Levantamento atribuído à Emater/RS aponta perdas em dez municípios e 12 atividades agropecuárias; produção de pêssego concentra mais da metade do prejuízo estimado na região
O temporal que atingiu o Sul do Rio Grande do Sul em 21 de setembro deixou uma conta milionária dentro das propriedades rurais. Levantamento da Emater/RS, consolidado em 28 de setembro, estima em R$ 42,6 milhões os prejuízos em dez municípios da região, considerando danos registrados em 12 segmentos da agropecuária.
A fruticultura aparece no centro das perdas. Apenas os pomares de pêssego tiveram prejuízo estimado em R$ 24,32 milhões, o equivalente a aproximadamente 57% de todo o valor contabilizado. Também houve impactos relevantes em benfeitorias, insumos, morango, canola, hortaliças, produção leiteira, fumo, trigo, oliveiras e apicultura.
A avaliação econômica dá uma nova dimensão aos efeitos do episódio climático. Nos primeiros momentos após a tempestade, os registros estavam concentrados em quedas de árvores, destelhamentos, falta de energia e danos à infraestrutura. Com o avanço das vistorias nas propriedades, passou a ser possível mensurar parte do impacto diretamente sobre a produção rural.
Pelotas responde por quase metade do prejuízo apurado
Entre os municípios avaliados, Pelotas apresenta a maior perda financeira: R$ 20.112.500, aproximadamente 47% do total regional.
O pêssego responde pela maior parte desse montante, com R$ 18,57 milhões em danos. As estruturas utilizadas na produção de frutas e hortaliças tiveram perdas avaliadas em R$ 800 mil, enquanto a canola soma outros R$ 742,5 mil.
A intensidade do fenômeno no município foi confirmada por levantamentos oficiais. Na madrugada do dia 21, a estação da Defesa Civil de Pelotas registrou 42 milímetros de chuva e ventos de até 89 km/h. A Secretaria de Desenvolvimento Rural começou ainda no mesmo dia a percorrer os oito distritos do município para avaliar estradas, propriedades e áreas produtivas.
Nos dias seguintes, a extensão dos estragos continuou aparecendo. A prefeitura contabilizou mais de mil árvores tombadas ou danificadas, tanto na zona urbana quanto rural, enquanto problemas de energia e comunicação dificultaram inicialmente a avaliação completa das comunidades do interior.
Pêssego concentra R$ 24,3 milhões em perdas
Nenhuma atividade rural apresentou impacto financeiro tão elevado quanto a produção de pêssego.
Além dos R$ 18,57 milhões registrados em Pelotas, os danos foram estimados em R$ 4,75 milhões em Canguçu e R$ 1 milhão em Piratini. Juntos, os três municípios chegam aos R$ 24,32 milhões atribuídos à cultura.
A concentração é significativa porque significa que, de cada R$ 100 contabilizados no levantamento regional, aproximadamente R$ 57 estão associados aos pomares de pêssego.
Diferentemente de danos pontuais em infraestrutura, perdas em frutas podem atingir diretamente a receita esperada pelo agricultor naquela safra. Ventos fortes e granizo podem derrubar frutos, causar lesões que reduzem seu valor comercial e comprometer partes produtivas das plantas.
O episódio ocorreu dentro de uma sequência de condições severas observadas no Rio Grande do Sul em setembro. Antes da tempestade, a Defesa Civil já alertava para a possibilidade de granizo de grande porte e rajadas superiores a 100 km/h em diferentes áreas do Estado.
O risco de eventos extremos no período já vinha sendo acompanhado diante da sequência de tempestades severas registrada no Centro-Sul do país.
Estruturas e insumos elevam prejuízo fora dos pomares
O segundo maior grupo de perdas está relacionado a benfeitorias e insumos, com aproximadamente R$ 8,83 milhões.
A maior parcela foi registrada em Capão do Leão, onde esse tipo de dano chegou a R$ 7,5 milhões. Somando todas as atividades afetadas, o município contabiliza R$ 8.438.460 em prejuízos, ficando atrás apenas de Pelotas no levantamento regional.
Além das estruturas e insumos, Capão do Leão registrou perdas de:
- R$ 508,6 mil na canola;
- R$ 187,5 mil no morango;
- R$ 165 mil na produção de leite;
- R$ 52,36 mil no trigo;
- R$ 25 mil em hortaliças.
A destruição de estruturas representa uma dificuldade adicional para o produtor porque o impacto não termina necessariamente com a perda de uma cultura. Estufas, coberturas e instalações precisam ser reparadas ou substituídas para que a propriedade consiga recuperar sua capacidade produtiva.
Canguçu, Turuçu e Piratini têm perdas superiores a R$ 2 milhões
Canguçu ocupa a terceira posição no levantamento, com prejuízo total estimado em R$ 5.158.000.
