Infestações registradas durante a safra da cana alteram o comportamento dos bovinos e aumentam a preocupação com perdas na produção de leite e no desempenho dos rebanhos
A mosca-de-estábulo no inverno voltou a preocupar produtores rurais no interior de São Paulo. Mesmo em uma época do ano normalmente associada a temperaturas mais baixas e menor presença de diversos insetos, propriedades pecuárias vêm enfrentando ataques capazes de alterar a rotina do gado e comprometer seu desempenho produtivo.
Conhecida cientificamente como Stomoxys calcitrans, a espécie se alimenta de sangue e ataca principalmente bovinos e equinos. Diferentemente de moscas que apenas circulam ao redor dos animais, a mosca-de-estábulo realiza picadas dolorosas, provocando uma reação constante de defesa no rebanho.
O cenário ganha importância especialmente nas regiões onde a pecuária está próxima de áreas cultivadas com cana-de-açúcar. Durante a safra, a presença de resíduos vegetais, matéria orgânica e locais que mantêm umidade pode criar condições adequadas para o desenvolvimento das larvas.
Mosca-de-estábulo no inverno preocupa áreas de produção de cana
A presença intensa da praga durante os meses mais frios não é um fenômeno desconhecido em São Paulo.
Em regiões sucroenergéticas, o período coincide com uma fase importante da colheita e do processamento da cana-de-açúcar. Quando resíduos e subprodutos são manejados de maneira inadequada, determinados pontos podem se transformar em ambientes favoráveis à reprodução da mosca.
A vinhaça merece atenção nesse processo. O subproduto é amplamente utilizado na fertirrigação dos canaviais e possui valor agronômico, mas sua aplicação precisa evitar acúmulos capazes de manter matéria orgânica excessivamente úmida.
Pesquisas conduzidas no Brasil já encontraram associação entre a aplicação da vinhaça e maior ocorrência da Stomoxys calcitrans. Em um experimento realizado por pesquisadores ligados à Embrapa Gado de Corte, mais de 83 mil moscas-de-estábulo foram capturadas durante 22 dias de monitoramento em uma área de cana-de-açúcar fertirrigada com vinhaça.
O estudo observou aumento expressivo na presença dos insetos poucos dias após a aplicação do material, reforçando a importância do manejo adequado em regiões onde pecuária e atividade sucroenergética dividem o mesmo território.
Ataques deixam bovinos inquietos e reduzem tempo de alimentação
O principal impacto da infestação aparece no comportamento dos animais.
Quando submetidos a grande quantidade de moscas, bovinos passam a movimentar constantemente patas, cabeça e cauda na tentativa de evitar novas picadas. Contrações da pele e agrupamentos do rebanho também podem ser observados.
Esse estado permanente de defesa interfere diretamente na rotina que o animal deveria dedicar à alimentação, ruminação e descanso.
Com menor tempo de pastejo e maior gasto de energia, o desempenho produtivo pode cair. Em propriedades leiteiras, o reflexo pode aparecer na quantidade de leite entregue diariamente. Na pecuária de corte, infestações prolongadas podem prejudicar o ganho de peso.
Uma análise publicada no Journal of Medical Entomology, baseada em diferentes estudos sobre o impacto econômico da espécie, encontrou redução na produtividade de bovinos submetidos à presença da mosca-de-estábulo. Entre os resultados analisados, pesquisadores calcularam uma perda mediana equivalente a 139 quilos de leite por vaca ao ano em situações de infestação.
Os valores encontrados em estudos internacionais não devem ser aplicados automaticamente ao Brasil, já que clima, sistemas produtivos e intensidade dos surtos são diferentes. Ainda assim, os trabalhos ajudam a dimensionar o potencial econômico da praga.
Infestação preocupa propriedade no interior paulista
O impacto já pode ser observado em propriedades paulistas.
Em Avanhandava, no interior de São Paulo, um produtor relatou forte presença das moscas no rebanho e uma redução estimada de aproximadamente 60% na produção de leite durante o período de maior pressão dos insetos.
O caso também registrou a morte de oito bovinos, mas há uma ressalva importante: os animais receberam diagnóstico relacionado ao complexo de tristeza parasitária bovina. Por isso, não é correto atribuir diretamente as mortes às picadas da mosca-de-estábulo.
A infestação, entretanto, ocorreu simultaneamente a um quadro de elevado estresse do rebanho. Animais debilitados, que reduzem alimentação e descanso enquanto permanecem tentando se defender dos insetos, podem enfrentar maiores dificuldades diante de outros problemas sanitários.
Em outra propriedade atingida pela infestação, produtores chegaram a utilizar ventiladores próximos aos animais para reduzir momentaneamente a presença das moscas. A medida pode proporcionar algum alívio, mas não resolve a origem da população de insetos.
Combate à mosca-de-estábulo começa antes que ela chegue ao gado
Eliminar apenas as moscas adultas presentes sobre os bovinos dificilmente é suficiente para interromper um surto.
Grande parte da estratégia de controle depende de identificar onde as larvas estão se desenvolvendo. Esterco acumulado, restos de alimentação, resíduos vegetais fermentados e locais onde matéria orgânica permanece úmida por longos períodos podem funcionar como criadouros.
Por isso, medidas preventivas incluem limpeza frequente das instalações, retirada de resíduos, drenagem de pontos com excesso de umidade e monitoramento constante das áreas próximas ao rebanho.
No setor sucroenergético, o cuidado envolve especialmente o manejo de palhada, torta de filtro, compostos orgânicos e vinhaça.
O objetivo é impedir que esses materiais permaneçam em condições que favoreçam o ciclo reprodutivo do inseto.
O uso isolado de inseticidas também possui limitações. Além de não eliminar os criadouros, populações de mosca-de-estábulo podem desenvolver resistência a determinados princípios ativos, motivo pelo qual pesquisadores defendem estratégias integradas de controle.
São Paulo possui programa de prevenção contra surtos
A recorrência do problema levou o Estado de São Paulo a estabelecer regras específicas para prevenção e controle da praga.
A Resolução SAA nº 38, publicada em 2017, instituiu um programa estadual voltado ao enfrentamento de surtos da mosca-dos-estábulos.
As normas estabelecem procedimentos para investigação das ocorrências e reconhecimento de locais com potencial de multiplicação dos insetos, além de prever a participação dos diferentes setores envolvidos.
Essa integração é fundamental porque a origem de uma infestação nem sempre está dentro da propriedade onde os animais estão sendo atacados. As moscas adultas possuem capacidade de deslocamento, permitindo que criadouros localizados em uma área provoquem impactos em propriedades próximas.
Mosca-de-estábulo no inverno exige atenção antes do prejuízo aparecer
A ocorrência da mosca-de-estábulo no inverno reforça a necessidade de monitoramento constante nas regiões onde pecuária e produção de cana-de-açúcar convivem.
Mudanças repentinas no comportamento dos animais podem ser um dos primeiros sinais do aumento da infestação. Bovinos excessivamente inquietos, reunidos em grupos, movimentando continuamente patas e cauda ou reduzindo o tempo de alimentação devem chamar a atenção do produtor.
Quanto mais cedo os focos forem identificados, maior a possibilidade de controlar a população antes que a infestação alcance níveis capazes de comprometer a produtividade.
O desafio não está apenas em afastar os insetos dos animais. A prevenção depende principalmente de impedir que resíduos e matéria orgânica se transformem em locais de reprodução da praga, reduzindo a pressão sobre o rebanho e os possíveis prejuízos econômicos.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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