Sorgo ganha mercado e pode dobrar área plantada no Brasil até 2035

Demanda de usinas de etanol, oportunidades de exportação para a China e evolução tecnológica ampliam as alternativas de comercialização e a competitividade da cultura

O sorgo começa a ampliar seu espaço na agricultura brasileira, com oportunidades que vão além de seu uso tradicional na alimentação animal. A demanda das usinas de etanol, a abertura do mercado chinês e os investimentos em sementes e manejo criam novas perspectivas para o cereal. Nesse cenário, a área plantada no Brasil pode dobrar até 2035, segundo projeção de Enilson Nogueira, consultor e analista de mercado agrícola vinculado ao Grupo Tático de Aumento de Produtividade (GETAP) e à consultoria Céleres.

A expansão, no entanto, depende da consolidação desses mercados e da capacidade de transformar o interesse dos compradores em demanda efetiva. Para o produtor, a oportunidade está na combinação entre adaptação às condições de cultivo, custo de produção e acesso a diferentes canais de venda.

Em regiões sujeitas à redução das chuvas durante a segunda safra, o sorgo também ganha relevância como alternativa para diversificar o plantio. Sua maior tolerância ao déficit hídrico pode favorecer a estabilidade produtiva em determinadas condições, embora o desempenho continue dependendo da janela de semeadura, do solo e do manejo.

Usinas de etanol ampliam as oportunidades para o sorgo

Segundo Nogueira, um dos principais motores dessa expansão é a possibilidade de utilização do sorgo pelas usinas de etanol que processam grãos. O cereal pode complementar o abastecimento de milho, especialmente em regiões onde o risco climático exige maior atenção no planejamento da segunda safra.

O analista aponta oportunidades no Vale do Araguaia, em Mato Grosso, e em áreas de Goiás, Maranhão e Bahia. Nessas regiões, a presença ou a expansão da indústria de biocombustíveis pode abrir novos destinos para a produção.

Além da adaptação agronômica, o preço influencia o interesse dos compradores. Segundo Nogueira, o sorgo tem sido negociado entre 10% e 15% abaixo do milho, diferença que favorece sua avaliação como matéria-prima pelas usinas.

“O sorgo tem sido negociado entre 10% e 15% abaixo do preço do milho, diferencial que favorece sua utilização pelas usinas e amplia o interesse por ele”, destaca.

Para ilustrar o potencial desse mercado, o consultor considera um cenário de consumo de 30 milhões de toneladas de grãos pelo segmento industrial. A substituição de apenas 5% desse volume por sorgo representaria uma demanda de 1,5 milhão de toneladas.

O cálculo é uma simulação de mercado, e não uma indicação de compras já contratadas. Ainda assim, mostra como uma participação relativamente pequena na matriz de matérias-primas das usinas pode representar um volume relevante para a cadeia do sorgo.

“Um esforço relativamente pequeno para incorporar o sorgo à matriz de matérias-primas dessas usinas já provoca um impacto muito grande na dinâmica de oferta e demanda desse segmento”, afirma o analista.

Mercado chinês abre uma nova frente de comercialização

No comércio internacional, a habilitação de exportadores e armazéns brasileiros para comercializar sorgo com a China amplia as perspectivas para o cereal.

O país asiático utiliza o grão na alimentação animal e na produção de bebidas tradicionais, como o baijiu, destilado que pode ser elaborado a partir do sorgo. Essas aplicações oferecem diferentes possibilidades de destino para a matéria-prima brasileira.

Na avaliação de Nogueira, a demanda chinesa também pode criar uma referência adicional para a formação de preços no Brasil.

“Quando os valores obtidos nas exportações se aproximam dos praticados para o milho, o sorgo ganha competitividade e passa a contar com uma referência comercial adicional”, afirma.

Para o agricultor, a diversificação dos compradores amplia as alternativas de negociação. Além das indústrias de ração, a produção passa a ser considerada por usinas e exportadores, conforme as condições comerciais e logísticas de cada região.