Quase todo o montante está relacionado ao pêssego: R$ 4,75 milhões. O município ainda contabiliza R$ 320 mil em estruturas destinadas a hortaliças e frutas, R$ 48 mil na atividade leiteira e R$ 40 mil em estufas utilizadas na produção de fumo.
Em Turuçu, as perdas atingem R$ 2.385.120. O fumo aparece com R$ 1.149.120, seguido pelo morango, com R$ 1,056 milhão, e pelas hortaliças, com R$ 180 mil.
Já Piratini soma R$ 2.343.201, distribuídos principalmente entre pêssego e morango, com R$ 1 milhão para cada cultura. Os olivais tiveram prejuízo de R$ 240 mil, enquanto a produção leiteira respondeu por pouco mais de R$ 103 mil.
Morango, canola e hortaliças também entram na conta
Embora o pêssego seja responsável pelo maior impacto financeiro, a distribuição das perdas revela que o temporal atingiu sistemas produtivos bastante diferentes.
O morango soma cerca de R$ 2,54 milhões em Capão do Leão, Turuçu, Piratini e Rio Grande.
Na canola, os registros de Pelotas, Capão do Leão e Pedro Osório totalizam aproximadamente R$ 1,69 milhão.
As hortaliças também sofreram prejuízos milionários. Só Arroio do Padre contabiliza R$ 1,176 milhão nessa atividade. Considerando também Capão do Leão, Turuçu, Rio Grande e Pinheiro Machado, o valor passa de R$ 1,46 milhão.
Esses números ajudam a mostrar por que eventos com vento forte, granizo e chuva intensa podem produzir efeitos muito diferentes dentro de uma mesma região. Cada atividade tem calendário, estruturas e níveis de exposição próprios.
Os efeitos do excesso de precipitação sobre áreas agrícolas também dependem das características do solo e da drenagem. Em situações prolongadas, o excesso de água pode causar estresse nas lavouras, além dos danos físicos provocados diretamente pelo vento e pelo granizo.
Confira o prejuízo estimado em cada município
A soma dos valores informados para os dez municípios chega a R$ 42.568.823:
Município Prejuízo estimado Pelotas R$ 20.112.500 Capão do Leão R$ 8.438.460 Canguçu R$ 5.158.000 Turuçu R$ 2.385.120 Piratini R$ 2.343.201 Pedro Osório R$ 1.304.200 Arroio do Padre R$ 1.206.190 Rio Grande R$ 1.076.652 São Lourenço do Sul R$ 500.000 Pinheiro Machado R$ 44.500
O total exato explica o valor de R$ 42,6 milhões utilizado no balanço quando arredondado para uma casa decimal.
O levantamento ainda não representa necessariamente a conta definitiva para a zona rural do Sul gaúcho. São José do Norte não entrou nessa consolidação porque os dados do município ainda não haviam sido finalizados no momento do fechamento das informações.
Temporal atingiu diferentes regiões do Rio Grande do Sul
A tempestade do dia 21 não ficou restrita ao Sul. Segundo a Defesa Civil estadual, a sequência de instabilidades entre os dias 20 e 21 provocou chuva intensa, vendavais, granizo, enxurradas, deslizamentos e outros danos em diferentes regiões do Rio Grande do Sul.
O órgão informou que 151 municípios haviam registrado algum tipo de impacto até o balanço publicado no dia seguinte ao evento.
Antes da chegada do sistema, os boletins meteorológicos já indicavam possibilidade de rajadas acima de 100 km/h, granizo e tempestades severas para a madrugada de segunda-feira em grande parte do Estado. O período também apresentava risco de chuva volumosa em outras regiões gaúchas.
A força do temporal chegou a provocar rajadas superiores a 100 km/h e interrupções generalizadas no fornecimento de energia.
No Sul do Estado, porém, o avanço das vistorias agora permite dimensionar também a parcela econômica do desastre dentro das propriedades.
Valor ainda pode sofrer atualização
Os R$ 42,6 milhões representam os prejuízos identificados pela Emater/RS nos dez municípios considerados na consolidação divulgada em 29 de setembro. O número reúne perdas na produção agrícola e pecuária, além de danos em estruturas e insumos.
Como ainda havia município com levantamento pendente, o total deve ser interpretado como uma estimativa baseada nas informações disponíveis até a consolidação de 28 de setembro, e não como uma avaliação necessariamente definitiva de todos os danos provocados pelo temporal na agropecuária da região.
Para os produtores atingidos, a extensão econômica do problema também depende do tipo de perda. Uma lavoura comprometida representa redução da receita da safra; uma estrutura destruída, por outro lado, pode exigir novos investimentos antes mesmo de a propriedade recuperar sua capacidade normal de produção.
O levantamento transforma, assim, os danos visíveis deixados pela tempestade em uma medida concreta de seu impacto econômico no campo — e mostra que a fruticultura, especialmente o pêssego, ficou no centro das perdas registradas no Sul gaúcho.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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