Queda na receita das lavouras contrasta com avanço da pecuária e reforça o peso crescente de frangos e suínos na economia agropecuária de Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul
O agro do Sul do Brasil está mudando de composição. Enquanto as receitas geradas pelas lavouras recuaram de forma expressiva nos últimos anos, a pecuária ganhou importância e ajudou a amortecer parte das perdas registradas na agricultura. Em 2020, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul somavam cerca de R$ 198 bilhões em valor bruto das lavouras. Para 2026, a estimativa caiu para aproximadamente R$ 158 bilhões, uma diferença de R$ 40 bilhões.
No mesmo intervalo, o movimento da pecuária foi na direção oposta. As receitas passaram de aproximadamente R$ 133 bilhões para R$ 150 bilhões, mostrando que carnes, leite e outras atividades animais assumiram papel ainda mais importante na geração de valor regional. O resultado expõe uma transformação estrutural no agro sulista: a região continua sendo uma das maiores potências agrícolas do país, mas está cada vez mais apoiada na força de suas cadeias de proteína animal.
Lavouras perdem espaço no valor da produção
A queda observada nas lavouras está relacionada a uma combinação de fatores.
Nos últimos anos, os três estados enfrentaram sucessivos episódios de seca, excesso de chuva e enchentes, comprometendo produtividade e renda em culturas importantes.
Ao mesmo tempo, oscilações nos preços internacionais de grãos também afetaram o valor gerado pela produção agrícola.
Esse cenário reduziu a participação da região no ranking nacional do valor bruto das lavouras.
O Paraná, que já ocupou a segunda posição entre os estados brasileiros, aparece agora em quarto. O Rio Grande do Sul ocupa a sexta colocação, enquanto Santa Catarina está em nono.
A mudança não significa que o Sul deixou de ser competitivo em grãos. A região continua com forte presença em soja, milho, trigo, arroz e outras culturas.
O que mudou foi o peso relativo dessas atividades dentro do conjunto do agronegócio brasileiro.
Pecuária ajuda a compensar parte da perda
Se a agricultura perdeu receita, a pecuária conseguiu avançar.
Entre 2020 e 2026, o valor associado às atividades pecuárias da região cresceu aproximadamente R$ 17 bilhões.
Esse crescimento não elimina a redução verificada nas lavouras, mas diminui o impacto sobre a economia rural regional.
A força da pecuária está ligada principalmente à estrutura industrial consolidada do Sul.
A região abriga cooperativas, frigoríficos, fábricas de ração, sistemas integrados de produção e uma ampla rede de produtores especializados.
Essa organização permite que parte significativa do milho e da soja produzidos localmente seja transformada em carne, agregando valor antes de chegar ao mercado.
Sul domina produção de frangos e suínos
É justamente nas proteínas animais que o peso da região fica mais evidente.
Em 2025, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul responderam juntos por aproximadamente 73% dos abates de suínos realizados no Brasil.
Na avicultura, a participação foi de cerca de 66% dos abates nacionais de frangos.
O protagonismo também aparece no comércio exterior.
Os três estados concentraram aproximadamente 77% da receita brasileira obtida com exportações de carne de frango e cerca de 90% da receita gerada pelas exportações de carne suína.
Esses números ajudam a explicar por que a pecuária conseguiu sustentar uma parte relevante do valor agropecuário mesmo em um período difícil para as lavouras.
Paraná se destaca na avicultura
Dentro desse cenário, o Paraná ocupa posição central.
O estado é o maior produtor brasileiro de carne de frango e abriga algumas das maiores estruturas de processamento do país.
A presença de cooperativas e agroindústrias permite uma integração intensa entre produção de grãos e criação de aves.
Milho e soja produzidos na região são utilizados na fabricação de rações, que depois alimentam uma cadeia capaz de transformar matéria-prima agrícola em proteína de maior valor agregado.
Essa integração reduz a dependência exclusiva da venda do grão e ajuda a manter renda dentro do próprio território.
Santa Catarina mantém liderança nos suínos
Santa Catarina, por sua vez, mantém uma das cadeias de suinocultura mais consolidadas do país.
O estado combina alta densidade de produção, agroindústrias, cooperativas e forte presença exportadora.
O modelo catarinense também se destaca pelo elevado nível de integração entre produtores e frigoríficos.
Em muitos municípios, a produção de suínos representa uma das principais fontes de renda da economia rural.
Essa especialização ajuda a explicar por que a pecuária consegue ocupar espaço relevante mesmo em um estado com área agrícola menor que a de Paraná e Rio Grande do Sul.
Rio Grande do Sul enfrenta maior volatilidade climática
Entre os três estados, o Rio Grande do Sul foi particularmente afetado por eventos climáticos severos nos últimos anos.
Secas prolongadas e enchentes provocaram perdas importantes em diferentes safras.
Essa maior instabilidade climática teve impacto direto sobre o valor das lavouras.
Ao mesmo tempo, o estado mantém participação expressiva na produção de aves, suínos, bovinos e leite.
A diversificação entre agricultura e pecuária ajuda a reduzir parte da exposição econômica causada por perdas concentradas em uma única atividade.
Transformar grão em carne aumenta valor dentro da região
Um dos pontos mais importantes desse movimento é a capacidade de transformar produção vegetal em proteína.
Milho e farelo de soja são ingredientes essenciais das rações utilizadas por aves e suínos.
Quando esses grãos são destinados à produção animal, deixam de ser apenas commodities comercializadas diretamente e passam a integrar cadeias industriais maiores.
Essa transformação movimenta frigoríficos, transportadores, fábricas de ração, serviços veterinários, genética, equipamentos e uma série de outras atividades.
O resultado é uma economia agropecuária menos dependente exclusivamente do preço internacional dos grãos.
Clima coloca modelo agrícola sob pressão
A perda de receita das lavouras também reforça uma discussão importante sobre adaptação climática.
A Região Sul sempre esteve entre as áreas agrícolas mais produtivas do Brasil, mas eventos extremos vêm aumentando a volatilidade das safras.
Secas reduzem produtividade, enquanto excesso de chuva pode atrasar plantio, dificultar colheita e comprometer a qualidade dos grãos.
Nesse contexto, atividades pecuárias também enfrentam riscos, mas oferecem outra composição de receita para as propriedades e para a economia regional.
A diversificação, portanto, pode assumir papel cada vez mais estratégico.
Proteínas animais ganham peso no futuro do agro sulista
O recuo de R$ 40 bilhões no valor das lavouras desde 2020 mostra que o Sul enfrenta desafios importantes. Mas a expansão da pecuária revela que a região não depende de uma única fonte de renda.
Frango e suíno, principalmente, se consolidaram como pilares econômicos capazes de gerar valor, emprego e exportações em grande escala.
A tendência não significa uma substituição da agricultura pela pecuária. Na prática, as duas atividades são profundamente conectadas. O que está mudando é o equilíbrio entre elas.
Com um ambiente climático mais instável e mercados agrícolas mais voláteis, a capacidade do Sul de transformar grãos em proteínas pode se tornar uma vantagem ainda mais importante para sustentar sua posição entre as principais regiões agropecuárias do país.
Fontes: Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), dados do Valor Bruto da Produção Agropecuária e estatísticas setoriais de abate e exportação.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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