‘Super El Niño Godzilla’ ganha força e estudo projeta 451 mil mortes por calor

Pacífico pode alcançar aquecimento sem precedente no fim de 2026; fenômeno aumenta risco de ondas de calor, secas e chuvas extremas, enquanto Brasil entra entre os países mais expostos aos impactos sobre população e agronegócio.

O El Niño que avança pelo Oceano Pacífico deixou de ser apenas mais um fenômeno climático no radar internacional. As projeções indicam que o episódio de 2026/27 poderá figurar entre os mais intensos já registrados, com temperaturas excepcionalmente altas no Pacífico equatorial e capacidade para reorganizar regimes de chuva e temperatura em diferentes partes do planeta nos próximos meses.

A dimensão do fenômeno levou ao retorno de expressões como “Super El Niño” e “Godzilla El Niño”, usadas informalmente para descrever eventos extraordinariamente fortes. “Godzilla”, porém, não é uma classificação científica. O que sustenta a preocupação atual são os dados: a Organização Meteorológica Mundial projeta que a anomalia média da temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4 poderá chegar a aproximadamente 3,7 °C acima do normal entre outubro e dezembro, superando o pico de cerca de 2,6 °C registrado no grande El Niño de 2015/16.

No Brasil, o cenário também avançou rapidamente. O mais recente Painel El Niño elaborado por órgãos federais apontou 95% de probabilidade de o fenômeno atingir intensidade muito forte entre outubro e dezembro de 2026. A NOAA, agência meteorológica dos Estados Unidos, informou em 8 de outubro que o El Niño continua se fortalecendo e que há mais de 83% de probabilidade de permanecer entre forte e muito forte até o trimestre janeiro-março de 2027.

Mas o dado que levou a discussão para além da meteorologia veio de uma análise sobre mortalidade. Pesquisadores do Climate Impact Lab, ligado a instituições como a Universidade de Chicago e a Universidade da Califórnia em Berkeley, estimam que aproximadamente 451 mil mortes adicionais relacionadas ao calor extremo possam ocorrer no mundo entre junho de 2026 e fevereiro de 2027, em comparação com o esperado para os mesmos meses de um ano médio.

O que realmente significa a projeção de 451 mil mortes

O número exige cuidado.

A análise não afirma que 451 mil pessoas morrerão diretamente em tempestades, enchentes ou secas provocadas pelo El Niño. A projeção estima mortalidade adicional associada à exposição a temperaturas excepcionalmente elevadas, considerando diferenças de clima, renda, vulnerabilidade e capacidade de adaptação em mais de 24 mil regiões do mundo.

Os pesquisadores cruzaram previsões sazonais de temperatura com relações historicamente observadas entre calor e mortalidade. Segundo o estudo, as temperaturas terrestres globais poderão ficar aproximadamente 1,2 °C acima do normal nos próximos meses, em grande parte pela influência do atual El Niño.

Outra conclusão chama atenção: o número de dias considerados extremamente quentes poderá ficar 44% acima do observado em um ano típico.

Isso ajuda a explicar por que um fenômeno oceânico iniciado no Pacífico pode produzir consequências sanitárias muito além de sua região de origem.

Calor extremo aumenta o risco de desidratação, insolação e agravamento de doenças cardiovasculares, respiratórias e renais. Trabalhadores rurais, pessoas idosas, crianças e populações com pouco acesso a climatização, água e atendimento médico tendem a apresentar maior vulnerabilidade.

A projeção de 451 mil mortes ainda não passou pelo processo completo de revisão por pares, embora utilize metodologia baseada em estudos científicos anteriores revisados por especialistas. Os próprios autores reconhecem incertezas associadas tanto às previsões climáticas quanto à relação entre temperatura e mortalidade.

Portanto, não se trata de uma sentença sobre quantas pessoas necessariamente morrerão, mas de uma estimativa de risco que pode mudar conforme o clima evolui e medidas de adaptação são adotadas.

Brasil aparece entre os países mais vulneráveis

O Brasil está diretamente inserido nesse cenário.

Para o período de setembro de 2026 a fevereiro de 2027, a análise do Climate Impact Lab projeta aproximadamente 13,3 mil mortes adicionais relacionadas ao calor no País. A vulnerabilidade brasileira combina população numerosa, extensas áreas tropicais, atividades econômicas desenvolvidas a céu aberto e fortes diferenças regionais na disponibilidade de infraestrutura.

Entre os países que aparecem com grandes números absolutos estão também Nigéria, Indonésia, Sudão e Índia.

No campo brasileiro, o problema assume outra dimensão porque temperatura e disponibilidade de água afetam simultaneamente produção de alimentos, pastagens, conforto animal, armazenamento de água, geração de energia e custos de produção.

É justamente nessa interação entre clima, saúde e economia que o El Niño de 2026/27 pode produzir alguns dos seus efeitos mais relevantes.

Por que este El Niño chama tanta atenção

Nem todo El Niño forte produz exatamente os mesmos efeitos.

O fenômeno ocorre quando existe aquecimento persistente das águas superficiais do Pacífico equatorial central e oriental. Essa alteração muda a transferência de calor entre oceano e atmosfera e interfere nos padrões de circulação atmosférica.

