Juros elevados, corte no seguro rural, restrição dos bancos, perdas climáticas e queda das commodities formam uma crise que já compromete o financiamento da safra 2026/27
O alerta feito pela senadora e ex-ministra da Agricultura Tereza Cristina não poderia surgir em momento mais preocupante. Na avaliação dela, o agronegócio brasileiro já está no centro de uma “tempestade perfeita”, formada por perdas climáticas, preços menores das commodities, juros elevados, oscilações cambiais, redução do seguro rural e dificuldade crescente para acessar financiamento.
Os números do crédito confirmam que não se trata apenas de uma percepção política. Nos dois primeiros meses da safra 2026/27, os desembolsos do crédito rural somaram R$ 44,3 bilhões, queda de 37,8% em relação aos R$ 71,3 bilhões liberados no mesmo período do ciclo anterior.
O número de contratos também diminuiu 34,4%, para 300.312 operações. Todas as finalidades apresentaram retração: o custeio caiu 33,1%, enquanto o investimento despencou 53,8%.
Ou seja: justamente quando o produtor precisa comprar insumos, preparar o solo, plantar e investir em máquinas, o dinheiro está chegando em menor volume, para menos pessoas e a um custo muito mais alto.
A tempestade chegou ao caixa das fazendas
Em entrevista à colunista Janaína Figueiredo, do UOL, Tereza Cristina enumerou os fatores que pressionam o setor. “O agro vive uma tempestade perfeita, ela chegou. Tivemos secas e enchentes no Rio Grande do Sul, seca em vários lugares do Brasil; temos uma taxa de juros de 15% e o que chega para o produtor agropecuário é mais de 18% ou 20%”, afirmou.
A senadora também mencionou a queda das commodities em relação aos patamares observados em 2020 e o risco cambial. O agricultor compra fertilizantes, defensivos e outros insumos com determinada cotação do dólar, mas pode comercializar a produção meses depois com o câmbio em outro nível.
O resultado é um descasamento perigoso: custos elevados, receita incerta e financiamento cada vez mais pesado.
Mesmo após o início da redução da Selic, os juros continuam em níveis incompatíveis com atividades que dependem de ciclos produtivos longos, clima e margens frequentemente estreitas. E os efeitos de uma eventual flexibilização monetária demoram para chegar à ponta.
Crédito rural anunciado não é crédito na conta
O Plano Safra 2026/27 foi apresentado pelo governo federal com R$ 525,1 bilhões para a agricultura empresarial. Entretanto, o resultado dos dois primeiros meses mostra a distância entre o volume anunciado e o recurso efetivamente contratado.
Desconsiderando as Cédulas de Produto Rural, os R$ 44,3 bilhões liberados em julho e agosto representam apenas 10,6% do total programado para o ciclo.
A retração atingiu o Pronaf, o Pronamp e os demais produtores da agricultura empresarial. Neste último grupo, o recuo chegou a 46,5%.
Os números são especialmente preocupantes porque o crédito oficial deveria funcionar como amortecedor justamente em momentos de maior instabilidade. Quando o financiamento subsidiado encolhe, o produtor é empurrado para recursos livres, CPRs, revendas, fundos e empréstimos bancários com taxas mais elevadas.
Tereza Cristina alertou para a possibilidade de formação de uma bola de neve. “Quem está endividado vai piorar, porque não tem acesso, vai para o mercado pegar dinheiro com agiota ou pegar dinheiro com as revendas, que já também não estão dando porque começaram a ficar com problemas.”
“O custo do dinheiro está quebrando o agro”
O diagnóstico da senadora reforça o alerta feito pelo advogado Túlio Parca, especialista em Direito do Agronegócio. Em artigo publicado no Compre Rural, ele argumentou que o principal problema atual não está na capacidade produtiva dentro das fazendas, mas no ambiente financeiro construído fora delas. “O produtor rural continua fazendo sua parte dentro da porteira. O que mudou foi o ambiente econômico. Hoje, muitos trabalham apenas para pagar juros, e isso torna qualquer atividade inviável no longo prazo”, afirma Túlio Parca.
Segundo dados citados pelo advogado, o país chegou a 1.263 produtores rurais em recuperação judicial no primeiro semestre de 2026. O avanço foi de 66% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Considerando fornecedores, agroindústrias e empresas de comercialização, 1.575 CNPJs ligados ao agronegócio já estavam em recuperação judicial.
Os números ajudam a desmontar a ideia de que toda crise financeira no campo seria resultado de má gestão. Evidentemente existem empreendimentos mal administrados, mas a velocidade e a abrangência da deterioração mostram um problema sistêmico.
Produtores eficientes também foram atingidos pela sequência de secas, enchentes, queda das margens, encarecimento dos insumos e juros elevados. Quando as dívidas anteriores precisam ser renovadas a taxas superiores à rentabilidade da fazenda, até uma boa safra pode ser insuficiente para recuperar o caixa.
Inadimplência chegou a R$ 48 bilhões
A inadimplência do agronegócio alcançou R$ 48 bilhões em julho de 2026, segundo dados apresentados pelo UOL. Cinco anos antes, o volume era de aproximadamente R$ 2 bilhões.
Isso representa uma alta de 2.300% no período. A taxa de inadimplência avançou de 0,54% para 5,63%.
A reação das instituições financeiras tem sido aumentar as exigências, restringir novas operações e reforçar garantias. Do ponto de vista bancário, trata-se de uma tentativa de proteger o capital diante da piora da carteira. Para o produtor, porém, o fechamento das portas ocorre justamente quando ele mais precisa de prazo para reorganizar as dívidas e continuar produzindo.
