Tornado com ventos de até 250 km/h e granizo devastam lavouras no Sul; 84 municípios são atingidos

Temporais provocam destruição em plantações de milho, soja, trigo, tabaco e frutas; Defesa Civil registra mais de 20 mil pessoas afetadas no Rio Grande do Sul, enquanto produtores começam a contabilizar perdas na safra 2026/27.

A primeira semana de novembro de 2026 está sendo marcada por uma sequência de eventos meteorológicos extremos no Sul do Brasil, com consequências preocupantes para a produção agropecuária. Um tornado com ventos estimados entre 180 e 250 km/h atingiu Maringá, no Paraná, enquanto fortes temporais acompanhados de granizo e vendavais provocaram destruição em propriedades rurais do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. Os prejuízos atingem lavouras de milho, soja, trigo, tabaco e frutíferas, justamente em um período decisivo para o desenvolvimento das culturas de verão e a conclusão da colheita de inverno.

No Rio Grande do Sul, a situação já mobiliza equipes de assistência técnica e órgãos estaduais. Segundo balanço da Defesa Civil divulgado na quarta-feira (4), 84 municípios registraram danos, 20.042 pessoas foram afetadas e 20 ficaram feridas. O levantamento também contabilizou 90 ocorrências relacionadas principalmente a granizo, vendavais, chuvas intensas e enxurradas.

No campo, a extensão dos prejuízos ainda está sendo dimensionada. A Emater/RS-Ascar iniciou o levantamento das perdas agrícolas, com registros de danos em mais de 20 municípios e solicitações de laudos técnicos por parte de produtores e prefeituras.

O cenário preocupa porque a combinação de ventos destrutivos, granizo e excesso de umidade pode comprometer o potencial produtivo de áreas que já receberam investimentos expressivos em sementes, fertilizantes, defensivos e operações de plantio.

Tornado F2 deixa rastro de destruição de aproximadamente 15 quilômetros no Paraná

Um dos episódios mais impressionantes ocorreu na madrugada de segunda-feira (2), em Maringá, no norte paranaense.

Após análises meteorológicas e inspeções em campo, o Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar) confirmou que a cidade foi atingida por um tornado classificado como F2 na escala Fujita.

A classificação corresponde a ventos estimados entre 180 e 250 km/h, capazes de provocar danos estruturais severos, derrubar árvores de grande porte e destruir construções.

O trabalho técnico identificou um rastro de aproximadamente 15 quilômetros de extensão, iniciado na região sudoeste do município.

Durante as inspeções, meteorologistas encontraram telhas arremessadas a distâncias superiores a 1.300 metros e chapas de zinco deslocadas por mais de 300 metros. Árvores arrancadas, estruturas de alvenaria danificadas e galpões destruídos reforçaram a identificação do fenômeno.

De acordo com o Simepar, o tornado esteve associado à formação de uma supercélula, um tipo de tempestade altamente organizada que pode produzir fenômenos meteorológicos severos.

É importante destacar que os 250 km/h representam o limite superior da faixa de velocidade estimada para a classificação F2, não uma medição direta dessa velocidade em todas as localidades atingidas pelos temporais.

Embora Maringá tenha concentrado os danos provocados pelo tornado, os demais eventos registrados no Sul envolveram diferentes sistemas de tempestades, com intensidades e características próprias.

Foto de Rádio Sarandi / Reprodução

Rio Grande do Sul tem lavouras de milho, trigo e tabaco atingidas pelo granizo

No território gaúcho, os temporais atingiram principalmente municípios das regiões Norte, Noroeste e Central, além de outras áreas produtoras.

Entre as localidades com registros de prejuízos rurais estão Espumoso, Tapera, Quinze de Novembro, Júlio de Castilhos, Passo Fundo, Água Santa, Fortaleza dos Valos, Selbach e Nova Prata.

O levantamento inicial da Emater aponta impactos significativos nas lavouras de milho. Também foram identificados danos em áreas de trigo e tabaco.

Na região central, municípios como Santa Maria, Agudo, Cerro Branco, Toropi e Restinga Sêca tiveram registros de prejuízos na cultura do tabaco.

A preocupação é especialmente elevada nas propriedades atingidas por pedras de granizo de maior tamanho. Dependendo da intensidade e do estágio de desenvolvimento das plantas, o fenômeno pode causar desde lesões foliares até destruição de estruturas vegetativas e reprodutivas.

