Enchentes no Sul, calor acima de 40 °C no Centro-Oeste e rios baixando na Amazônia: o fenômeno já chegou aos viveiros. Saiba o que está em jogo e como proteger seu plantel.
O fenômeno que não é mais previsão. Durante o primeiro semestre, o El Niño era assunto de boletim. Agora é assunto de viveiro. Declarado oficialmente em junho pela agência americana NOAA, o fenômeno vem se intensificando mês a mês: no fim de setembro, a temperatura da superfície do mar em áreas de referência do Pacífico já estava mais de 2 °C acima da média, patamar que caracteriza o chamado “Super” El Niño. O Painel El Niño 2026-2027, elaborado por Inmet, Inpe, Cemaden, ANA e Defesa Civil, aponta mais de 95% de chance de um evento muito forte entre outubro e dezembro, com influência garantida até o início de 2027.
Para a piscicultura, isso importa por um motivo simples: peixe é um animal de sangue frio que vive dentro do clima. Tudo o que muda na chuva e na temperatura muda, em poucos dias, a qualidade da água — e a água é o principal insumo de quem produz peixe.
Um setor de mais de R$ 10 bilhões exposto ao clima
A piscicultura brasileira nunca esteve tão grande. Segundo o Anuário Peixe BR 2026, o país produziu 1.011.540 toneladas de peixes de cultivo em 2025, superando pela primeira vez a marca de 1 milhão de toneladas. A tilápia responde por cerca de 70% desse volume (707,5 mil toneladas), e os peixes nativos somam outras 257 mil toneladas. De acordo com a própria Peixe BR, a atividade já movimenta mais de R$ 10 bilhões por ano.
O detalhe que preocupa: a produção está concentrada justamente nas regiões que o El Niño mais afeta. O Paraná, líder nacional com 27% da produção, fica no corredor de chuvas excessivas do Sul. Rondônia e Mato Grosso, dois dos maiores produtores de peixes nativos, estão na faixa de calor extremo e chuva irregular do Centro-Norte. E tudo isso acontece depois de um ano difícil de preços: em 2025, o valor médio pago ao produtor caiu 20,6% em termos reais no primeiro semestre, para R$ 7,92 por quilo, e mesmo com a recuperação no segundo semestre fechou o período de janeiro a novembro 11,4% abaixo de 2024, segundo o Cepea (Esalq/USP). Com o preço pressionado, sobra pouca gordura para absorver mortalidade, ração desperdiçada ou peixe que para de crescer.
Onde o Super El Niño já está batendo
Sul: excesso de chuva e enchentes. O Rio Grande do Sul foi o primeiro estado a sentir o fenômeno. Em julho, as chuvas atingiram 169 municípios, e sete tiveram situação de emergência reconhecida pelo governo federal: São Sepé, Erval Seco, Liberato Salzano, Coronel Bicaco, Cerro Grande, Novo Tiradentes e Seberi. No fim daquele mês, o Inmet chegou a emitir alerta vermelho de tempestade para 549 municípios gaúchos e catarinenses. E, no fim de setembro, moradores das margens dos rios Santa Maria e Taquari voltaram a entrar em alerta.
Nesse mesmo período, o problema subiu para o Oeste de Santa Catarina. Em poucos dias, 19 municípios foram afetados e 11 decretaram situação de emergência: Arabutã, Brunópolis, Formosa do Sul, Ipumirim, Itá, Ponte Serrada, Santa Cecília, Santiago do Sul, São Domingos, Seara e Xavantina.
No Paraná, a Defesa Civil e o Simepar alertam para chuvas acima da média em outubro e novembro no centro-sul do estado, com atenção especial à faixa entre Foz do Iguaçu, Guaíra, Maringá, Telêmaco Borba, Guarapuava e Francisco Beltrão — área que abraça o Oeste paranaense, o maior polo de tilápia do país.
Centro-Oeste: calor extremo. Do outro lado do mapa, o problema é temperatura. Rondonópolis (MT) registrou 42,3 °C no fim de agosto, a maior temperatura do país até então, e Cuiabá, região com a maior concentração de piscicultores do estado, bateu 41,2 °C. No fim de setembro, o Inmet emitiu aviso vermelho de onda de calor para todo o Mato Grosso do Sul, o centro e o sul de Mato Grosso (incluindo Cuiabá) e São Paulo. Para a segunda quinzena de outubro, a previsão é de vários dias com máximas iguais ou acima de 40 °C em Mato Grosso e Goiás, com nova onda de calor no radar.
Norte: seca e rios baixando. Na Amazônia, o fenômeno atrasa o início das chuvas e acelera a vazante. A seca avançou em estados do Norte e voltou ao Amapá, e as bacias dos rios Branco e Negro estão entre as que exigem maior acompanhamento. Madeira, Purus e Juruá podem ter restrições de navegação — o que, para quem produz no Norte, significa ração mais cara e mais difícil de chegar.
