Projeto britânico usa microfones, sensores e inteligência artificial para estudar se mudanças nos sons de galinhas poedeiras podem ajudar produtores a perceber mais cedo alterações de comportamento, ambiente e bem-estar
Sons que normalmente fazem parte da rotina de um aviário podem se transformar em uma nova fonte de informação para o produtor. No Reino Unido, um projeto está instalando sensores acústicos em granjas comerciais de galinhas poedeiras para investigar se mudanças nas vocalizações e na atividade sonora do lote podem indicar alterações relacionadas ao comportamento, à saúde ou às condições do ambiente.
O trabalho reúne a produtora de ovos Noble Foods e as empresas de tecnologia AgriSound e Aviasenze, com apoio da Innovate UK. O ensaio terá duração de dois anos e foi planejado para funcionar em condições reais de produção, em vez de ficar restrito ao ambiente controlado de laboratório. Continue a leitura e acompanhe o Compre Rural, onde informação de qualidade ajuda a fortalecer quem vive e produz no campo.
Como as galinhas serão monitoradas
A proposta parte de uma ideia relativamente simples: acompanhar continuamente o ambiente sonoro do aviário e procurar alterações que não seriam evidentes apenas em uma inspeção rápida.
Segundo a descrição técnica do projeto, serão utilizados 40 dispositivos equipados com microfones e sensores ambientais. Eles deverão registrar informações acústicas ao longo de diferentes ciclos dos lotes.
Os dados não serão analisados apenas pelo volume do barulho. O sistema deverá observar características como intensidade sonora, distribuição das frequências e nível geral de atividade acústica dentro das instalações.
Essas informações serão posteriormente comparadas com registros da produção, incluindo taxa de postura, qualidade dos ovos e ocorrências veterinárias, para verificar se existem relações consistentes entre determinadas mudanças no som e alterações observadas no lote.
É justamente essa comparação que poderá indicar se o áudio tem utilidade prática como ferramenta complementar de manejo.
Inteligência artificial procura padrões no som do aviário
O volume de gravações produzido por um sistema contínuo seria difícil de interpretar manualmente. Por isso, a iniciativa utiliza técnicas de aprendizado de máquina para procurar padrões nas vocalizações e na atividade das aves.
A tecnologia não pretende traduzir literalmente os sons das galinhas. O objetivo é reconhecer mudanças estatísticas no ambiente acústico e investigar se elas aparecem de maneira consistente quando existem alterações de comportamento, saúde ou condições ambientais.
Na prática, um sistema desse tipo poderia funcionar como mais uma camada de monitoramento. Caso o padrão de determinado lote se afastasse do comportamento normalmente registrado, o produtor poderia direcionar uma inspeção para descobrir o motivo.
Por enquanto, porém, essa possibilidade ainda está sendo testada.
Os próprios responsáveis pelo projeto deixam claro que a solução não está sendo apresentada como produto acabado nem como substituta da observação feita pelo produtor. O objetivo dos próximos dois anos é gerar evidências e descobrir em quais situações o monitoramento acústico realmente acrescenta informação útil.
Teste acontece dentro de granjas comerciais
Um dos pontos mais relevantes do estudo é o ambiente onde a tecnologia está sendo colocada à prova.
Parte do trabalho ocorre em uma propriedade comercial com sistema free-range, em East Yorkshire, e a Noble Foods também informou que o equipamento está sendo avaliado em uma instalação de criação de poedeiras em galpão.
A intenção é comparar o desempenho da tecnologia em sistemas de alojamento diferentes.
Esse aspecto é importante porque um aviário comercial apresenta uma quantidade de interferências que dificilmente pode ser reproduzida completamente em laboratório. Ventiladores, sistemas de alimentação, equipamentos, movimentação das aves e atividades dos trabalhadores também fazem parte do ambiente sonoro.
Além disso, idade das aves, instalações, manejo e condições ambientais podem influenciar a vocalização.
Portanto, o desafio não é apenas captar sons, mas descobrir quais mudanças possuem significado consistente para o manejo.
Ciência já estuda o que o som das aves pode revelar
A utilização de áudio para acompanhar aves não surgiu com o projeto britânico. Pesquisadores vêm investigando a bioacústica aplicada à produção animal e o potencial de algoritmos para extrair informações das vocalizações.
Um estudo publicado em 2025 na revista científica Sensors avaliou uma estrutura de análise que combina características dos sinais acústicos com aprendizado de máquina e redes neurais. Os pesquisadores trabalharam com três conjuntos de dados relacionados a condições de saúde, diferentes vocalizações e respostas ao estresse.
O próprio estudo, porém, mostra por que é necessário ter cautela antes de transformar resultados experimentais em uma ferramenta comercial. Um dos conjuntos utilizados para distinguir aves saudáveis de não saudáveis possuía apenas 52 amostras de áudio, gravadas sob condições controladas.
Isso significa que bons resultados de classificação não equivalem automaticamente a um sistema capaz de diagnosticar problemas em milhares de aves dentro de qualquer granja.