“Agora, o produtor conta com diferentes alternativas de mercado: exportadores, usinas e compradores do setor de alimentação animal. Essa diversificação reduz os riscos comerciais associados à produção”, explica.

Projeção aponta exportações de até 2 milhões de toneladas

Nas estimativas apresentadas pelo consultor para o ciclo 2025/26, as exportações brasileiras de sorgo podem alcançar cerca de 2 milhões de toneladas, ante aproximadamente 100 mil toneladas no ciclo anterior.

A projeção depende da efetivação das compras internacionais. Caso se confirme, representará uma mudança expressiva na dimensão do mercado externo da cultura e poderá estimular investimentos na produção e na estrutura de comercialização.

Um volume de 2 milhões de toneladas corresponderia, por exemplo, à produção de aproximadamente 400 mil hectares, considerando produtividade de 5 toneladas por hectare. A área necessária varia conforme o rendimento obtido nas lavouras.

A possibilidade de crescimento das vendas à China, somada à demanda das usinas e dos compradores tradicionais, sustenta a avaliação de que o sorgo poderá ampliar sua participação na agricultura brasileira.

Área plantada pode dobrar até 2035

Partindo de uma área estimada pelo consultor em cerca de 2,2 milhões de hectares, o cultivo de sorgo poderia alcançar aproximadamente 4,4 milhões de hectares até 2035.

Esse avanço está condicionado à continuidade do crescimento da demanda, à evolução tecnológica e à atratividade econômica da cultura em relação às demais opções de segunda safra.

Para Nogueira, o cereal tem espaço para ganhar importância entre os grãos cultivados no país. A expansão dependerá, sobretudo, de sua capacidade de oferecer uma relação favorável entre produtividade, custos, riscos e preço de venda.

O aumento da área também exige atenção à estrutura regional de recebimento e escoamento. A existência de mercado nacional ou internacional não garante, por si só, condições comerciais igualmente vantajosas em todas as regiões produtoras.

Tecnologia eleva o potencial produtivo

A evolução das sementes e das práticas de manejo é outro fator que contribui para a competitividade do sorgo.

Segundo o analista, a disponibilidade mais limitada de materiais genéticos e de tecnologias específicas restringia o desempenho da cultura no passado. Nos últimos cinco anos, as perspectivas de crescimento da demanda estimularam empresas a ampliar os investimentos nesse mercado.

Nogueira relata a existência de lavouras de segunda safra com produtividade de 130 a 140 sacas por hectare, aproximando-se dos resultados do milho em determinadas condições de cultivo.

Esses desempenhos mostram o potencial da cultura, mas não devem ser interpretados como produtividade média nacional ou garantia de resultado. A resposta no campo depende de fatores como material genético, época de plantio, fertilidade, disponibilidade de água e controle de plantas daninhas, pragas e doenças.

Para o produtor, a avaliação econômica precisa considerar o conjunto desses elementos, além das condições de comercialização disponíveis.

O que avaliar antes de ampliar o plantio

A maior tolerância do sorgo à restrição hídrica pode contribuir para o planejamento em regiões onde o milho de segunda safra enfrenta maior risco de perdas. Entretanto, a decisão de ampliar a área precisa estar associada à expectativa de margem da lavoura.

Preço de venda, produtividade esperada, custo de produção, frete e acesso aos compradores são fatores centrais nessa análise. Um desconto em relação ao milho pode favorecer a demanda industrial, mas seu efeito sobre a rentabilidade do agricultor depende dos custos e do rendimento obtido.

“Com alternativas de venda para usinas, exportadores e indústrias de ração, o produtor passa a avaliar o sorgo não apenas pelas características agronômicas, mas também pelas oportunidades comerciais disponíveis em sua região”, afirma Nogueira.

O avanço da cultura também será tema de uma iniciativa do GETAP para reconhecer resultados obtidos no campo. Segundo a organização, os primeiros vencedores da premiação dedicada ao sorgo serão anunciados no fim de novembro, em evento em Indaiatuba (SP).

A proposta é destacar produtores que investem na cultura e dar visibilidade às práticas que contribuem para melhorar seu desempenho nas lavouras brasileiras.

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