O resultado pode ser percebido a milhares de quilômetros de distância.

Na atualização de 8 de outubro, a NOAA informou que a anomalia na região Niño 3.4 havia alcançado +2,1 °C, enquanto partes do Pacífico equatorial oriental apresentavam águas superiores a 4 °C acima do normal. A agência também detectou temperaturas subsuperficiais mais de 10 °C acima da média em algumas áreas do oceano.

A Organização Meteorológica Mundial, por sua vez, avalia que o oceano do qual este El Niño está extraindo energia encontra-se excepcionalmente quente.

Essa combinação é particularmente relevante porque o El Niño é um fenômeno natural, mas seus efeitos acontecem agora sobre um planeta e oceanos mais quentes do que nas décadas anteriores.

Não significa que cada enchente, seca ou onda de calor dos próximos meses tenha sido causada isoladamente pelo El Niño. O fenômeno funciona principalmente como um grande reorganizador das probabilidades climáticas: aumenta a chance de determinados padrões ocorrerem e, quando eles aparecem, pode favorecer eventos mais persistentes ou severos.

É por isso que os especialistas alertam contra uma interpretação simplista do termo “Super El Niño”. Um El Niño excepcionalmente forte não significa automaticamente chuva excepcional em todos os lugares úmidos ou seca recorde em todas as regiões normalmente secas. Ele desloca as probabilidades.

O Brasil deve enfrentar dois extremos ao mesmo tempo

Historicamente, um dos efeitos mais conhecidos do El Niño no Brasil é a formação de uma espécie de divisão climática.

Enquanto o Sul tende a registrar chuva acima da média, partes do Norte e Nordeste enfrentam maior probabilidade de chuva abaixo do normal. Áreas centrais do País também ficam mais expostas a temperaturas elevadas e episódios prolongados de calor.

É exatamente esse padrão que aparece novamente nas previsões oficiais para 2026/27.

O Painel El Niño elaborado por INMET, INPE, Cemaden, ANA, Serviço Geológico do Brasil, Defesa Civil e outras instituições aponta intensificação da seca no centro-norte do País e condições favoráveis a volumes elevados de chuva no Sul.

Para o agronegócio, isso significa que não existe um único “efeito El Niño”.

Uma mesma safra pode enfrentar falta de água em uma região e excesso de umidade em outra.

Sul enfrenta risco de chuva excessiva

Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná estão entre as áreas que exigirão acompanhamento mais próximo durante a primavera e o verão.

Volumes elevados de chuva podem inicialmente favorecer a recuperação hídrica do solo, mas, quando persistentes, começam a produzir efeitos negativos.

Entre eles estão encharcamento das lavouras, dificuldade de entrada de máquinas, atraso no plantio, maior pressão de doenças fúngicas, erosão, problemas na aplicação de defensivos e fertilizantes e perdas de qualidade durante a colheita.

O problema é particularmente sensível porque o período de maior influência do fenômeno coincide com etapas importantes da implantação da safra brasileira de verão.

A agricultura gaúcha ainda carrega na memória recente os prejuízos provocados por sucessivas ocorrências de excesso de chuva. Um novo ciclo de elevada instabilidade transforma drenagem, conservação de solo e planejamento operacional em fatores ainda mais relevantes.

Centro-Oeste pode sentir o problema pelo calor

No Centro-Oeste, onde está concentrada grande parte da soja, milho e pecuária brasileiras, o El Niño exige uma análise diferente.

O principal risco não está necessariamente em uma seca generalizada durante toda a estação chuvosa, mas na combinação entre temperaturas elevadas, irregularidade das precipitações e períodos de alta evapotranspiração.

Poucos dias de calor extremo durante fases sensíveis de uma cultura podem produzir perdas mesmo quando o acumulado mensal de chuva parece adequado.

Na soja, por exemplo, déficit hídrico e temperaturas muito elevadas durante florescimento e formação de vagens podem comprometer produtividade. O mesmo raciocínio vale para milho durante fases críticas de desenvolvimento.

Por isso, a distribuição da chuva ao longo da safra será tão importante quanto o volume total acumulado.

Norte e Nordeste ficam expostos à falta de água

O sinal climático costuma ser mais preocupante para áreas do Norte e Nordeste.

O INMET aponta que eventos de El Niño aumentam o risco de seca na faixa norte dessas regiões, situação que pode reduzir a umidade do solo, pressionar reservatórios e comprometer agricultura de sequeiro, pastagens e disponibilidade de água para os animais.

No Nordeste, o impacto sobre a pecuária pode aparecer rapidamente quando redução das chuvas e altas temperaturas diminuem a produção de forragem.

Isso cria uma cadeia de consequências: queda na disponibilidade de pasto, aumento da necessidade de suplementação, valorização de milho e outros ingredientes utilizados na alimentação animal e pressão adicional sobre o custo de produção.

Não por acaso, o governo federal estruturou medidas preventivas para reforçar estoques de alimentos, incluindo milho destinado especialmente às necessidades do semiárido.