A nova experiência britânica é relevante justamente porque tenta levar essa abordagem para condições rotineiras de produção.
Sons mudaram quando poedeiras enfrentaram calor
Outra evidência recente vem de um estudo publicado em 2026 na revista Poultry Science.
Pesquisadores da Universidade Agrícola de Nanjing analisaram as vocalizações de 20 galinhas poedeiras da linhagem Jingfen 6. Dez permaneceram em condições de controle, com temperatura de 22 °C e umidade relativa de 60%, enquanto outras dez foram submetidas, durante duas horas por dia, a temperaturas entre 30 °C e 32 °C e umidade entre 75% e 85%.
O experimento durou cinco dias.
O sistema desenvolvido pelos pesquisadores alcançou 97,58% de acurácia em uma etapa de classificação binária das vocalizações e 94,77% na classificação em cinco categorias sonoras.
Esses percentuais, contudo, precisam ser interpretados corretamente: eles representam o desempenho do modelo nas tarefas específicas daquele experimento. Não significam que uma granja possa detectar estresse térmico com 97,58% de precisão apenas instalando um microfone.
O resultado cientificamente mais relevante foi outro. Durante a exposição ao calor, os pesquisadores encontraram mudanças na quantidade, composição e em determinadas características das vocalizações. Os autores classificaram os achados como evidência preliminar de que o áudio pode contribuir para sistemas não invasivos de acompanhamento do estresse térmico.
Pesquisas anteriores sobre conforto térmico de poedeiras também já haviam investigado a relação entre características acústicas das aves e mudanças nas condições ambientais.
O que o produtor poderia ganhar com isso
Em uma granja com milhares de aves, acompanhar individualmente cada animal durante todo o dia é inviável.
Sensores permitem mudar a lógica do acompanhamento: em vez de depender exclusivamente de inspeções em determinados momentos, o sistema pode registrar informações continuamente e apontar quando algum indicador se distancia do padrão esperado.
Na avicultura moderna, isso já ocorre com temperatura, umidade, consumo, ventilação e outras variáveis.
O áudio poderia acrescentar uma fonte diferente de informação porque parte diretamente do comportamento das próprias aves.
A principal possibilidade estudada é utilizar essas mudanças como sinais de alerta, permitindo que o responsável pela granja investigue o lote antes que uma situação eventualmente se agrave.
O produtor continuará sendo necessário para interpretar o contexto. Um aumento ou redução das vocalizações, isoladamente, não identifica a causa do problema.
Por isso, a tendência é que informações acústicas sejam mais úteis quando cruzadas com dados ambientais, produtivos e sanitários.
Tecnologia não substitui manejo e avaliação veterinária
Esse ponto também evita uma interpretação equivocada do projeto.
O sistema não está sendo desenvolvido para fornecer sozinho um diagnóstico veterinário ou determinar automaticamente se uma ave está saudável.
A proposta é oferecer uma ferramenta complementar que aumente a quantidade de informações disponíveis para quem cuida do lote.
A Noble Foods afirma que o acompanhamento automatizado deve atuar junto ao manejo tradicional, e não substituí-lo. A empresa pretende analisar os resultados ao longo do período de dois anos e compartilhar os aprendizados com produtores e representantes da indústria britânica de ovos.
Os testes também precisarão mostrar até que ponto o sistema consegue separar sinais realmente relevantes do ruído normal de uma instalação comercial.
Falsos alertas em excesso, dificuldade de interpretação ou diferenças grandes entre galpões poderiam limitar sua aplicação. Por outro lado, padrões acústicos consistentes capazes de antecipar alterações relevantes abririam espaço para uma nova ferramenta dentro da chamada pecuária de precisão.
Avicultura avança na coleta automática de dados
O experimento britânico está inserido em um movimento maior de automação do setor.
Câmeras, sensores ambientais, inteligência artificial e sistemas conectados vêm ampliando a capacidade de produtores acompanharem grandes plantéis sem depender exclusivamente de verificações manuais.
No caso da produção de ovos, o bem-estar também ganhou maior atenção tanto da indústria quanto do consumidor. As diferenças entre galinhas livres, caipiras, orgânicas e outros sistemas de criação mostram como ambiente, acesso ao espaço externo e práticas de manejo interferem na forma como os ovos são produzidos e comercializados.
Ao mesmo tempo, a automação já aparece em outras etapas da cadeia. Sistemas industriais utilizam sensores e equipamentos de alta velocidade para fazer a inspeção e classificação de até 180 mil ovos por hora.
A novidade do projeto britânico é levar a coleta de dados para um indicador muito menos explorado comercialmente: o som produzido pelo próprio lote.
Se a abordagem provar que consegue gerar alertas confiáveis em situações reais, o cacarejo das galinhas poderá deixar de ser apenas parte do ambiente da granja para se transformar em mais um indicador utilizado nas decisões de manejo.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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