Tecnologia usa RNA para “desligar” funções vitais do percevejo e proteger a soja

Pesquisa da Unicamp em parceria com a TMG utiliza silenciamento gênico contra o percevejo-marrom; inovação já gerou pedido de patente, mas ainda enfrenta desafios antes de uma aplicação ampla no campo

Uma tecnologia baseada em RNA está sendo estudada para interferir no funcionamento de genes essenciais do percevejo-marrom (Euschistus heros), uma das principais pragas da soja no Brasil. Desenvolvida no Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) em parceria com a TMG Tropical Melhoramento e Genética, a estratégia utiliza RNA de interferência, conhecido como RNAi, para atingir o inseto sem modificar geneticamente a planta.

A pesquisa ganha relevância diante da dimensão da sojicultura brasileira. No 11º levantamento da safra 2025/26, divulgado em agosto, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estimou a produção nacional de soja em 180,5 milhões de toneladas, 5,2% acima da temporada anterior. Nesse contexto, tecnologias capazes de ampliar as opções de manejo de pragas podem ter impacto direto sobre produtividade, qualidade dos grãos e custos de produção.

Como o RNA interfere no percevejo

O RNAi não altera nem elimina permanentemente o DNA do inseto. A técnica atua sobre a expressão de determinados genes, reduzindo a produção das proteínas associadas a eles.

Para isso, são empregadas moléculas de RNA de fita dupla, conhecidas como dsRNA. Quando uma sequência compatível chega às células do inseto, ela pode acionar mecanismos celulares que reconhecem e degradam o RNA mensageiro correspondente.

Na prática, o gene continua presente no organismo, mas passa a produzir menos da proteína para a qual carrega instruções. Se o alvo estiver relacionado a uma função essencial, o efeito pode comprometer o desenvolvimento ou a sobrevivência do percevejo.

Documentos oficiais da Unicamp mostram que o projeto desenvolvido com a TMG buscou justamente testar moléculas de dsRNA e identificar sequências capazes de induzir mortalidade em Euschistus heros.

Pesquisa resultou em pedido de patente

O trabalho avançou para a proteção da propriedade intelectual. O pedido de patente BR 10 2024 006442-9 foi depositado no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) em 2 de abril de 2024, tendo a Unicamp e a TMG como depositantes.

Documentos posteriores da universidade indicam que materiais, protocolos e dados gerados durante a pesquisa foram destinados à continuidade do desenvolvimento e da validação pela empresa.

Em agosto de 2026, a Unicamp voltou a citar a tecnologia relacionada à redução de perdas provocadas por percevejos entre as soluções transferidas ao setor produtivo.

Isso, porém, não significa que já exista um produto disponível comercialmente para o agricultor. As informações públicas consultadas confirmam o desenvolvimento, o pedido de patente e a transferência tecnológica, mas não um lançamento comercial.

Especificidade é um dos principais atrativos do RNAi

Uma das características estudadas no RNA de interferência é a possibilidade de desenvolver moléculas direcionadas a sequências genéticas específicas do organismo-alvo.

Esse grau de especificidade pode permitir estratégias mais seletivas de controle, embora cada molécula precise passar por avaliações próprias de eficácia e segurança.

Um estudo publicado em 2022 na revista Science of the Total Environment avaliou moléculas de dsRNA direcionadas ao percevejo-marrom e seus possíveis efeitos sobre Telenomus podisi, uma vespa parasitoide utilizada como inimigo natural da praga.

Nas condições experimentais analisadas, os pesquisadores não identificaram efeitos letais ou subletais provocados pelo dsRNA específico do percevejo sobre o parasitoide.

O resultado, no entanto, não permite afirmar que qualquer tecnologia de RNA seja automaticamente segura para organismos não alvo. A avaliação depende da sequência utilizada, da dose, da exposição e das características das espécies envolvidas.

Fazer o RNA chegar ao inseto ainda é um desafio

Identificar um gene adequado é apenas uma parte do problema. Para funcionar no campo, o RNA precisa permanecer estável, chegar ao organismo e alcançar as células em quantidade suficiente para provocar o efeito desejado.

Pesquisas com Euschistus heros mostram que essa etapa pode ser complexa.

Um estudo publicado no Journal of Insect Physiology em 2025 identificou elevada atividade de enzimas chamadas RNases na saliva do percevejo. Essas enzimas conseguem degradar o dsRNA e podem reduzir a eficiência do silenciamento gênico quando a molécula é ingerida.

Os pesquisadores conseguiram aumentar a estabilidade do RNA ao interferir em uma dessas enzimas, mas isso não resultou em aumento significativo da sensibilidade do inseto a um segundo dsRNA testado.

O resultado indica que existem outras barreiras fisiológicas envolvidas na resposta do percevejo ao RNAi.

Por isso, ainda seria precipitado tratar a tecnologia como substituta direta dos inseticidas atualmente utilizados. Formulação, estabilidade ambiental, modo de aplicação, dose, eficácia a campo, custos, segurança e exigências regulatórias permanecem como pontos fundamentais de desenvolvimento.

Manejo da lavoura continua baseado em monitoramento

Mesmo com novas ferramentas em desenvolvimento, o controle de percevejos deve continuar inserido no Manejo Integrado de Pragas.

Segundo a Embrapa, entre os estádios R3 e R6 da soja, o nível de ação indicado é de dois percevejos com 0,5 centímetro ou mais por metro de fileira em lavouras destinadas à produção de grãos.

Em áreas voltadas à produção de sementes, a recomendação é mais rigorosa: um percevejo por metro de fileira.

Esses parâmetros reforçam que a decisão de controle deve partir do monitoramento da população da praga e do risco econômico, evitando intervenções sem necessidade.

Caso a tecnologia baseada em RNA avance até uma solução comercial, seu papel tende a ser complementar às estratégias já utilizadas no campo, incluindo controle químico, controle biológico e outras práticas de manejo.

O avanço científico já está documentado. O próximo passo será demonstrar se a tecnologia conseguirá reunir eficácia, segurança, estabilidade e viabilidade econômica em condições reais de lavoura.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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