Transição energética pode reduzir oferta de enxofre e encarecer fertilizantes

Mais de 80% do enxofre comercializado globalmente é obtido como subproduto do petróleo e do gás, o que pode pressionar a produção de fertilizantes com o avanço da descarbonização

A oferta de enxofre pode diminuir nas próximas décadas com a redução da produção e do processamento de combustíveis fósseis. O elemento é uma matéria-prima essencial para a fabricação de fertilizantes e, atualmente, mais de 80% do volume comercializado no mundo é recuperado durante a dessulfurização do petróleo e do gás natural.

O risco foi apontado por pesquisadores da University College London e de outras instituições em estudo publicado na revista científica The Geographical Journal. Segundo o trabalho, a descarbonização da economia pode reduzir a disponibilidade do enxofre justamente em um período de aumento da demanda agrícola e mineral.

A situação também expõe uma vulnerabilidade logística. Em entrevista à CNN Internacional, o CEO da Fertiglobe, Ahmed El-Hoshy, afirmou que aproximadamente 47% do enxofre comercializado globalmente passa pelo Estreito de Ormuz. A rota é estratégica para o transporte de fertilizantes e matérias-primas provenientes do Oriente Médio.

Tensões ou bloqueios na região podem, portanto, afetar a oferta de enxofre, elevar os custos logísticos e pressionar os preços pagos pela indústria de fertilizantes.

Oferta de enxofre depende da indústria fóssil

O enxofre é retirado do petróleo e do gás durante processos industriais destinados a reduzir a emissão de poluentes. Em vez de ser produzido exclusivamente por mineração, o elemento chega ao mercado principalmente como subproduto das refinarias.

Essa relação cria um efeito contraditório. Quanto mais rápida for a substituição dos combustíveis fósseis, menor poderá ser a quantidade de enxofre recuperada por esse processo.

Os pesquisadores estimam que uma redução acelerada da atividade petrolífera, sem o desenvolvimento de fontes alternativas, poderá provocar um déficit anual de 100 milhões a 320 milhões de toneladas de ácido sulfúrico até 2040.

O ácido sulfúrico é produzido a partir do enxofre e utilizado, entre outras finalidades, na fabricação de fertilizantes fosfatados.

Nutriente é essencial para as lavouras

O enxofre participa da formação de proteínas, aminoácidos e enzimas nas plantas. Também contribui para o aproveitamento do nitrogênio, nutriente diretamente relacionado ao desenvolvimento e à produtividade das culturas.

De acordo com a International Fertilizer Association, a deficiência de enxofre pode limitar o rendimento das lavouras mesmo quando nitrogênio, fósforo e potássio são aplicados corretamente.

No Brasil, o nutriente é importante para culturas como soja, milho, algodão, cana-de-açúcar e café.

A necessidade de reposição é maior em solos tropicais com baixos teores de matéria orgânica e elevada perda de nutrientes por lixiviação. Estudos da Embrapa sobre os solos do Cerrado mostram que a adubação sulfurada é necessária em diferentes sistemas produtivos.

Redução da poluição mudou a adubação

A demanda por fertilizantes sulfurados também aumentou com a melhora da qualidade do ar.

Durante décadas, parte do enxofre utilizado pelas plantas chegava ao solo por meio da deposição atmosférica. A queima de carvão, petróleo e outros combustíveis liberava dióxido de enxofre, que retornava à superfície com as chuvas.

Com a adoção de regras ambientais mais rígidas e tecnologias de controle de emissões, essa deposição foi reduzida.

Estudo publicado na revista Communications Earth & Environment, do grupo Nature, relaciona a queda do enxofre presente na atmosfera ao aumento da necessidade de fertilizantes sulfurados.

Na prática, a redução da poluição transferiu para o produtor a responsabilidade de repor um nutriente que antes chegava parcialmente às lavouras de forma involuntária.

Mineração também disputa o enxofre

Além da agricultura, o enxofre é utilizado no processamento de minerais necessários à transição energética.

O ácido sulfúrico participa da produção de cobre, níquel, lítio e outros materiais empregados em baterias, veículos elétricos, painéis solares e turbinas eólicas.

Segundo os pesquisadores da University College London, o crescimento da mineração de minerais estratégicos poderá aumentar a disputa pelo enxofre entre a indústria de fertilizantes e o setor de energia limpa.

Essa concorrência pode elevar os preços do insumo mesmo antes de uma eventual redução mais acentuada na produção mundial.

Brasil está exposto à alta dos fertilizantes

O Brasil é particularmente sensível a alterações na oferta de enxofre por depender da importação de fertilizantes e matérias-primas utilizadas em sua fabricação.

Além da dependência externa, grande parte da produção brasileira de grãos está concentrada em regiões com solos naturalmente pobres em enxofre. Isso exige reposição frequente para manter a produtividade das lavouras.

Uma eventual restrição internacional poderá chegar ao campo por meio do aumento dos preços dos fertilizantes fosfatados e sulfurados, do frete marítimo e dos custos de produção.

Não há, neste momento, uma escassez global de enxofre. O alerta é para um risco de médio e longo prazo, provocado pela combinação entre menor produção de combustíveis fósseis, aumento da demanda agrícola, expansão da mineração e concentração das rotas de comércio.

O cenário exige novas fontes de produção, maior reciclagem de ácido sulfúrico e diversificação dos fornecedores. Sem essas medidas, a transição energética poderá reduzir a disponibilidade do insumo e ampliar a pressão sobre o custo dos fertilizantes.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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