No milho, a gravidade das perdas depende da fase da cultura. Quando o granizo ocorre próximo ao pendoamento, florescimento ou enchimento de grãos, os impactos podem ser muito superiores aos observados em lavouras jovens.

Isso acontece porque a destruição de folhas reduz a capacidade fotossintética da planta, enquanto danos ao pendão, às espigas e às estruturas reprodutivas podem comprometer diretamente a formação dos grãos.

Em estágios mais iniciais, parte das plantas pode apresentar recuperação, dependendo da integridade do ponto de crescimento e da intensidade das lesões.

Por isso, mesmo propriedades onde o milho permanece em pé podem apresentar perda de produtividade, situação que exige avaliação técnica antes de qualquer decisão sobre replantio ou manutenção da área.

Soja pode enfrentar necessidade de replantio e atrasos no calendário agrícola

Além dos danos já identificados em diferentes culturas, a sequência de temporais preocupa os produtores de soja que estão conduzindo a implantação da safra 2026/27.

No caso das lavouras recém-semeadas, chuvas intensas podem provocar encharcamento, erosão, formação de crostas superficiais e arraste de sementes.

Quando há granizo sobre plantas emergidas, a recuperação depende da fase de desenvolvimento, da intensidade da desfolha e da preservação dos pontos de crescimento.

A perda de população de plantas pode exigir replantio em situações mais graves, aumentando os custos operacionais e alterando o planejamento da propriedade.

Outro problema é o atraso das operações agrícolas. Solos excessivamente úmidos dificultam o acesso de máquinas e podem impedir a realização de aplicações, adubações e demais manejos no momento adequado.

O prolongamento dessas condições ainda pode favorecer determinadas doenças, tornando indispensável o acompanhamento fitossanitário.

Apesar dos danos localizados, ainda não há levantamento consolidado que permita afirmar qual será a redução de produção da soja ou do milho em escala estadual ou nacional.

Santa Catarina também enfrenta temporais e ameaça às lavouras de tabaco

Em Santa Catarina, a combinação de chuva volumosa, ventos fortes e granizo colocou diferentes regiões em alerta.

A Epagri/Ciram, responsável pelo monitoramento meteorológico estadual, havia identificado condições favoráveis à ocorrência de tempestades severas entre os dias 3 e 4 de novembro.

O risco era especialmente elevado nas regiões do Extremo Oeste, Oeste, Meio-Oeste e planaltos, embora a instabilidade também alcançasse outras áreas catarinenses.

O órgão apontou a possibilidade de rajadas superiores a 60 km/h, com tempestades isoladas capazes de produzir fenômenos ainda mais intensos.

Na agricultura, o tabaco está entre as culturas mais vulneráveis aos episódios de granizo. As folhas representam o principal produto comercializado, e danos físicos podem comprometer diretamente sua qualidade e classificação.

Além da perda de área foliar, a ocorrência de ferimentos pode prejudicar o desenvolvimento das plantas e reduzir o aproveitamento comercial.

A intensidade do prejuízo varia conforme o estágio de desenvolvimento e a extensão dos danos. Em situações extremas, talhões inteiros podem perder sua viabilidade econômica.

A dimensão total das perdas nas lavouras catarinenses, entretanto, ainda depende de levantamentos técnicos consolidados.

Prejuízos vão além das lavouras e podem comprometer a estrutura das propriedades

Os impactos econômicos dos temporais não se limitam às culturas agrícolas.

O avanço das tempestades também provocou registros de danos em galpões, estradas, redes elétricas e outras estruturas essenciais às atividades rurais.

Para o produtor, essas ocorrências podem representar despesas adicionais com reparos, retirada de árvores, recuperação de acessos e substituição de equipamentos ou instalações danificadas.

Na pecuária, estruturas de confinamento, galpões de armazenamento de ração, instalações leiteiras, cercas e sistemas de fornecimento de água e energia também estão sujeitos aos efeitos de vendavais e granizo.

Interrupções no abastecimento elétrico podem afetar sistemas de ordenha e refrigeração do leite, enquanto estradas comprometidas dificultam o transporte de animais, insumos e produtos.

Em propriedades com produção integrada ou atividades diversificadas, o impacto pode atingir simultaneamente diferentes fontes de receita.

Esse cenário amplia a importância dos levantamentos de campo, uma vez que a perda econômica efetiva pode ser significativamente maior do que o valor das culturas diretamente destruídas.