Pecuária também entra na linha de frente

A agricultura costuma concentrar as atenções quando o assunto é El Niño, mas a pecuária pode ser igualmente atingida.

Calor intenso reduz consumo de matéria seca e aumenta a demanda por água dos animais. Em situações extremas, o estresse térmico pode afetar ganho de peso, produção de leite, fertilidade e desempenho reprodutivo.

Ao mesmo tempo, períodos secos reduzem a capacidade de suporte das pastagens.

O produtor passa então a enfrentar dois problemas ao mesmo tempo: o animal necessita de mais água e conforto enquanto o sistema oferece menos pasto e, eventualmente, menos disponibilidade hídrica.

Em sistemas intensivos, ventilação, sombreamento e manejo de água ganham importância. Em sistemas extensivos, planejamento forrageiro, reserva de alimento e qualidade dos bebedouros tornam-se decisivos.

Soja 2026/27 exigirá manejo mais preciso

A Embrapa já vem alertando que a safra 2026/27 deverá exigir estratégias específicas diante do El Niño.

Entre as recomendações estão respeito ao Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), formação adequada de palhada, diversificação de épocas de semeadura e monitoramento mais intenso de pragas e doenças.

A lógica é simples: não existe tecnologia capaz de eliminar o risco climático, mas o produtor consegue reduzir sua exposição.

A semeadura escalonada, por exemplo, impede que toda a área atravesse uma eventual janela crítica de seca ou excesso de chuva exatamente na mesma fase de desenvolvimento.

O impacto pode chegar ao supermercado

Eventos climáticos dessa dimensão raramente terminam dentro da porteira.

Quebras de produção ou problemas de qualidade podem alterar oferta regional de alimentos e matérias-primas. Ao mesmo tempo, enchentes podem interromper estradas, ferrovias e portos, enquanto secas severas aumentam custos com irrigação, alimentação animal e energia.

Esse conjunto de fatores pode chegar aos preços.

Arroz, milho, hortaliças, frutas, carnes, leite e outros produtos respondem de maneiras diferentes aos extremos climáticos, mas todos dependem direta ou indiretamente de água, temperatura, logística ou alimentação animal.

Por isso, acompanhar o El Niño deixou de ser uma questão restrita à meteorologia.

Para o produtor, o fenômeno interfere na tomada de decisão. Para tradings e indústrias, altera projeções de oferta. Para governos, aumenta a necessidade de planejamento de estoques e resposta a desastres. Para consumidores, pode aparecer na inflação dos alimentos.

“Godzilla” ajuda a dimensionar o fenômeno, mas ciência exige cautela

O apelido “Godzilla El Niño” ficou conhecido internacionalmente durante o episódio de 2015/16 e reapareceu diante da intensidade projetada para 2026/27.

Ele funciona bem para traduzir a dimensão excepcional do evento, mas não faz parte das classificações oficiais utilizadas pelos serviços meteorológicos.

Cientificamente, o ponto relevante é outro: há evidências de que o atual El Niño está alcançando patamares raros e pode entrar para a história entre os mais intensos desde o início dos registros modernos.

Ao mesmo tempo, intensidade oceânica não determina sozinha os impactos em cada município ou propriedade.

O comportamento do Atlântico, o Dipolo do Oceano Índico, sistemas meteorológicos regionais, condições de solo e outros fatores podem ampliar ou reduzir os efeitos clássicos do fenômeno.

Os próximos meses serão decisivos

A tendência atual indica que o El Niño continuará influenciando o clima global durante o fim de 2026 e o início de 2027.

A NOAA aponta 100% de probabilidade de El Niño nos trimestres que avançam até janeiro-fevereiro-março, enquanto a probabilidade permanece em 98% para fevereiro-março-abril. A transição mais clara para neutralidade aparece apenas posteriormente.

Isso significa que o risco não termina quando o Pacífico alcançar sua maior temperatura.

A atmosfera pode continuar respondendo ao fenômeno por meses.

Para o Brasil, a principal mensagem neste momento não é de catástrofe inevitável, mas de preparação para um cenário climático excepcional.

No campo, isso passa por conservação de solo, armazenamento de água, revisão de drenagem, planejamento de alimentação animal, uso criterioso do Zarc, seguro rural e monitoramento meteorológico praticamente diário.

Na saúde pública, exige sistemas de alerta para calor, atendimento às populações vulneráveis e proteção de trabalhadores expostos.

E na economia, exige atenção às cadeias de alimentos, energia e logística.

O chamado “Super El Niño Godzilla” pode terminar como um dos eventos climáticos mais estudados desta década. Se as previsões atuais se confirmarem, sua importância não será medida apenas pela temperatura registrada no Pacífico, mas pelas consequências que um oceano excepcionalmente quente poderá produzir sobre lavouras, cidades, mercados e milhões de pessoas espalhadas pelo planeta.

Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias.

Siga o Compre Rural no Google News e acompanhe nossos destaques.
RESUMIR COM:
LEIA TAMBÉM
NEWSLETTER COMPRERURAL

Receba as nossas
principais notícias

Conteúdo sobre o agronegócio, direto no seu e-mail.

🔒 Não enviamos spam. Você pode cancelar quando quiser.