Os impactos dentro do viveiro
1. Calor: menos oxigênio justamente quando o peixe precisa de mais. Quanto mais quente a água, menos oxigênio ela consegue reter — e mais oxigênio o peixe e as algas consomem. A tilápia trabalha bem entre 26 °C e 30 °C; acima de 32 °C ela come menos, converte pior e fica estressada. Em viveiros com alta biomassa, o resultado são as quedas de oxigênio na madrugada, que matam lotes inteiros em poucas horas. Somam-se a isso a maior toxicidade da amônia em água quente e alcalina e o aumento dos surtos bacterianos, como a estreptococose, que aparecem com mais força nas temperaturas altas.
2. Seca: menos água, mais concentração. Com evaporação alta e chuva atrasada, o nível dos viveiros cai. A mesma quantidade de peixe passa a ocupar menos água: a densidade real sobe, os resíduos se concentram e a renovação de água, que seria a saída, fica limitada.
3. Chuva forte: o choque que ninguém vê. Uma chuva fria e volumosa sobre um viveiro aquecido provoca a inversão térmica: a água do fundo, pobre em oxigênio, se mistura de repente com a da superfície. Some-se a isso a queda brusca de pH, a turbidez da enxurrada e a matéria orgânica que entra no sistema. Nas enchentes, os riscos são ainda mais diretos: rompimento de taludes, transbordamento e fuga de peixes.
4. Infraestrutura e logística. Temporais derrubam a energia — e aerador desligado em noite quente é mortalidade na certa. Estradas interrompidas atrasam ração e despesca.
5. Custos. O governo federal já identificou risco de quebra nas safras de milho e arroz e se prepara para acionar termelétricas para compensar a menor geração das hidrelétricas. Na prática, o produtor deve se preparar para pressão no preço da ração e na conta de energia.
Como o piscicultor pode se proteger
O El Niño não se controla. A forma como sua propriedade atravessa ele, sim. Estas são as medidas que eu considero prioritárias para os próximos meses:
Monitore a água todos os dias, principalmente de madrugada. Oxigênio dissolvido e temperatura medidos no fim da noite e no início da manhã são o seu alarme antecipado. Mantenha o oxigênio acima de 3 a 4 mg/L e registre os dados: é a tendência que avisa o problema antes da mortalidade.
Ajuste a alimentação ao termômetro. Em dias de água acima de 32 °C, reduza a oferta e concentre o trato nos horários mais frescos. Ração que o peixe não come vira matéria orgânica, que consome oxigênio e piora a água. Comer menos por alguns dias custa menos do que perder o lote.
Revise a densidade antes do pico. Lotes próximos do peso de abate podem ser despescados antecipadamente. Reduzir biomassa antes de outubro a dezembro diminui o risco de colapso de oxigênio e protege o caixa.
Tenha aeração de reserva e gerador. Confira aeradores, instale capacidade extra nos viveiros de maior biomassa e garanta um gerador funcionando — testado, com combustível. Num temporal com queda de energia, é ele que salva a produção.
Prepare a estrutura para a chuva. Limpe e dimensione vertedouros e monges, reforce taludes, instale telas contra fuga e mantenha uma margem de borda livre nos viveiros. Em regiões com histórico de cheia, avalie baixar o nível preventivamente antes dos alertas de chuva volumosa.
Reforce a sanidade. Evite manejos, transferências e classificações nos dias mais quentes. Defina com seu técnico um protocolo preventivo para as doenças bacterianas que ganham força no calor.
Planeje insumos e caixa. Antecipe a compra ou negocie contratos de ração para reduzir o efeito de uma alta de preços. Verifique as opções de seguro e de crédito disponíveis para a sua atividade.
Acompanhe os alertas oficiais. Inmet, Defesa Civil e os centros estaduais de meteorologia emitem avisos com dias de antecedência. Esses avisos devem virar ação na propriedade: reduzir ração, ligar a aeração mais cedo, baixar nível, antecipar despesca.
Conclusão
A piscicultura brasileira chegou a um novo patamar de produção. Manter esse patamar em um ano de Super El Niño vai depender menos da sorte e mais da gestão. Quem trata a qualidade da água como indicador de negócio — medido, registrado e corrigido diariamente — vai atravessar esse período com perdas menores e, muito provavelmente, sair dele em vantagem sobre quem ficou esperando o clima melhorar.
Fontes: Anuário Brasileiro da Piscicultura Peixe BR 2026; Painel El Niño 2026-2027 (Inmet, Inpe, Cemaden, ANA, SGB, Defesa Civil, Censipam); Defesa Civil de SC e PR; Simepar; Inmet; Climatempo.
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