Forma-se, assim, um círculo vicioso: o juro elevado deteriora o caixa, a inadimplência aumenta, os bancos restringem o financiamento e a falta de crédito agrava ainda mais a inadimplência.
“O custo do dinheiro está quebrando o agro”, resume Túlio Parca. Para ele, esperar que uma nova safra resolva sozinha um passivo financeiro acumulado pode tornar a situação ainda mais grave.
Seguro rural praticamente desapareceu
Outro componente central da crise é o enfraquecimento do seguro rural. Segundo Tereza Cristina, a cobertura, que já alcançou 14% das lavouras brasileiras, hoje está abaixo de 3%. “O produtor rural brasileiro não tem seguro rural. Este governo não estimulou, muito pelo contrário. O seguro, que já era uma coisa pífia, ficou pior ainda”, criticou.
Sem seguro suficiente, os prejuízos provocados por seca, excesso de chuva, granizo ou enchentes recaem diretamente sobre o caixa das propriedades e, posteriormente, sobre os bancos, cooperativas e fornecedores.
A ausência de uma política robusta de seguro também eleva o risco das operações e contribui para o encarecimento ou a restrição do crédito. O governo economiza no subsídio ao seguro, mas o país acaba pagando uma conta muito maior em renegociações, inadimplência, recuperação judicial e perda de capacidade produtiva.
Afinal, quem é responsável pela crise?
Não existe um único culpado pela “tempestade perfeita”. Secas, enchentes, câmbio e preços internacionais não são controlados diretamente por um governo. Entretanto, a intensidade dos danos está ligada às decisões tomadas — ou adiadas — em Brasília e no sistema financeiro.
O governo federal tem responsabilidade pela insuficiência do seguro rural, pela dificuldade de transformar o valor anunciado no Plano Safra em dinheiro efetivamente acessível e por não apresentar, com a velocidade necessária, uma solução ampla para produtores economicamente viáveis atingidos por sucessivas perdas.
A política fiscal também entra nessa conta. Quando os gastos públicos e as incertezas fiscais mantêm elevada a percepção de risco, abre-se menos espaço para uma redução consistente dos juros.
O Banco Central, por sua vez, manteve a política monetária restritiva para combater a inflação. A decisão tem justificativa macroeconômica, mas cobra um preço pesado do setor produtivo. Mesmo com a Selic iniciando uma trajetória de queda, os recursos disponíveis aos produtores continuam chegando a 18%, 20% ou até mais.
Os bancos também têm sua parcela de responsabilidade quando respondem à crise apenas fechando o crédito, endurecendo contratos e acelerando a execução de garantias, sem distinguir produtores inviáveis daqueles que enfrentam uma dificuldade temporária provocada pelo clima ou pelo mercado.
Não se pode, contudo, ignorar a responsabilidade individual de operações excessivamente alavancadas ou de investimentos feitos sem planejamento. Mas atribuir toda a crise à gestão do produtor seria ignorar a queda generalizada do crédito, o salto da inadimplência e a explosão das recuperações judiciais em praticamente todas as cadeias.
Governo e frigoríficos também falharam diante da União Europeia
A tempestade não está limitada ao financiamento. Tereza Cristina também criticou a resposta brasileira às novas exigências sanitárias da União Europeia relacionadas ao uso de antimicrobianos.
As barreiras atingem produtos como carne bovina, aves, pescados e mel. Segundo a senadora, Argentina e Uruguai começaram a adaptar seus sistemas com antecedência, enquanto o Brasil deixou as providências para perto da entrada em vigor das exigências. “A responsabilidade é dos frigoríficos e do governo, que devia ter atuado de maneira mais forte antecipadamente. Demoraram demais para tomar a medida”, afirmou.
Na avaliação da ex-ministra, o Brasil pode perder mercado durante pelo menos dois anos, especialmente na carne bovina. Além do impacto comercial imediato, existe o risco de que outros países adotem restrições semelhantes.
Nesse ponto, a responsabilidade é mais direta: faltaram antecipação, coordenação entre governo e setor privado e adaptação sanitária no prazo exigido por um mercado que já vinha avisando sobre as mudanças.
A conta pode chegar à próxima safra
A queda de 37,8% nos desembolsos não significa automaticamente uma redução equivalente na produção, porque parte dos produtores pode recorrer a capital próprio ou instrumentos privados. Mas mostra que uma parcela crescente do campo está plantando com menos proteção, mais endividamento e dinheiro mais caro.
A retração de 53,8% no crédito para investimentos também compromete decisões de longo prazo. Máquinas, irrigação, armazenagem, recuperação de pastagens, tecnologia e infraestrutura tendem a ser adiadas quando o financiamento desaparece.
O Brasil continua competitivo, produzindo e exportando. O risco é permitir que propriedades produtivas sejam desmontadas por uma crise financeira que poderia ser atenuada com seguro rural, crédito acessível, renegociação criteriosa e maior previsibilidade econômica.
A “tempestade perfeita” descrita por Tereza Cristina não nasceu de um único evento. Ela foi formada pela sobreposição de problemas climáticos, comerciais, fiscais, monetários e financeiros. Parte deles era inevitável. Parte poderia ter sido antecipada.
Agora, com o crédito rural recuando, a inadimplência em R$ 48 bilhões e as recuperações judiciais avançando, negar a gravidade da situação pode ser tão perigoso quanto a própria crise. O produtor continua fazendo sua parte dentro da porteira. Falta saber se o governo, o Banco Central, os bancos e o restante da cadeia farão o mesmo fora dela.
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