estoques de inverno, enquanto outros começam a reduzir os rebanhos ou buscar alimentos alternativos.
O avanço da seca ocorre justamente em um momento de endurecimento das relações sanitárias e comerciais da União Europeia com fornecedores externos. No caso brasileiro, uma medida prevista para entrar em vigor em 3 de setembro afeta a autorização para determinados produtos de origem animal, sob alegações europeias relacionadas aos controles sobre o uso de antimicrobianos.
Pecuaristas começam a consumir o alimento reservado para o frio
O problema mais imediato está no cocho.
Com menos capim disponível, os produtores precisam complementar a dieta dos animais justamente quando deveriam aproveitar o período de pastoreio para preservar os estoques destinados aos meses frios.
Na França, a Confédération Paysanne apontou perdas nos estoques de forragem variando entre 30% e 60%, dependendo da região, segundo informações reunidas pela Euractiv.
A restrição ao acesso a determinadas áreas de pastagem, especialmente em locais atingidos por incêndios ou sob elevado risco de fogo, agravou ainda mais a situação.
O resultado é uma inversão preocupante do calendário alimentar das propriedades: ração e forragem que deveriam permanecer armazenadas para o outono e o inverno já estão sendo fornecidas aos animais durante o verão.
Yohann Barbe, presidente da Federação Nacional dos Produtores de Leite da França (FNPL), confirmou à Euractiv que os estoques reservados para os próximos meses já estão sendo utilizados.
“Se a situação continuar assim, corremos o risco de ficar sem”, afirmou Barbe à Euractiv.
Uma das alternativas aguardadas pelos produtores franceses é a colheita da beterraba açucareira. A polpa resultante do processamento pode ser destinada à alimentação animal e ajudar a aliviar temporariamente a pressão sobre as reservas.
Seca já derruba a produção de leite
A crise não aparece apenas nos estoques.
Segundo Barbe, a deterioração das pastagens contribuiu para uma redução entre 3% e 4% na produção de leite nas propriedades francesas afetadas.
O impacto é particularmente relevante porque parte importante da produção leiteira francesa durante o verão depende do pastoreio. Quando a disponibilidade e a qualidade da forragem diminuem, o efeito chega rapidamente à produtividade das vacas.
A combinação entre temperaturas elevadas e baixa disponibilidade de alimento cria ainda uma pressão dupla sobre os animais: enquanto o estresse térmico prejudica o desempenho, a deterioração das pastagens reduz a capacidade de compensar essa perda por meio da dieta.
O problema climático europeu em 2026 vem sendo acompanhado de perto. Em julho, a Euractiv já havia destacado estudo segundo o qual o calor extremo intensificou a perda de umidade dos solos, rios e lagos. A análise apontou que condições de solo extremamente seco se tornaram cinco vezes mais prováveis na Europa Ocidental e 11 vezes mais prováveis na Europa Oriental no clima atual.
Menos pasto pode significar mais animais enviados ao abate
A escassez de alimento traz uma segunda consequência para o mercado pecuário.
Diante da perspectiva de não possuir forragem suficiente para atravessar os próximos meses, alguns produtores europeus começam a reduzir o tamanho dos rebanhos e antecipar o envio de animais ao abate.
No curto prazo, esse movimento aumenta a oferta de gado e pode pressionar as cotações da carne. No médio prazo, porém, uma redução mais intensa do rebanho pode produzir o efeito contrário ao diminuir a disponibilidade futura de animais.
É uma dinâmica conhecida pelos pecuaristas brasileiros: quando o custo de manutenção sobe e a capacidade de suporte da propriedade cai, a decisão de descarte deixa de depender exclusivamente do preço do boi e passa a envolver disponibilidade de alimento, água e caixa.
Na Europa, entretanto, esse movimento ocorre em sistemas produtivos que tradicionalmente dependem fortemente das pastagens durante determinadas épocas do ano.
