“Super El Niño” dispara em 2026 e pode ser o mais forte desde 1950; veja o que pode acontecer no Brasil

NOAA aponta mais de 90% de probabilidade de um El Niño muito forte na primavera e no verão de 2026/27 e estima em 75% a chance de o episódio alcançar uma marca sem precedentes desde 1950.

O cenário climático do Pacífico mudou radicalmente ao longo de 2026. O ano começou ainda sob influência da La Niña, passou por um período de neutralidade e, em poucos meses, avançou para um El Niño que segue em rápida intensificação e pode entrar para a história.A atualização mais recente da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), por meio do Climate Prediction Center (CPC), mostra que as anomalias da temperatura da superfície do mar ultrapassaram 3°C no Pacífico Equatorial Leste em agosto.

Mais importante que o número isolado é a tendência: os indicadores oceânicos e atmosféricos apontam para a continuidade do fortalecimento do fenômeno até o fim de 2026.

Segundo a projeção, existe probabilidade superior a 90% de ocorrência de um El Niño muito forte durante a primavera e o verão de 2026/2027 no Hemisfério Sul.

Além disso, a NOAA estima em 75% a probabilidade de o episódio ser o mais forte registrado desde 1950 durante o trimestre outubro-novembro-dezembro de 2026.

De La Niña ao El Niño em apenas alguns meses

A evolução dos boletins mensais da NOAA ajuda a dimensionar a velocidade da mudança observada no Pacífico ao longo deste ano.

Em 8 de janeiro, a La Niña ainda estava presente. Naquele momento, havia 75% de probabilidade de transição para condições neutras entre janeiro e março, enquanto projeções de El Niño para horizontes mais longos ainda carregavam elevada incerteza.

Em 12 de fevereiro, a expectativa continuava favorecendo a neutralidade. A probabilidade de transição para condições neutras entre fevereiro e abril era de 60%.

A primeira mudança mais significativa veio em 12 de março. Embora a La Niña ainda estivesse presente, a NOAA iniciou a Vigilância de El Niño, enquanto a chance de formação do fenômeno entre junho e agosto subiu para 62%.

Em 9 de abril, a La Niña chegou oficialmente ao fim e o Pacífico entrou em condição de neutralidade. A probabilidade de formação do El Niño entre maio e julho alcançava 61%.

Maio marcou a aceleração das projeções

Em 14 de maio, o aquecimento do Pacífico já se tornava mais evidente. O índice semanal Niño 3.4 chegou a +0,4°C e a NOAA elevou para 82% a probabilidade de estabelecimento do El Niño entre maio e julho.

Para o período entre dezembro de 2026 e fevereiro de 2027, a probabilidade de permanência do fenômeno já alcançava impressionantes 96%.

Um mês depois, a mudança se confirmou.

Em 11 de junho, a NOAA declarou oficialmente o El Niño. O índice semanal Niño 3.4 alcançou +0,7°C, colocando o fenômeno, naquele momento, na faixa associada a um episódio fraco.

Mas as projeções já indicavam que aquela intensidade inicial não duraria muito.

El Niño ganha força rapidamente

Em 9 de julho, o índice Niño 3.4 alcançou +1,2°C, patamar associado a um El Niño moderado. A NOAA estimava em 97% a probabilidade de o fenômeno permanecer até o início do outono de 2027 no Hemisfério Sul.

Em agosto, a escalada ficou ainda mais evidente.

A média mensal de julho na região Niño 3.4 chegou a +1,4°C, enquanto a região Niño 1+2 alcançou +2,9°C.

Foi então que as projeções passaram a indicar mais de 90% de probabilidade de um El Niño muito forte durante a primavera de 2026 e o verão de 2026/2027.

Setembro traz projeção ainda mais impressionante

A atualização de 10 de setembro elevou ainda mais a atenção sobre o fenômeno.

Durante agosto, as anomalias da temperatura da superfície do mar ultrapassaram +3°C no Pacífico Equatorial Leste.

Os principais índices também avançaram:

  • Niño 3.4: +1,8°C
  • Niño 3: +2,5°C
  • Niño 1+2: +3,4°C

A expectativa da NOAA é de que o El Niño continue se intensificando até o final de 2026.

É nesse cenário que surge uma das projeções mais relevantes do ano: há 75% de probabilidade de o episódio ser o mais forte registrado desde 1950 durante o trimestre outubro-dezembro de 2026.

O que um El Niño tão forte pode significar para o Brasil?

As projeções divulgadas pelo Painel El Niño 2026–2027 apontam comportamentos bastante diferentes entre as regiões brasileiras.

No Sul, especialmente no Rio Grande do Sul, além de áreas de São Paulo e Mato Grosso do Sul, existe maior probabilidade de volumes de chuva acima da média histórica.

Já as regiões Norte e Nordeste apresentam maior probabilidade de precipitações abaixo da média.

Partes do Brasil Central e do Sudeste — incluindo áreas de Mato Grosso, Tocantins, norte de Goiás, Minas Gerais e Espírito Santo — também apresentam tendência de chuva abaixo da média.

Para as temperaturas, a perspectiva é de valores acima da média em grande parte do território brasileiro.

Agro precisa acompanhar dois extremos

Para o produtor rural, a configuração exige atenção justamente porque os impactos podem ocorrer de maneiras opostas no território nacional.

No Centro-Norte do país, temperaturas elevadas associadas a períodos prolongados de estiagem podem aumentar o risco de propagação do fogo e prolongar condições de seca, especialmente caso haja atraso na instalação da estação chuvosa.

Na Amazônia Legal e no Pantanal, o período entre setembro e novembro normalmente representa a transição da estação seca para a chuvosa. Um prolongamento da estiagem pode afetar a disponibilidade hídrica e aumentar a vulnerabilidade aos incêndios.

No Sul, a preocupação é diferente.

A maior probabilidade de precipitações acima da média exige acompanhamento do risco de chuvas intensas, cheias e inundações, principalmente no Rio Grande do Sul.

Para agricultura e pecuária, portanto, o El Niño passa a ser uma variável importante para decisões relacionadas ao calendário de plantio, manejo das pastagens, disponibilidade de água, formação de reservas forrageiras, prevenção contra incêndios e planejamento das atividades de campo.

El Niño muito forte não significa desastre garantido

Apesar da magnitude das projeções, é importante evitar uma interpretação automática dos números.

Uma previsão climática indica tendências para períodos de vários meses. Ela não consegue determinar com antecedência qual cidade enfrentará uma tempestade, quando determinado evento extremo acontecerá ou exatamente quanto choverá.

Da mesma forma, nem todo evento meteorológico extremo ocorrido durante um El Niño é causado diretamente pelo fenômeno.

Frentes frias, ciclones, sistemas convectivos, massas de ar e outros mecanismos atmosféricos continuam tendo papel decisivo na ocorrência de eventos específicos.

O próprio INMET ressalta que um El Niño mais intenso não significa necessariamente impactos mais severos em todas as regiões, embora possa aumentar a probabilidade de determinados padrões de chuva e temperatura.

Por isso, diante de um cenário que evoluiu de La Niña no começo do ano para a possibilidade de um dos episódios de El Niño mais intensos da série histórica, o acompanhamento das atualizações meteorológicas ganha ainda mais importância.

Para o produtor rural, as projeções de longo prazo servem como ferramenta de planejamento. Já as previsões de curto prazo e os avisos meteorológicos oficiais serão fundamentais para orientar decisões à medida que a primavera e o verão se aproximam.

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