Programa de melhoramento genético da UEM acumula cerca de 35% de ganho desde sua origem; Tilamax já atende aproximadamente 70% do mercado brasileiro e avança junto com uma cadeia que produziu 707 mil toneladas em 2025
A genética das tilápias produzidas no Brasil acaba de alcançar uma nova geração. Pesquisadores da Universidade Estadual de Maringá (UEM), no Paraná, chegaram à 17ª geração da Tilamax, desenvolvida a partir da linhagem internacional GIFT e selecionada há mais de duas décadas para melhorar características diretamente relacionadas à produtividade da piscicultura.
O resultado aparece dentro dos tanques: segundo dados divulgados pela própria UEM, uma tilápia que anteriormente precisava de aproximadamente 14 meses para atingir 800 gramas pode alcançar o mesmo peso entre 25% e 30% mais rapidamente, dependendo das condições de produção. O programa registra ainda cerca de 35% de ganho genético acumulado dentro de seu núcleo de pesquisa.
A evolução ganha importância pelo alcance dessa genética. De acordo com a universidade, a Tilamax atende atualmente cerca de 70% do mercado brasileiro, colocando um programa desenvolvido no Paraná entre as principais bases genéticas da maior espécie da piscicultura nacional.
Seleção começou com 600 tilápias vindas da Malásia
O trabalho que resultou nos animais atuais começou em 2005, quando a UEM recebeu do WorldFish Center, na Malásia, 30 famílias da linhagem GIFT, totalizando 600 tilápias.
GIFT é a sigla para Genetically Improved Farmed Tilapia, ou Tilápia de Cultivo Geneticamente Melhorada. Desde a chegada desse material ao Brasil, pesquisadores passaram a realizar sucessivos ciclos de avaliação e seleção para desenvolver animais adaptados às condições de produção nacionais.
A cada geração, milhares de peixes são acompanhados e apenas os indivíduos considerados superiores são escolhidos para produzir a geração seguinte.
O processo não significa criar uma nova espécie nem modificar geneticamente o peixe em laboratório. Trata-se de melhoramento genético por seleção, princípio semelhante ao utilizado há décadas na pecuária e na agricultura.
Os animais são identificados individualmente para que os pesquisadores acompanhem sua genealogia, reduzindo o risco de cruzamentos entre parentes e permitindo identificar quais famílias apresentam os melhores resultados. O material que serviu de ponto de partida para esta reportagem destaca justamente esse acompanhamento genealógico ao longo do programa.
Peixe cresce mais rápido e pode permanecer menos tempo no tanque
Entre os principais objetivos estão crescimento, rendimento de filé e características corporais de interesse comercial.
Segundo informações divulgadas pela UEM em março de 2026, o programa apresenta ganho médio próximo de 2% por geração, chegando a aproximadamente 35% de ganho genético acumulado em relação à população original.
Para o produtor, uma das consequências mais relevantes é a redução do ciclo produtivo.
Se o peixe consegue alcançar o peso comercial mais cedo, o piscicultor pode melhorar o aproveitamento dos tanques e reduzir o período durante o qual precisa alimentar e manter aquele lote. O resultado econômico efetivo, entretanto, depende também de fatores como qualidade da ração, temperatura e qualidade da água, densidade, oxigenação e sanidade.
O material consultado aponta justamente que a seleção busca animais capazes de crescer mais rapidamente e aproveitar melhor a alimentação, reduzindo o período necessário para atingir o peso de comercialização.
Genética brasileira já alcança grande parte da produção nacional
O alcance do programa talvez seja tão relevante quanto o ganho individual dos animais.
A informação oficial mais recente divulgada pela UEM aponta que aproximadamente 70% do mercado brasileiro é atendido pela genética desenvolvida no programa.
Uma estimativa apresentada anteriormente indicava ainda que cerca de 80% das tilápias produzidas no país poderiam apresentar algum grau de parentesco com a genética trabalhada pela universidade. Os números representam conceitos diferentes — participação no mercado e parentesco genético — e, por isso, não devem ser comparados diretamente.
A disseminação ocorre por meio de uma estrutura semelhante a uma pirâmide genética. A universidade mantém seu núcleo de seleção e fornece material superior para empresas multiplicadoras e produtores de alevinos, que posteriormente distribuem essa genética para pisciculturas comerciais.
Brasil já produz mais de 700 mil toneladas de tilápia
O avanço da Tilamax acontece justamente quando a tilapicultura brasileira alcança uma nova dimensão.
O país produziu 707 mil toneladas de tilápia em 2025, segundo números divulgados pelo setor. O Paraná permaneceu na liderança nacional, com aproximadamente 273 mil toneladas, equivalentes a 38,6% do total.
Na prática, quase quatro de cada dez quilos de tilápia produzidos no Brasil saem do Paraná — o mesmo estado onde está instalado o programa de melhoramento da UEM.
A combinação entre genética, nutrição, sanidade, manejo e profissionalização dos sistemas produtivos ajuda a explicar por que a tilápia se consolidou como protagonista da piscicultura brasileira.
E o processo de seleção continua. A 17ª geração não representa o fim do desenvolvimento da Tilamax. Novos animais continuarão sendo avaliados para formar as próximas gerações, buscando ganhos adicionais de produtividade e características cada vez mais importantes para produtores e indústria.
A história que começou com apenas 600 peixes trazidos da Malásia em 2005 hoje influencia uma parcela significativa da tilapicultura brasileira — e mostra como alguns pontos percentuais de ganho a cada geração podem, acumulados durante duas décadas, mudar a produtividade de uma cadeia inteira.
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