Espanha também sente o avanço do problema
A pressão não está restrita à França.
Na Espanha, pecuaristas enfrentam pastagens mais secas e elevação dos custos da alimentação animal.
Juan Luis Delgado, representante da organização agrícola ASAJA, relatou à Euractiv que temperaturas entre 32°C e 35°C já eram registradas em maio.
Mesmo depois de um inverno relativamente favorável em termos de precipitação, a chegada antecipada do calor acelerou o ressecamento das pastagens e diminuiu a disponibilidade de água.
Outro componente preocupa os produtores: as colheitas ruins de cereais e palha na Espanha e em outras regiões europeias reduzem justamente a disponibilidade das alternativas utilizadas quando o pasto não consegue alimentar o rebanho.
Na prática, o pecuarista enfrenta as duas pontas do problema: produz menos alimento dentro da propriedade e encontra alimentação complementar mais cara fora dela.
Alemanha flexibiliza regra para garantir alimentação dos animais
A gravidade da situação já provoca respostas governamentais.
Na Baviera, na Alemanha, autoridades flexibilizaram temporariamente regras aplicáveis às propriedades orgânicas, permitindo a aquisição de ração convencional diante de circunstâncias consideradas “catastróficas”, possibilidade prevista na legislação europeia.
A Irlanda também acompanha os estoques disponíveis antes de decidir sobre medidas adicionais. Diante das preocupações com o abastecimento durante o inverno, o governo pediu aos agricultores que calculem antecipadamente suas necessidades de alimentação animal.
São decisões que mostram que a seca deixou de ser apenas uma questão meteorológica e passou a interferir diretamente no planejamento produtivo.
Europa enfrenta seca em meio a incêndios e calor extremo
A dificuldade enfrentada pelos pecuaristas faz parte de um cenário climático mais amplo.
A Europa atravessou episódios severos de calor e incêndios florestais neste verão. No fim de julho, a Euractiv informou que incêndios já haviam atingido aproximadamente 435 mil hectares dentro da União Europeia, enquanto somente a Espanha acumulava mais de 150 mil hectares queimados em 2026 naquele momento.
O calor também acelerou a retirada de umidade dos solos. Segundo estudo divulgado pela Euractiv em julho, o problema não depende exclusivamente da falta de chuva: temperaturas mais elevadas aumentam a demanda evaporativa da atmosfera, retirando água do solo e da vegetação mais rapidamente.
Para uma atividade baseada em pastagens, isso significa que mesmo áreas que receberam precipitações razoáveis anteriormente podem perder rapidamente sua capacidade de produzir forragem.
O paradoxo para a pecuária europeia
O cenário ganha relevância adicional para o Brasil porque ocorre justamente quando a União Europeia aumenta exigências sobre determinados produtos brasileiros de origem animal.
Não significa, automaticamente, que a seca europeia abrirá espaço adicional para a carne brasileira. Questões sanitárias, regulatórias, comerciais e de rastreabilidade continuam determinantes para o acesso ao mercado europeu.
Mas existe um contraste econômico importante.
Enquanto autoridades europeias procuram elevar controles sobre produtos importados, os próprios pecuaristas do bloco enfrentam aumento do custo alimentar, queda de produtividade das pastagens e necessidade de reduzir rebanhos em algumas regiões.
A questão central passa a ser quanto tempo o atual quadro climático irá durar e, principalmente, quanto alimento estará disponível quando chegar o inverno.
Para Luc Vernet, secretário-geral do centro de estudos Farm Europe, a resposta não pode ficar restrita à atual emergência.
“Precisamos tanto de um plano de emergência quanto de um plano de investimento para evitar que a agricultura europeia fique para trás e fortalecer sua resiliência”, afirmou à Euractiv.
Para a pecuária, essa necessidade já está materializada dentro das propriedades: o alimento que deveria garantir segurança no inverno europeu começou a ser consumido meses antes da chegada do frio.
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