El Niño aumenta a preocupação com novos eventos extremos na safra 2026/27

A sequência de tempestades ocorre em um momento de atenção redobrada ao comportamento climático no Sul do país.

Em perspectiva divulgada em 29 de outubro, a Epagri/Ciram apontou a influência de um El Niño muito forte, com expectativa de chuvas acima da média em Santa Catarina durante o trimestre de novembro e dezembro de 2026 e janeiro de 2027, especialmente na região Oeste.

O órgão também destacou o risco de temporais com raios, granizo, ventos fortes e episódios de chuva persistente.

A atuação do El Niño altera os padrões de circulação atmosférica e pode favorecer períodos mais chuvosos no Sul do Brasil.

Entretanto, isso não significa que todos os temporais ou tornados registrados na região sejam provocados diretamente pelo fenômeno climático. A formação de tempestades severas depende de condições atmosféricas específicas, como disponibilidade de umidade, instabilidade e mudanças na velocidade ou direção dos ventos com a altitude.

Para o agronegócio, o principal ponto de atenção é o aumento da exposição a condições meteorológicas desfavoráveis durante uma fase decisiva da safra.

Mesmo em anos com boa disponibilidade hídrica, a distribuição irregular das chuvas e a ocorrência de eventos extremos podem gerar perdas relevantes.

Inmet mantém alerta de tempestades para esta quinta-feira (5)

O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) publicou aviso de perigo potencial para tempestades válido durante esta quinta-feira, 5 de novembro.

Entre as áreas abrangidas estão regiões do Paraná e de Santa Catarina, além de localidades de outros estados brasileiros.

O comunicado prevê:

  • Chuvas entre 20 e 30 milímetros por hora, ou acumulados de até 50 milímetros por dia;
  • Ventos entre 40 e 60 km/h;
  • Possibilidade de queda de granizo;
  • Risco de interrupções pontuais de energia, alagamentos, quedas de galhos e danos às plantações.

Os avisos meteorológicos indicam condições favoráveis à ocorrência desses fenômenos, mas não significam que todos os municípios incluídos serão atingidos com a mesma intensidade.

Diante desse cenário, produtores rurais devem acompanhar as atualizações do Inmet, das Defesas Civis estaduais e dos serviços meteorológicos regionais.

O que o produtor deve fazer após os danos provocados por granizo e vendavais?

Com a redução das condições de risco e a liberação do acesso às áreas atingidas, a prioridade é realizar um levantamento organizado dos prejuízos.

O produtor deve registrar fotograficamente as áreas afetadas, identificar talhões, anotar o estágio de desenvolvimento das culturas e procurar assistência técnica para avaliar o potencial de recuperação das plantas.

Em propriedades com seguro rural, é essencial comunicar o sinistro à seguradora dentro dos prazos contratuais e preservar as evidências dos danos.

Nos casos de operações vinculadas ao Proagro ou a outros instrumentos de proteção da produção, devem ser observados os procedimentos específicos de comunicação e comprovação das perdas.

A emissão de laudos agronômicos pode ser decisiva para documentar a extensão dos danos, subsidiar pedidos de cobertura securitária e fundamentar eventuais solicitações de medidas emergenciais.

Antes de realizar replantio, dessecação ou qualquer intervenção que modifique a condição da lavoura, é recomendável verificar as exigências do seguro ou do programa de cobertura, além de obter orientação profissional.

Também é necessário evitar a aproximação de fios elétricos caídos, árvores instáveis, galpões comprometidos e áreas inundadas.

Extensão dos prejuízos ainda será determinada

Embora os estragos observados em diversas localidades sejam expressivos, ainda não existe um balanço consolidado de hectares destruídos, toneladas de produção comprometidas ou prejuízo financeiro total nos três estados do Sul.

As equipes de assistência técnica seguem realizando levantamentos e recebendo solicitações de laudos para identificação dos danos.

A avaliação definitiva dependerá não apenas das condições atuais das lavouras, mas também da capacidade de recuperação das plantas, do avanço do ciclo produtivo e das condições climáticas nas próximas semanas.

Para a safra 2026/27, os episódios representam um alerta importante: mesmo quando as perspectivas de produção são favoráveis, eventos meteorológicos extremos podem alterar rapidamente os custos, o calendário de manejo e o potencial produtivo.

O desafio agora é dimensionar as perdas, garantir a segurança das famílias rurais e permitir que os produtores afetados retomem suas atividades com o menor comprometimento possível da produção e da renda.

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