Uma equipe da Universidade Hebraica de Jerusalém obteve, em plantas, a síntese de β-caseína, componente central entre as proteínas presentes no leite bovino.
Com isso, torna-se possível pensar em ingredientes de origem láctea menos dependentes da criação tradicional de gado e com menor impacto ambiental.
Os resultados, divulgados na revista Frontiers in Plant Science, partiram de sementes de Arabidopsis alteradas geneticamente para sintetizar essa proteína do leite.
Os pesquisadores identificaram, no processo, um mecanismo celular das plantas ainda não documentado, capaz de influenciar futuramente os métodos de obtenção de proteínas do leite.
Por que cultivar proteína de leite em plantas
A demanda global por laticínios cresce continuamente, assim como as preocupações com as emissões de gases de efeito estufa, o uso de água e a ocupação de terras pela pecuária.
Nesse contexto, a agricultura molecular em plantas surgiu como uma abordagem para produzir proteínas lácteas autênticas sem depender de animais.
Produzir essas proteínas complexas em culturas agrícolas ainda é um grande desafio técnico, mas a pesquisa avança nesse caminho.
Essa possibilidade pode levar a alternativas para produzir proteínas lácteas com menor impacto ambiental.
A descoberta inesperada dos pesquisadores
Os cientistas esperavam que a proteína do leite se acumulasse dentro de vacúolos especializados, os compartimentos de armazenamento tradicionais das células vegetais.
Porém, a microscopia eletrônica de transmissão revelou algo completamente diferente.
A β-caseína se agrupou próximo a minúsculos corpos lipídicos, formando estruturas até então desconhecidas, semelhantes às micelas de caseína naturais do leite.
Usando marcação com nanopartículas de ouro, os pesquisadores capturaram esses aglomerados ricos em proteínas e mapearam sua localização celular inesperada.
As plantas com melhor desempenho produziram aproximadamente 1,26% de β-caseína em relação à proteína solúvel total das sementes.
O nível é superior ao registrado em muitos relatos anteriores de produção de caseína em plantas.
O caminho para alimentos mais sustentáveis
A pesquisa teve à frente o professor Oded Shoseyov, vinculado à Faculdade Robert H. Smith de Agricultura, Alimentação e Meio Ambiente, que integra a Universidade Hebraica de Jerusalém.
Assinam o trabalho, entre os principais responsáveis, Almog Ozeri, Mai Shamir, Miron Abramson, Barak Cohen e Amir Rudich.
O método desenvolvido pode contribuir para alternativas à pecuária. A descoberta de uma rota alternativa de armazenamento permite que as plantas acumulem a proteína e mantenham a germinação saudável das sementes.
Se ampliada em escala comercial, essa tecnologia pode transformar a forma como produzimos alimentos.
Cientistas também conseguiram fazer plantas de cártamo produzirem proteínas do leite, levando a tecnologia além da planta modelo Arabidopsis.
O cártamo é uma oleaginosa ideal porque cresce em climas quentes e terras áridas, o que a torna adequada ao cenário de aquecimento global e à crescente demanda por proteínas nutricionais.













